Data:
20 de outubro de 2006
Local:
Bar na Rua Domingos de Abreu, Favela São Rafael, Guarulhos (Grande
São Paulo)
Vítima: Éviton Rosa
Brandão, de 33 anos
Agente
do Estado:
policiais militares das viaturas 15231, 15241 e 15203 da Polícia Militar
Relato do caso:
No dia 20 de outubro de
2006, numa sexta-feira, por volta das 23hs da noite, três viaturas da
Polícia Militar – de números 15231, 15241 e 15203 – estacionaram
ostensivamente diante de um bar na Rua Domingos de Abreu, na Favela São
Rafael, em Guarulhos (Grande São Paulo). Os policiais entraram no bar e
exigiram, com gritos e xingamentos, que a música, tocada ao vivo – era um
forró, um dos poucos divertimentos que ainda têm as populações da
periferia –, cessasse imediatamente. O músico Éviton Rosa Brandão, de 33
anos, tecladista do grupo chamado Lua Nua, indagou ao policial o motivo
pelo qual eles deveriam parar de tocar, mas teve como resposta outros
xingamentos na base da humilhação. A ordem policial começou a ser
cumprida, mas durante a desmontagem dos instrumentos Éviton avisou que a
saída do grupo e de seus instrumentos só seria possível se as três
viaturas abrissem um espaço para que a Kombi dos músicos, que estava a 50
metros, pudesse estacionar em frente ao bar. No mesmo instante cerca cinco
policiais militares agrediram Éviton com tapas no rosto, chutes na barriga
e pontapés, segundo as testemunhas, sendo que um deles apontava a arma
contra seu rosto e batia diversas vezes com o cano em seu queixo e seu
peito.
Diante da violenta
agressão, as pessoas do bar levantaram-se contra esse abuso de poder dos
policiais militares e, desesperadas, pediram o fim daquele espancamento. O
pedido foi atendido, com Éviton sendo jogado no chão. Em seguida seis
policiais militares alinharam-se em forma de barreira à entrada do bar,
ameaçando a todos: “Nós voltaremos e se tiver forró aqui vamos quebrar
todo mundo no pau” (Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de
Guarulhos).
Neste momento Éviton
levantou-se, afirmou saber de seus direitos e fez o gesto de quem se
preparava para anotar os números das viaturas. Foi o que bastou para que
recomeçasse o espancamento. Um dos policiais atravessou a rua e arrastou-o
pelos cabelos, levando-o até bem próximo de uma das viaturas. Xingando-o
de burro, bateu por diversas vezes sua cabeça contra a lateral traseira do
carro policial, mostrando que o número a anotar não era o da placa
dianteira, e sim aquele contra o qual a cabeça era batida. E dizia: “Pode
anotar o número agora, anota aí” (Agora, 22/10/2006).
As testemunhas
relataram que o policial parou com a agressão somente quando muitas
pessoas começaram a se manifestar. Mas nem por isso deixaram de continuar
a ameaçar a todos com gás de pimenta, dizendo: “Tem gás e bala pra todo
mundo, vai circulando, quem manda aqui é nós” (Comissão de Direitos
Humanos da Câmara Municipal de Guarulhos). É interessante lembrar ainda
que consta do relato das testemunhas que durante toda a ação três
policiais manejavam suas armas de forma displicente, engatilhando e
desengatilhando, apontando para diversas direções e com a típica
fisionomia de drogados.
Foram as testemunhas que anotaram a identificação das
viaturas: 15231, 15241 e 15203. Elas afirmaram que nos últimos três meses
essas incursões intimidatórias de policiais militares tem sido constantes
na região: “Os PMs chegam aqui xingando e agredindo pessoas” (Agora,
22/10/2006).
Situação da
investigação:
As agressões e o abuso de poder por parte de policiais não são uma
novidade na região de Guarulhos. Na verdade a cidade, com quase um milhão
e 300 mil habitantes, pertencente à Grande São Paulo, tem sido palco das
mais graves violações dos direitos humanos praticadas por policiais:
desaparecimentos, execuções sumárias, torturas, sendo os constantes abusos
de poder, uma espécie de ante-sala dessas violações mais graves.
O caso de Éviton Rosa
Brandão foi relatado à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de
Guarulhos e está sendo encaminhado à Ouvidoria de Polícia do Estado de São
Paulo. É preciso que as vítimas desses espancamentos gratuitos e as
testemunhas desses casos tenham coragem de levar adiante a denúncia, o
que, sabe-se, é difícil, pela constante ameaça de retaliação por parte dos
policiais.
Fontes:
Comissão de Direitos Humanos da Câmara
Municipal de Guarulhos; Agora, São Paulo (22/10/2006)