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Data:
16 de maio de
2006
Local:
Centro de Capão Redondo (zona sul de São Paulo)
Vítimas: Maurício de Assis Menezes, 28
anos, Edson, 22 anos, Renato, 35 anos, Davi e um senhor de idade
avançada não identificado
Agentes:
quatro
homens que se apresentaram como policiais, à paisana e
encapuzados
Polícia foi autora
de chacina no Capão Redondo, afirmam moradores
Cinco pessoas que não tinham
nada a ver com o PCC foram assassinadas à queima-roupa por homens
que se identificaram como "polícia!"
Dafne Melo e
Tatiana Merlino
da Redação
de Brasil de Fato
Apesar do
frio, Maurício Assis de Menezes veste apenas calça jeans e camisa
azul. São 2 horas da madrugada de terça-feira, dia 16, no centro do
Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo. Acompanhado de seis colegas, o
jovem de 28 anos abre o portão do bar de sua família - onde trabalha
- para desenroscar as lâmpadas que iluminam a lanchonete, também
familiar, que fica bem em frente ao bar.
Maurício mal
tem tempo de chegar à barraca de lanches quando ouve: "Mãos na
cabeça. Polícia!" Em seguida, começam os tiros. Sem expressar
reação, enfileirados e de costas, todos são metralhados por homens
vestidos de roupas escuras e gorro.
Horas antes,
ainda na tarde de segunda-feira, mesmo após ouvir as notícias da
televisão sobre os ataques da organização criminosa Primeiro Comando
da Capital (PCC) em toda a cidade, a família Assis de Menezes não
tem medo. Mantém o seu comércio aberto. Acreditam que como o alvo da
polícia são os criminosos do PCC, não terão problemas. "A gente
confiava na polícia", diz o pai de Maurício, com uma foto da família
nas mãos.
Por volta das
23 horas, o que chama a atenção dos donos e freqüentadores do bar é
um carro Fiat Palio preto com vidros fumé, que passa levando
homens com capuzes. O carro passa vagarosamente em frente ao
estabelecimento, junto com três carros da Polícia Civil, dois deles
da marca Blazer. Marcos*, um dos irmãos de Maurício que também
trabalha no bar da família, ao ver o carro suspeito, vira-se para os
colegas e brinca: "Tá vendo esse carro preto aí atrás? É só para
matar".
Portas
fechadas
Assustados, os
irmãos resolvem fechar o bar, mas os clientes, com medo, não tem
coragem de ir embora e resolvem ficar mais tempo dentro do
estabelecimento, já com as portas fechadas. Cerca de três horas
depois, os clientes resolvem voltar para casa, e Maurício lembra que
deixou as luzes da barraca acesa. Junto com ele, está Edson,
funcionário da lanchonete, que trabalha há cinco anos para a
família. Antes de ser assassinado, o jovem de 22 anos coloca em cima
do balcão da barraca dois sanduíches que levaria para casa.
De dentro do
bar, Marcos ouve "Mãos na cabeça. Polícia!". Olha pela janela e vê
quatro homens. Desce correndo para dar assistência ao irmão e
explicar que “são todos trabalhadores”, mas é tarde demais. Os tiros
já haviam começado. “Acho que foram mais de 30”. Imediatamente, vai
novamente à janela. Os agressores não estão mais lá.
Pedidos de
ajuda
“Desci
para procurar meu irmão. Todos meus amigos me pedindo ajuda: 'me
ajuda, tá doendo demais'. O Edson dizia: 'tá doendo demais, não me
deixa morrer'. Todo mundo gemendo. O Renato tentava levantar e pedia
ajuda. Meu desespero era procurar meu irmão”, conta Marcos, que
encontrou Maurício já morto atrás da barraca.
Marcos conta
que em menos de dois minutos, 12 viaturas do 37º Batalhão da Polícia
Militar chegaram no local. “Chegaram socorrendo e começaram a
recolher as cápsulas. Foi tudo muito rápido”. De acordo com a lei,
quando há vítimas fatais, a polícia não pode alterar a cena do
crime, mas deve aguardar a chegada da polícia científica para dar
início à perícia. O procedimento, entretanto, não foi observado
neste caso. De acordo com Marcos, também não foi colhido nenhum
depoimento no local.
Em conversa
com o irmão de Maurício, os policiais militares disseram que o
ataque poderia ter sido feito por criminosos do PCC. No entanto, as
testemunhas duvidam. “Se eles eram do PCC, como o Palio preto ia
estar logo atrás dos carros da Polícia Civil? A não ser que eles
fossem loucos”, ironiza. Ainda de acordo com testemunhas, durante a
chacina, o Palio preto estava estacionado próximo ao local do crime,
e os carros da Polícia Civil um pouco mais à frente, mas na mesma
rua.
Na manhã
seguinte, policiais do Departamento de Homicídios e Proteção à
Pessoa (DHPP) foram ao local do crime. Dos sete moradores que foram
atacados, cinco morreram e dois sobreviveram. Questionados pela
reportagem do Brasil de Fato, a assessoria de imprensa da
Secretaria de Segurança Pública afirmou que a chacina ocorrida no
Capão Redondo não entrou para as estatísticas ligadas às ações do
PCC ou da polícia. Foi considerada como um crime comum na cidade de
São Paulo. A secretaria disse informou que um inquérito foi aberto
no DHPP, mas que, para resguardar as investigações, não se pode
informar qual o seu andamento. A Secretaria ainda afirmou que em
casos como este, testemunhas devem fazer a denúncia na Ouvidoria da
Polícia.
Mortes sem
explicações
Reportagem da
Folha de S. Paulo, do dia 21, mostrou que os casos de mortes
à bala diretamente relacionados com a onda de violência desencadeada
pelo PCC na semana passada em todo o Estado foi de 138 mortes.
Somando-se o
número médio de mortes que a capital e Grande São Paulo apresentam
em 5 dias, 65 mortes, “sobrariam” 69 mortes a serem esclarecidas
pelo governo. O fato, entretanto, entra em contradição com
declarações feitas pelo comandante-geral da Polícia Militar de São
Paulo, Elizeu Eclair Teixeira de Borges.
Segundo ele, a
criminalidade rotineira, sem ligação com o PCC, havia caído cerca de
50% desde que começou a onda de atentados. Borges ainda afirmou que
nenhum dos mortos em confronto com a polícia desde o início dos
ataques do PCC era inocente.
De acordo com
familiares, amigos e testemunhas, nenhuma das vítimas da chacina do
Capão Redondo tinha relações com o PCC, nem passagem pela polícia.
Os familiares de Maurício e testemunhas não souberam informar o nome
completo das outras vítimas fatais. Três delas foram identificadas
pelo primeiro nome e apelidos e outra foi identificada apenas pelo
trabalho que fazia na região.
Os mortos
Maurício Assis
de Menezes, caçula de quatro irmãos, era um rapaz pacato, quieto, de
poucas palavras. Trabalhava no bar da família desde os 14 anos. Saía
pouco e gostava de alugar filmes para assistir em casa. A última vez
que saiu para passear, foi a um churrasco na casa da mãe da
namorada, no domingo, Dia das Mães. A namorada, grávida de dois
meses, perdeu o bebê no dia seguinte em que Maurício foi
assassinado. A morte do rapaz chocou amigos e a vizinhança, “porque
ele era o cara mais tranqüilo da região”, dizem testemunhas.
Edson,
conhecido pelos amigos como “Jaca”, tinha 22 anos, era casado e
tinha dois filhos. Trabalhava na lanchonete da família Menezes há
cinco anos. Fanático por futebol, não perdia um jogo do seu time São
Paulo Futebol Clube. Brincalhão, adorava dar apelido para todo mundo
que passava pela barraca de lanches.
Renato,
conhecido como “Brigadeiro”, tinha cerca de 35 anos. Trabalhava com
artesanato e adorava ir à praia. Todos os anos, vendia flores
durante o Dia das Mães. Tinha dois filhos. Um menino de 8 e uma
garota de 19. Fã de teatro, sempre levava o filho a espetáculos
gratuitos no centro da cidade.
Davi era pouco
conhecido das testemunhas, que apenas sabem que o rapaz trabalhava
como motoboy. As testemunhas não sabem o nome da quinta
vítima. De acordo com elas, era um senhor de idade avançada que
trabalhava como catador de material reciclável no bairro do Capão
Redondo
Fonte:
Brasil de Fato
22/05/2006 -
http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/news_item.2006-05-22.0337379176
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