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Data:
19 de outubro de 2002
Local:
Jardim Presidente Dutra, Guarulhos
Vítimas:
Natália Glecimara Teixeira, 15 anos, Maurício Pereira da
Silva, 15 anos, Sílvio Lima Guerra, 15 anos, e Daniel de Oliveira,
de 17 anos
Agentes do Estado: três policiais militares não identificados
No dia 19 de outubro de 2002
aconteceu uma chacina de quatro adolescentes, em frente à casa de um
deles. A história desta chacina permaneceu sem ser contada sequer
pelos jornais, como se fosse coisa banal. No dia 20 de outubro
apenas o Diário de S. Paulo noticiou o fato, reproduzindo a
versão do delegado Maurício Miranda de Queiroz, do 7º Distrito
Policial, que atribuiu as mortes ao tráfico, criminalizando um dos
mortos como usuário de droga.
Mas a história verdadeira é
bem outra e só veio a público depois de uma Audiência Pública
da Comissão Especial do Conselho de Defesa da Pessoa Humana (CDDPH)
sobre Grupos de Extermínio realizada em 20 de maio de 2003, na
Câmara Municipal de Guarulhos. Algumas horas antes dessa chacina,
houve uma discussão, presenciada por um sobrevivente, entre o
segurança do Super-Mercado Moinho 1, um policial conhecido como
Araújo, e um menino de apenas onze anos: o segurança acusava o
menino de ter roubado um pacote de bolachas e acabou por bater nele.
O menino foi embora chorando e voltou com a mãe e um irmão mais
velho. Segurança e irmão ameaçaram-se mutuamente de morte, afirmando
saberem onde cada um morava. Mas o segurança-policial apostou:
“Vamos ver quem pega o outro primeiro”. Já o dono do supermercado
incitou o segurança-policial a “acabar com o moleque” ali mesmo: “Te
pago para quê”? Como estava ali, só observando, o sobrevivente, que
foi também provocado pelo segurança-policial, achou melhor ir
embora.
Nessa noite, depois de irem a uma festa, juntaram-se os quatro
amigos mortos e mais o sobrevivente, e até a mãe de uma das vítimas,
para conversarem em frente à casa de um deles. À 1h30 da madrugada,
mais ou menos, a mãe se retirou para dentro, mas logo em seguida
ouviu uma grande fuzilaria e só quando terminaram os tiros saiu à
rua com seu marido e outro filho. Deparou-se com Natália, sua filha
morta e mais dois sobrinhos, Mauricio e Daniel, bem como um vizinho,
Silvio. Os assassinos eram três homens que chegaram sem capuz e já
começaram apontando as armas e ordenando que os adolescentes
deitassem de bruços. Foram revistados e, em segundos, assassinados
friamente, o quinto adolescente sobrevivendo a treze tiros.
Depois de algumas horas, quando vizinhos e amigos faziam o velório
das vítimas, chegaram cerca de cinco viaturas da Polícia Militar e
seus ocupantes começaram intimidar as pessoas presentes. Diziam
procurar aquele irmão mais velho do menino de onze anos, acusado de
roubar um pacote de biscoitos, e assustaram as pessoas que se
afastaram para suas casas. De forma violenta deram ordem a um desses
vizinhos para que saísse de casa, o que ele se recusou a fazer.
Então cerca de três a quatro policiais arrombaram o portão da casa
dele, que se refugiou no banheiro; deram ordem para que ele saísse,
e quando ele o fez, um desses policiais deu um tiro em sua perna e o
ameaçou, dizendo que voltaria para matá-lo “como a um cachorro”,
enquanto outros o espancavam. Outro vizinho, irmão de uma das
vítimas, foi também espancado dentro de sua casa, chegando os
policiais a atirarem balas de borracha.
Todos foram ameaçados de serem mortos se saíssem de suas casas.
Outros parentes também foram ameaçados de morte e durante longo
tempo carros da Polícia Militar passavam em frente às casas dessas
pessoas, potentes faróis eram apontados para suas janelas. Alguns
tiveram até que se mudar de casa por temerem a realização dessas
ameaças contra seus filhos adolescentes. Esse é um dos episódios da
atuação de um grupo de extermínio formado por policiais militares e
outros colaboradores dessa macabra função na região de Guarulhos.
Segundo o Relatório da Justiça Global “Execuções sumárias no Brasil
– 1997-2003”, o caso estaria sendo investigado, em setembro de 2003,
pela Ouvidoria de Polícia do Estado de São Paulo, Corregedoria da
Polícia Militar, Comissão Especial do CDDPH, Comissão Especial do
Ministério Público de São Paulo e Polícia Civil de São Paulo. Até
2005 não se conhece nenhum resultado dessas investigações.
Fontes: Diário de S. Paulo,
20/10/2002;
23/04/2003; 07/05/2003; Folha de S. Paulo, 21/05/2003;
Audiência Pública da Comissão Especial do Conselho de Defesa da
Pessoa Humana (CDDPH) sobre Grupos de Extermínio realizada em
20/05/2003, na Câmara Municipal de Guarulhos; Relatório da Justiça
Global, “Execuções sumárias no Brasil – 1997-2003”, setembro 2003;
Relatório das Entidades de Direitos Humanos entregue à Relatora da
ONU para Execuções Sumárias, Sra. Asma Jahangir, “São Paulo:
Política de segurança ou política de extermínio?”, setembro 2003.
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