Data:
19 de outubro de 2005
Local:
Rua Gregório de Matos,
Bairro Condomínio Maracanã, Santo André (Grande São Paulo)
Vítima:
Jefferson Ribeiro, 24 anos
Agentes
do Estado: um cabo da 2ª Companhia do 41º Batalhão da Polícia Militar
Relato do caso:
Na noite de 19 de outubro de 2005, por volta das 18h45,
Jefferson Ribeiro, de 24 anos, dirigia-se à escola de caderno na mão, num
dia de chuva, quando um veículo da Polícia Militar, viatura M-41205,
respingou água nele ao passar. “Meu filho xingou e fez um gesto”, conta o
pai, o jardineiro desempregado Antonio Domingues Ribeiro, de 49 anos, que
também estuda no supletivo na mesma escola e acompanhava o filho (O
Estado de São Paulo, 20/10/2005). “Então continuamos a caminhar. Mas a
viatura fez uma manobra e voltou. Emparelhou conosco. Na viatura, estavam
dois policiais: um soldado na direção e ao
lado, um cabo da 2ª Companhia do 41º
Batalhão da Polícia Militar. Os policiais não disseram nada. Um deles
simplesmente atirou” (Jornal da Tarde, 20/10/2005). O tiro foi
disparado pelo cabo. O pai conta que o tiro pegou o ombro esquerdo
de Jefferson. Antônio disse que nessa hora correu. Achava que o filho
estava morto e tinha medo de também ser executado.
Não houve tempo para se esconderem.
Segundo o pai da vítima, muitas pessoas presenciaram o caso.
“Depois que ele viu a besteira que fez,
veio socorrer meu filho. Ele queria que eu os acompanhasse. Mas preferi
não entrar no carro”, relata o pai, fazendo menção ao medo que
sentiu de que ele e o filho viessem a ser executados pelos policiais
dentro da viatura. “Como eu fiquei, eu era uma testemunha que poderia
garantir a vida do meu filho” (Diário do
Grande ABC, 21/10/2005). Desse modo
Jefferson foi levado pela viatura policial para o Pronto Socorro Municipal
Central, de Vila Assunção. Depois foi transferido para o Centro Hospitalar
Municipal de Santo André.
Antônio, o pai, passou a noite no 1º DP de Santo André.
Outros familiares permaneceram no hospital, esperando para ver o parente
ferido.
Situação da
investigação:
Para o delegado do 1º DP os policiais militares
contaram uma versão diferente dos fatos. Eles disseram que ao passar pelo
rapaz e o pai, ouviram um grito. Ao fazer a manobra, acharam que Jefferson
tinha as mãos dentro da jaqueta e parecia estar armado. O cabo disse
ter visto um objeto preto na mão de Jefferson (era um estojo). E atirou,
sem mirar. Era para ser uma advertência, mas o tiro pegou o rapaz. O
delegado achou plausível a versão dos policiais e decidiu registrar o caso
como lesão corporal e não como tentativa de homicídio. Para o delegado
pesou o fato de o cabo ter dado “apenas” um tiro no estudante. O socorro
prestado à vítima e a apresentação espontânea de Silva ao distrito também
valeram para convencer o delegado. Os policiais foram liberados. Mas serão
investigados pelo 1º DP da cidade e desde
já foram afastados. Iriam trabalhar no setor administrativo da polícia até
que o caso seja apurado. "Testemunhas serão ouvidas e o caso será julgado
na Justiça da Militar", garante o major José de Quesada Farina, do comando
do CPA/M-6 (Comando de Policiamento Metropolitano por Área 6) (Diário
do Grande ABC, 21/10/2005). Segundo o major, não há nada que desabone
o histórico dos dois PMs.
A
Ouvidoria de Polícia do Estado não recebeu nenhuma denúncia de familiares
sobre a ocorrência. O órgão, no entanto, informou que promoveria na semana
do fato ocorrido, na Secretaria Estadual de Segurança Pública, no centro
de São Paulo, reunião para tratar justamente da letalidade da Polícia
Militar, em vista do aumento da violência policial.
Como notou o jornalista do
Diário do Grande ABC (21/10/2005), Artur Gonçalves, este caso de abuso
de poder assemelha-se outro ocorrido alguns dias antes, quando o
manobrista Adonias Gonçalves de Oliveira (leia
mais), de 21 anos, foi baleado por outro policial militar, à
paisana e de folga, em São Bernardo. Em comum, os dois casos de abuso de
poder têm, além da truculência e do descaso pela vida humana, o fato das
duas vítimas serem negras e pobres, moradores da periferia de São Paulo.
Fontes: O Estado de São Paulo,
20/10/2005; GloboNews,
19/10 2005; 20/10/2005; Agência Estado,
19/10/2005; Jornal da Tarde, 20/10/2005; Diário do Grande ABC,
21/10/2005