CHACINA DO JARAGUÁ (ZONA NORTE DE SÃO PAULO) – 6 de maio de 2007

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Última atualização: 02/10/2007

Data: 6 de maio de 2007
Local: Jaraguá, Praça Domenico Ferrara (zona norte de São Paulo)
Vítimas: Rafael Araújo e Silva, de 24 anos, Flávio Batista de Almeida, de 23 anos, Rodolfo Madeira Cunha, de 19 anos, Pamella Pontes Ribeiro, de 18 anos, Paulo Henrique Glinglani Pedro, de 20 anos, Caroline da Silva Borges, de 22 anos, e Anderson Vander Gomes, de 26 anos
Agentes do Estado: Um cabo da Polícia Militar, dois informantes da polícia e um policial militar não identificado

Relato do caso: No final da noite do dia 6 de maio de 2007, um domingo, ocorreu a mais sangrenta chacina registrada até aquele momento no Estado de São Paulo, a 13ª do ano (Folha de S. Paulo, 09/05/2007), em Jaraguá, região de Perus (zona norte da cidade de São Paulo): sete mortos, todos jovens, entre 18 e 26 anos, duas moças e cinco rapazes, todos sem antecedentes criminais, e mais dois feridos, uma moça de 25 anos e um rapaz de 20. Como se verá, em um primeiro momento foi aventada a já clássica explicação: acerto de contas entre traficantes. Mas a verdade veio à tona e verificou-se o envolvimento de agentes do aparelho repressivo do Estado.

Por volta das 23hs, na Praça Domenico Ferrara, em Jaraguá, muitos jovens conversavam, tomavam cerveja e distraíam-se. Para um bairro pobre que não tem equipamentos de lazer, conversar em praça pública em companhia de amigos no final de semana é a distração de quem não dispõe de dinheiro para gastar em programas que a cidade oferece e quase sempre exigem deslocamento dos bairros periféricos para a região central. Conforme uma descrição da imprensa, a praça "é um espaço arborizado, com assentos coloridos e rodeado por estabelecimentos comerciais, onde quase todos se conhecem pelo primeiro nome. As vítimas eram amigos de infância e vizinhos" (Época, São Paulo, 19/05/2007). De repente chegaram quatro homens com capacetes que cobriam toucas ninja, em duas motos, uma Twister preta e uma Falcon verde (IG, São Paulo, 07/05/2007) e, de acordo com uma testemunha, “os garupas desceram das motos e foram em direção aos ‘alvos’ ” (Folha de S. Paulo, 08/05/2007). As vítimas, pegas de surpresa, tentaram correr, mas foram alvejadas onde estavam. As que conseguiram correr e tentaram se esconder, foram perseguidas e executadas. A vizinhança toda ouviu os disparos e viu o corre-corre na praça. Foram disparados cerca de 50 tiros no local e usadas pistolas 380 e 765. Cinco jovens foram baleados à queima-roupa na cabeça. Uma das vítimas foi atingida por 11 tiros (Folha de S. Paulo, 08/05/2007).

Na praça foram mortos a estudante Pamella Pontes Ribeiro, de 18 anos, a primeira a ser atingida com três tiros na cabeça; a universitária Caroline da Silva Borges, de 22 anos; o entregador de marmitex Rodolfo Madeira Cunha, de 19 anos; o cozinheiro Anderson Vander Gomes, de 26 anos; e Paulo Henrique Glinglani Pedro, de 20 anos. Rafael Araújo e Silva, de 24 anos, e Flávio Batista de Almeida, de 23 anos, ambos vendedores de bebidas lácteas, correram para tentar se esconder dentro de uma pizzaria que fica na praça, mas os assassinos os perseguiram e mataram o primeiro no balcão e o segundo, embaixo de um forno. Apesar da quantidade de vítimas e de disparos, vizinhos da praça disseram que a ação dos assassinos durou menos de três minutos (Folha de S. Paulo, 08/05/2007). A vizinhança toda afirmou que policiais militares chegaram “em segundos” à cena do crime, recolheram as cápsulas de bala e removeram os corpos das vítimas para os prontos socorros de Taipas e Pirituba (Folha de S. Paulo, 08/05/2007), descaracterizando, assim, a cena do crime.

Caroline, que na hora não havia se dado conta da gravidade de seus ferimentos mortais, ainda pediu ajuda para se levantar, fez sinal de paz e amor com os dedos e disse que não estava tão mal assim (Folha de S. Paulo, 08/05/2007). Uma outra jovem, de 22 anos, contou como escapou da chacina: quando percebeu que uma moto vinha de farol aceso na direção do grupo em que estava, ela correu e se escondeu atrás da caçamba de um caminhão a uns 50 metros dali. Em seguida percebeu que outro rapaz tinha tido a mesma idéia. Protegidos e sem ter como pedir socorro, os dois puderam ver quando, depois de uma rodada de muitos disparos, os assassinos caminharam friamente entre os corpos para se certificar de que todos estavam mortos. "Quem gemeu levou mais tiros dos assassinos" disse ela. Depois um silêncio completo. Só após conferir os mortos, disse ela, os assassinos deixaram a praça. Ela não arriscou dizer o que motivou a chacina por temer pela própria vida. Um outro rapaz declarou que os assassinos queriam “fazer uma limpa na praça” (Folha de S. Paulo, 08/05/2007).

As declarações iniciais das autoridades policiais, atribuindo a chacina a um litígio entre gangues de tráfico de droga, deixaram os familiares e vizinhos indignados. Eles concordam em afirmar que a praça é local de venda de entorpecentes, o que não transformaria todos os seus freqüentadores em traficantes ou meros usuários. Negaram que os mortos tivessem dívidas com traficantes. Garantem que nem usuários de maconha ou cocaína eles eram. Estariam na praça para namorar, beber cerveja e se distrair (Jornal da Tarde, São Paulo, 09/05/2007).

A mãe de Paulo Henrique, contava, por exemplo, que o filho vinha fazendo testes para jogar em um clube de futebol. Outra vítima, Rodolfo, de 19 anos, trabalhava como entregador de pizza (Época, São Paulo, 19/05/2007). Inconformada com a morte do filho, a mãe de Rodolfo, se emocionou ao falar do rapaz. “Ele nunca me deu problema. Era trabalhador”. De fato, o rapaz tinha dois empregos: de dia entregava marmitex e à noite trabalhava para uma pizzaria, também fazendo entregas. Namorava há um mês e ajudava a mãe a cuidar do irmão de 4 anos. Amigas de Carolina, outra vítima da chacina, disseram que ela era amável e gostava de fazer amizades. “Carol e Pamella freqüentemente saíam juntas com outras garotas. (...) Pamella era muito vaidosa e gostava de curtir a vida” (Todo Dia, Americana, 08/05/2007).

Dono há 15 anos de uma pizzaria da praça, um outro senhor afirmou que “todos eles eram pessoas de bem, que costumavam conversar aqui na praça. Não eram ladrões nem viciados”. Um outro vizinho também assegurou que nunca teve problemas com os jovens que freqüentam o local. E completou: “Se era para apagar alguém, apagaram os inocentes” (Correio Popular, Campinas, 08/05/2007), sem se dar conta de que ninguém tem direito de "apagar", nem inocentes, nem suspeitos e nem culpados.

Situação da investigação: Do lado das autoridades policiais o diagnóstico foi fulminante e pode ser resumido em "briga de vagabundos". Com efeito, o primeiro a se manifestar, capitão da Polícia Militar, resumindo o relato dos fatos terminou sua declaração com a hipótese do envolvimento dos mortos em tráfico: “Havia denúncia superficial de que poderia haver tráfico de drogas. Foi uma denúncia anônima (Globo Online, Rio de Janeiro, 07/05/2007).

Já o delegado titular do 46º Distrito Policial, de Perus, onde o caso foi registrado, foi bem mais além e declarou: "Neste país é pobre roubando pobre e pobre matando pobre. Isso é briga de vagabundo". Tendo sido questionado pelo repórter pelo fato de que nenhuma das vítimas tinha passagem pela polícia, menosprezou esse dado, sugerindo que, mesmo sem antecedentes, qualquer um pode cometer um crime: "Não tem passagem, e daí? Você tem passagem? Você pode matar alguém". E concluiu: "O que eu entendo de minha cabeça de policial? São duas gangues disputando um ponto ou local. Sei lá. Então são coisas que a gente tem de investigar, mas as informações que nós temos são praticamente zero" (Folha de S. Paulo, 08/05/2007).

As declarações do delegado, de deboche e de falta de respeito para com os mortos, acabaram lhe custando o cargo de titular da delegacia, sendo transferido para outra, para exercer serviços burocráticos. Em 8 de maio de 2007, o Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Ronaldo Marzagão, em entrevista a Rádio Jovem Pan, justificou o afastamento do delegado: “as declarações não são compatíveis com a posição de um delegado de polícia em serviço” (Folha de S. Paulo, 09/05/2007). Foi uma decisão do governo do Estado de São Paulo digna de elogios e apoio.

Já o delegado Luiz Fernando Lopes Teixeira, da 3ª Delegacia de Homicídios Múltiplos do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), a cuja jurisdição a investigação do caso foi passada, deu, dois dias depois da chacina, declarações mais amplas. Afirmou que todas as hipóteses seriam investigadas, de acerto de contas envolvendo a venda de drogas (O Estado de S. Paulo, 09/05/2007), à chacina ordenada por um comerciante (Época, São Paulo, 19/05/2007), até à possível participação de policiais no crime (Folha de S. Paulo, 08/05/2007). A explicação da motivação como sendo ligada ao tráfico de drogas continuava a ser tida como a principal, mesmo depois que os jornais começaram a noticiar que 48 horas depois do crime a polícia já havia prendido um suspeito, já tinha um segundo em vista e o crime já estava esclarecido (Globo Online, 08/05/2007). Voltando ao local policiais encontraram muitos papelotes de cocaína, maconha e solvente, o que parecia confirmar esta hipótese (Jornal da Tarde, São Paulo, 09/05/2007).

Logo em seguida, conforme informações provenientes do DHPP, abandonava-se a versão de que já havia um suspeito preso e um em vista, e os jornais falavam de um suposto grupo de extermínio formado por policiais, do envolvimento de dois policiais militares na chacina, sendo um deles, de quem já se sabia o nome, integrante da ROCAM (Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas) e dono de um bar na região, e um segundo, de quem só se sabia o apelido, um morador do bairro  (Folha On-Line, 10/05/2007). Este último seria também autor da morte de um garoto chamado Gaguinho, ou Galego, que usou para o crime uma moto Twister preta (Agora, São Paulo, 10/05/2007). Esses policiais estariam também envolvidos com o tráfico de drogas da região. Quanto a essas afirmações não muito explícitas, questionado, o delegado Armando de Oliveira Costa Filho, divisionário do DHPP, declarava, em 9 de maio, não confirmar nem desmentir  (IG, São Paulo, 10/05/2007). Nesta ocasião, a possível motivação do crime foi apresentada como sendo o fato da presença da rapaziada na praça atrapalhar a freguesia do bar que pertencia a um desses policiais militares suspeitos, onde, segundo moradores, haveria consumo de drogas (Folha On-Line, 10/05/2007).

Foi só cerca de um mês depois que a Polícia Civil declarou ter esclarecido realmente o caso. Depois de 20 dias de investigação e de ouvir quase 50 depoimentos (Globo/SPTV, 03/06/2007), a conclusão é de que a chacina foi obra de um cabo da Polícia Militar juntamente com dois irmãos e informantes de polícia. A causa do crime seria uma desavença entre um deles e um rapaz, ocorrida em um pagode algumas horas antes da matança. Esse rapaz, namorado de uma das vítimas, já teria cumprido pena, inclusive por ter baleado o informante. Este saiu da festa para chamar seu irmão e o cabo para acertar as contas. Como não mais encontraram o casal, dirigiram-se à praça e atiraram em todos que estavam perto da moça, já que o rapaz, desafeto do informante, não estava mais (Agora, São Paulo, 02/06/2007). Enfim, uma história de vingança. O cabo foi preso no dia 23 de maio (CruzeiroNet, Sorocaba, 02/06/2007) e os dois informantes da polícia estavam foragidos quando do comunicado. Na casa do policial militar foi encontrado um gorro que pode ter sido usado na chacina. No local foram encontradas cápsulas de pistola que podem comprovar a autoria do crime (Globo/SPTV, 03/06/2007).

Mas algo simplesmente não encaixa nesta explicação: falta um assassino. Desde o início todas as fontes disseram que os matadores eram quatro e que haviam chegado em duas motos. Todas estas chacinas são executadas em grupos de pares. Usando duas motocicletas, o que faria o terceiro homem, tendo ao mesmo tempo que atirar e conduzir a moto?

Conforme está dito acima, quando se verificou a presença de policiais militares entre os matadores, falou-se claramente de dois. Um deles, de quem já se sabia o nome, integrante da ROCAM (Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas) e dono de um bar na região, e um segundo, de quem só se sabia o apelido, um morador do bairro  e possível autor da morte de um garoto chamado Gaguinho, ou Galego. Qual desses dois seria o cabo? E quem seria o quarto homem, o segundo policial militar? Portando esta chacina está apenas parcialmente esclarecida. Muito mistério ainda cerca este caso.

Consultado pela revista Época, o coordenador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP), Paulo de Mesquita Neto, declarou que as chacinas acontecem freqüentemente “em locais onde há policiais envolvidos com o crime organizado”, mas também definiu-as como “um jeito de deixar claro para os moradores que o Estado não está presente para protegê-los” (Época, São Paulo, 19/05/2007). Como se vê neste caso e seguramente em muitos mais, o Estado está presente. Só que seus agentes atuam ilegal e clandestinamente, não apenas no tráfico, mas também como grupo de extermínio. É por isso que, comentando a mudança do cotidiano das pessoas nesses bairros da zona norte em que tem havido estas chacinas, uma moradora declarou: “Aqui policial é sinônimo de medo. Não dá para confiar” (Jornal da Tarde, São Paulo, 24/09/2007).

Fontes: Globo Online, Rio de Janeiro, 07/05/2007; 08/05/2007; 01/06/2007; IG, São Paulo, 07/05/2007; 10/05/2007; Folha On-Line, 07/05/2007; 08/05/2007; 10/05/2007; Yahoo News, São Paulo, 07/05/2007; 09/05/2007; 10/05/2007;Cosmo On-Line, Campinas, 07/05/2007; 09/05/2007; Diário do Grande ABC, Santo André, 07/05/2007; 08/05/2007; Folha de S. Paulo, 08/05/2007; 09/05/2007;10/05/2007; 11/05/2007; 02/06/2007;Correio Popular, Campinas, 08/05/2007; O Estado de S. Paulo, 09/05/2007; 10/05/2007; 02/06/2007; Jornal da Tarde, São Paulo, 09/05/2007; 10/05/2007; 02/06/2007;24/09/2007; Terra, São Paulo, 08/05/2007; 09/05/2007;Agência Estado, 08/05/2007; 11/05/2007;A Tribuna, Santos, 08/05/2007; CruzeiroNet, Sorocaba, 09/05/2007; 02/06/2007;Todo Dia, Americana, 08/05/2007; Vale Paraibano, São José dos Campos, 09/05/2007; Comércio do Jahu, Jaú, 08/05/2007; Agora, São Paulo, 10/05/2007; 02/06/2007;Mogi News, Mogi das Cruzes, 09/05/2007; Época, São Paulo, 19/05/2007; Jornal de Piracicaba, 24/06/2007; Globo/SPTV, 03/06/2007; Jornal da Tarde / São Paulo, 24/09/2007; A Tribuna / Santos, 16/09/2007; 17/09/2007; O Estado de S. Paulo, 17/09/2007; Folha On-Line, 22/09/2007; Folha de S. Paulo, 22/09/2007