Data: 5 de janeiro de
2006
Local: Rua Miguel Maurício Munhoz, 25, Novo Osasco,
Osasco (Grande São Paulo)
Vítima: Comunidade Carlos
Lamarca (MTST)
Agentes
do Estado: cerca de 20
policiais militares
do
14º Batalhão da Polícia Militar
Relato do caso:
Apesar
de estar estabelecida há quase três anos em um terreno de propriedade
privada em Osasco - na Rua Miguel Maurício Munhoz, nº 25, Bairro Novo
Osasco – a Comunidade Carlos Lamarca, do MTST (Movimento dos Trabalhadores
Sem Teto), foi objeto de uma ordem de despejo concedida por uma liminar e
marcada para o dia 9 de janeiro de 2005. Ora, essa ordem de despejo era
irregular e ilegítima, já que a ação de reintegração de posse por parte do
proprietário tem que ser feita antes de que a ocupação do terreno complete
um ano e um dia. A ocupação Carlos Lamarca, contando hoje com cerca de 100
famílias, está no terreno desde 20 de outubro de 2003. O proprietário do
terreno só entrou com o pedido de liminar em outubro de 2005. Além disso
havia já um diálogo adiantado com a prefeitura de Osasco para a construção
de casas populares.
No dia
5 de janeiro de 2006, por volta das 18 hs, os ativistas e líderes do MTST
voltavam de uma reunião na Câmara dos Vereadores, contentes por terem
obtido apoio de vários vereadores e do prefeito de Osasco, Emídio Pereira
de Souza, do PT, contra a liminar e comemoravam em um bar da comunidade
que fica na esquina. Eram cerca de 30 pessoas, entre homens, mulheres e
crianças. Pouco tempo havia se passado quando três viaturas do 14º
Batalhão da Polícia Militar se aproximaram do local e os policiais
desceram, já com armas nas mãos, anunciando uma revista. Logo de início um
dos ativistas do movimento, que saía do bar para ser revistado, foi
agredido com tapas no rosto por um policial militar. Outro foi agredido por outros policiais, arrastado e
jogado sobre uma moita. A revista continuou da forma mais violenta
possível em relação não apenas aos que estavam comemorando, como também a
todos os que passavam. Agressões físicas e verbais foram relatadas por
todos, pessoas empurradas, chutadas, frases como “sai daí seus bando de
lixo”, “aí só tem puta”, “vocês são lixo, são bosta”. Nada foi
encontrado. Mas os policiais militares ali permaneceram provocando e
insultando as pessoas. A tensão era grande, a indignação também, e algumas
lideranças tentaram dialogar com o comandante da operação, 2º Sargento PM, pedindo que fossem embora já que não haviam encontrado nada de
desabonador. Durante esse diálogo um ativista foi agredido com chutes e
tapa no rosto, bem como jogado ao chão.
Outras viaturas
chegaram, muitas pessoas já tinham entrado na comunidade, quando os
policiais militares invadiram o terreno, de armas em punho, inclusive
metralhadoras, e começaram a jogar gás. Um tenente da Polícia Militar
sugeriu que uma liderança se apresentasse e se entregasse, o que foi feito
com o intuito de terminar o conflito. O líder que se apresentou foi
agredido, ameaçado de morte e colocado dentro de uma viatura. Dentro da
comunidade a indignação era enorme e as pessoas começaram a atirar pedras.
Nesse momento os policiais resolveram retirar-se, mas ao sair cometeram
outra barbaridade: tomaram uma moradora de 45 anos como refém e ameaçaram
“estourar seus miolos” caso fossem atingidos por mais alguma pedra. A
moradora só foi liberada quando a última viatura da polícia foi embora.
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Situação da
investigação:
No total foram presos cinco pessoas da Comunidade Carlos Lamarca e levadas
para o 1º Distrito Policial de Osasco. O primeiro ativista agredido foi um
deles e foi novamente espancado dentro da viatura ficando bastante ferido.
As cinco pessoas foram liberadas às 23,30 hs. O delegado do 1º DP
recusou-se a registrar um Boletim de Ocorrência com a queixa da agressão
policial. Entre os presos e outros, seis pessoas tiveram que ser levadas
ao hospital e posteriormente foram encaminhadas ao IML (Instituto
Médico-Legal) de Osasco para exame de corpo de delito. Os ativistas
fizeram denúncia das agressões sofridas à Ouvidoria da Polícia de São
Paulo e à Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo. Estima-se que
havia pelo menos vinte policiais na operação
Por seu lado, a Central
de Operações da Polícia Militar de Osasco negou aos jornais que tivesse
havido confronto entre os moradores da Comunidade Carlos Lamarca e os
policiais militares, minimizando e caracterizando apenas como o
apaziguamento de uma “bagunça” diante de um bar (Diadema
Jornal – SP, 06/01/2006;
Agência Estado
– SP, 06/01/2006).
No dia seguinte à
covarde agressão da Polícia Militar, os advogados do MTST entraram com um
pedido de reconsideração da liminar de reintegração de posse e o juiz
substituto revogou a liminar, já que não cabia esse tipo de ação.
No dia 13 de janeiro
foi realizado, no Sindicato dos Químicos de Osasco e Região, na Praça
Joaquim dos Santos Ribeiro, em Osasco, com o apoio do CONDEPE (Conselho
Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana),
um ato de desagravo aos
moradores da Comunidade Carlos Lamarca, que contou com a participação do
Ouvidor da Polícia de São Paulo, Dr. Funaro, representantes de diversas
entidades de direitos humanos, de partidos políticos e de sindicatos, bem
como de moradores da comunidade atacada e da Comunidade Chico Mendes, do
MTST.
Fontes:
Diadema Jornal – SP, 06/01/2006;
Agência Estado
– SP, 06/01/2006;
Diário de S. Paulo,
07/01/2006;http://mtst.info/node/285; http://mtst.info/node/287;
“Relatório da violência sofrida por integrantes do MTST, moradores da
Comunidade Carlos Lamarca, agredidos por policiais militares da Polícia
Militar do Estado de São Paulo”, janeiro de 2006 -
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