Data:
9 de julho de
2006
Local:
Esquina das ruas São João da Ponte e Axixa, na Favela São
Rafael, Guarulhos (Grande São Paulo)
Vítimas:
Roni de Souza, de 17 anos, Eder Soares, de 20 anos e
Francisco Ferreira Romão, de 21 anos
Agentes do Estado:
policiais militares
Relato do caso:
Na madrugada do domingo, 9 de julho de 2006, o carro de um
policial militar da ROCAM (Rondas Ostensivas com Apoio de
Motocicletas) foi alvejado por tiros
disparados por homens que fugiram logo em seguida, numa moto, na
altura do Km 22 da Rodovia Ayrton Senna, em Guarulhos, na Grande São
Paulo. Os tiros acertaram os vidros e outras partes do veículo. O
policial escapou sem nenhum ferimento. Coincidência ou não, o fato é
que minutos depois do ataque ao carro do policial, ocorreu uma
chacina que deixou três mortos na Favela São Rafael, considerada uma
das mais críticas da cidade de Guarulhos, e que fica localizada a
menos de cinco quilômetros da rodovia. Uma das vítimas, enquanto era
socorrida por sua mãe, foi muito clara ao dizer que os “PMs eram os
responsáveis pelo crime” (Folha de S. Paulo, 11/07/2003).
A tese de que a chacina era uma represália ao ataque ao
carro do policial foi reiterada no depoimento de parentes e
moradores da própria favela. “Não é de hoje que é assim mesmo nas
favelas: quem é preto e pobre, se tromba [encontra] a polícia na
madrugada, já era [morre]”, salientou o parente de uma das vítimas (Folha
de S. Paulo, 11/07/2006). Na chacina foram sumariamente
executados com vários tiros os jovens Eder Soares, de 20 anos,
Francisco Ferreira Romão de 21 anos, além do adolescente Roni de
Souza, de 17 anos.
Por volta de 5h30 da manhã, os três rapazes, que haviam
acabado de deixar um bar onde, semanalmente, há um forró na favela,
conversavam enquanto caminhavam pela rua, quando foram abordados
repentinamente pelos policiais militares na esquina das ruas São
João da Ponte e Axixa. No lugar, em curto espaço de tempo, mais uma
vez deu-se início a um já conhecido ritual que antecede o crime: os
três rapazes, então de costas para seus algozes, foram obrigados a
baixar as calças para dificultar uma possível fuga, em seguida
postos de joelhos e com as mãos trançadas na nuca foram friamente
executados. Morreram na hora “Eder baleado no peito e dentro da
garganta, ou seja, enfiaram a arma em sua boa e dispararam; e
Francisco, alvejado com 12 tiros na cabeça”, revelou à equipe do
OVP-SP o morador da favela que viu os corpos mas preferiu não se
identificar. Querendo ou não, o recado estava dado: os corpos dos
dois ficaram expostos, sangrando, na esquina das duas ruas da favela
até às 10 da manhã.
Ao que parece, Francisco era a carta marcada do grupo por
ser foragido da Justiça. Há alguns meses, ele havia sido liberado do
presídio para passar um feriado com seus familiares e não retornou
para cumprir o restante da pena por roubo e receptação. Parentes dos
rapazes acreditam que a descoberta do foragido pode ter “inflamado
ódio nos homens que o atacaram com os amigos” e um deles arriscou a
dizer o seguinte: “Imagina quando eles [policiais militares] pegam
alguém que é procurado. É sem chance” (Folha de S. Paulo,
11/07/2006).
A terceira vítima, o adolescente Roni, ferido nas costas,
pernas e nádegas, sagrando muito e desesperado por sentir a morte
iminente, reuniu as forças que lhe restavam e conseguiu correr até a
sua casa (um barraco), onde finalmente foi amparado por sua mãe.
Socorrido, o adolescente teve tempo apenas de relatar a ela o que
havia ocorrido minutos antes. Roni deu entrada em estado grave no
Hospital Padre Bento, mas não resistiu aos ferimentos provocados
pelas balas e morreu.
Revoltado com a situação, um parente do adolescente
assassinado fez um desabafo muito esclarecedor sobre como policiais
têm se esquivado da autoria de mortes cujas ocorrências se dão nas
favelas: criminalizando e desqualificando seus moradores. “Com essa
onda de confusão em São Paulo, todo mundo que vive nas favelas
passou a alvo da polícia. Eles passaram a ver todo mundo como
inimigo, como integrante desta ou daquela facção, mas não pode ser
assim” (Folha de S. Paulo, 11/07/2006), disse o parente.
Situação da investigação: Em meio a curiosos, moradores da própria favela,
policiais militares fizeram, dessa vez, a preservação do local do
crime onde ficaram expostos os dois corpos para a perícia. Alguns
moradores ouviram dos policiais a seguinte frase: “A cena dos dois
mortos até que ficou bonita” (Folha de S. Paulo, 11/07/2006).
Desolada com a notícia da morte do filho, a mãe do
adolescente recebeu a visita de policiais militares no barraco onde
vive: queriam saber se o adolescente havia dito quem havia atirado
nele e nos amigos.
Procurado pela imprensa para se pronunciar sobre as
denúncias de que policiais militares de Guarulhos estariam
envolvidos na chacina em tela, o Secretário de Segurança Pública de
São Paulo foi blindado por seus
assessores que, agindo com desdém, indicaram que o assunto deveria
ser tratado pelo Comando da Polícia Militar. Este, por sua vez,
manifestou-se em nota oficial de acordo com a filosofia do titular
da pasta: “Foi verificado no batalhão e na corregedoria da PM e,
até o momento, não existe nenhuma denúncia registrada sobre o caso”
(Folha On-line, 11/07/2006).
Fontes: A Tribuna,
Santos,
10/07/2006; Agora, São Paulo, 11/07/2006; Folha de S.
Paulo, 11/07/2006; Folha On-line, 11/07/2006