ABUSO DE PODER

Policial militar, bêbado e à paisana, atira a êsmo e fere trabalhador em São Bernardo (Grande São Paulo)

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  Data: 15 de outubro de 2005
 
Local: Rua Frei Gaspar, Vila Gonçalves, São Bernardo (Grande São Paulo)
 
Vítima: Adonias Gonçalves de Oliveira, 21 anos
 
Agentes do Estado: um 3º sargento da Polícia Militar

Relato do caso: Adonias Gonçalves de Oliveira, de 21 anos, manobrista de um estacionamento na Rua Frei Gaspar, Vila Gonçalves, em São Bernardo do Campo, saía do trabalho e corria para apanhar uma condução quando foi interpelado por um homem à paisana, vestido com uma calça preta e uma camisa verde e portando uma arma na mão. Esse homem era um 3º Sargento da PM, visivelmente alcoolizado, de folga mas, contrariamente às regras, portando uma arma. “Eu vi tudo. O Adonias saiu do estacionamento para pegar um carro e um homem armado mandou ele parar, falando que era policial. Como ele não estava fardado nem nada, o Adonias saiu correndo e foi baleado. Caiu ao lado do meu carro”, conta Antônio Veras Neto, 40, proprietário do estacionamento onde o rapaz trabalhava. O dono do estacionamento é ainda quem explica como tentou socorrer Adonias: “Saí correndo, pulando muros das casas vizinhas para tentar chamar socorro, enquanto esse sargento atirava e xingava todo mundo” (Diário do Grande ABC, 20/10/2005).

Com efeito, testemunhas dão conta de que o sargento fazia o maior escarcéu, espalhando o pânico entre os moradores do bairro. A confusão provocada pelo PM bêbado só terminou com a chegada de outros policiais militares. Nesse momento chegou a ambulância para acudir Adonias. Os policiais primeiramente passaram a revistar todos os manobristas, pois a vítima e sua comunidade são sempre os principais suspeitos. De acordo com o empresário Antonio Veras Neto, os PMs, no entanto, “não revistaram o sargento, que estava trançando as pernas. Como todos os manobristas estavam deitados no chão, o bêbado aproveitou para pisar na cabeça de todo mundo” (Diário do Grande ABC, 20/10/2005). Já em relação ao sargento os policiais solicitaram gentilmente a arma, fazendo-o entrar na viatura policial.  Então, todos seguiram para o 1º DP onde prestaram depoimento.

Situação da investigação: Em seu depoimento à polícia, o sargento disse que teria ouvido um estampido semelhante ao som de um tiro, achando que era um assalto. Sem pensar que estava em rua movimentada, cheia de pessoas, em um reflexo que agora todos os policiais têm, inclusive os que estão de folga e à paisana, atirou e acertou em Adonias. O policial disse ter descoberto depois que o som era o do escapamento de uma motocicleta junto do estacionamento.  Os donos do estabelecimento negam a existência do veículo, reafirmando que o sargento estava completamente bêbado. Aliás, no Boletim de Ocorrência do 1º DP de São Bernardo está registrado que o policial negou-se a fazer o teste de teor alcoólico no sangue.

A família do manobrista baleado afirma que Adonias levou 12 horas para ser devidamente atendido no Pronto-Socorro Central de São Bernardo. O rapaz teria chegado às 3h de sábado no PS e saído às 15h. Aí foi transferido para o Hospital Anchieta para ser operado. Divina das Dores da Silva, 40, mãe de Adonias, afirma que o rapaz foi baleado na nádega e também na região do abdômen. "Estranho eles colocarem só uma bala no boletim de ocorrência. Ele tomou dois tiros. Uma das balas explodiu dentro dele, provocando complicações. Agora, ele ainda corre risco”, conta a mãe (Diário do Grande ABC, 20/10/2005). Já a Prefeitura de São Bernardo prefere a versão policial sobre a questão dos números de tiros e os locais atingidos, dizendo que o paciente teria sido prontamente atendido. “O tiro entrou pela nádega, mas após os exames de raio X e ultra som havia a suspeita de que a bala poderia estar alojada no abdômen. O quadro do paciente era estável e ele foi transferido e operado”, afirmou a administração, por meio de nota. O comunicado ainda  afirma que Adonias deveria ter alta nos próximos dias (Diário do Grande ABC, 20/10/2005).  A família de Adonias, no entanto, está preocupada com a situação do jovem hospitalizado, pois sendo o mais velho de quatro irmãos, era a principal fonte de renda, segundo a mãe. Ele trabalhava, há três meses, na área administrativa de uma empresa, porém como foi despedido, para ajudar a família aceitou trabalhar como manobrista. Viviane Caruso Farnocchia Veras, 32 anos, mulher de Antônio Veras Neto, e também proprietária do estacionamento, afirma que Adonias é bom funcionário. "Conhecemos ele há muito tempo. É um rapaz muito sossegado. Freqüentamos a mesma igreja (evangélica), diz Viviane (Diário do Grande ABC, 20/10/2005)

O delegado titular do 1º DP de São Bernardo, instaurou na segunda-feira inquérito policial para averiguar o caso. Segundo o delegado, nada impede que, conforme evoluam as investigações, a averiguação passe a ser de tentativa de homicídio. “Mas para tipificar o crime como tentativa de homicídio deve estar clara a intenção de matar”, afirma. O crime foi tipificado como lesão corporal, ressalta o delegado e despudoradamente explica: “porque, no quadro imaginário, ele pensava que estava ocorrendo um assalto e que era um bandido fugindo” (Diário do Grande ABC, 20/10/2005).  O delegado enviou cópia do B.O. para a Polícia Militar. Por sua parte esta, como sempre, prometeu investigar. “Como em todos os casos desse tipo será feita uma apuração disciplinar para averiguar se ele tem condições de continuar trabalhando junto à comunidade”, afirma o comando do CPA/M-6 (Comando de Policiamento Metropolitano por Área 6) (Diário do Grande ABC, 20/10/2005).

Fonte:
Diário do Grande ABC, (20/10/2005)