Data:
26 de junho de
2006
Local:
Bairro Cooperativa, São Bernardo do Campo, e Diadema
(Grande São Paulo)
Vítimas:
Adriano Wilson da Silva, de 25 anos, Edson Dantas da Silva,
de 26 anos,
Evilson Rodrigues
de Oliveira, de 28 anos, Fernando de Almeida, de 27 anos, Francisco
de Assis Silva, 26 anos, Gilberto Inácio Ferreira, de 32 anos,
Márcio José dos Santos, de 21 anos, Mário Tavares, de 30 anos,
Wellington de Araújo Carvalho, de 23 anos, Nilton Ferreira da Silva,
de 38 anos, Ana Paula de Souza, de 26 anos, Eduardo de Oliveira
Santos, de 31 anos e
Marcelo Alves dos Santos, de 23 anos
Agentes do Estado:
cerca de setenta policiais civis à paisana
Relato do caso:
Pouco mais de um mês depois da explosão da violência dos
ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) a alvos do aparelho do
Estado e de empresas, em maio de 2006, que se saldaram - pela reação
policial nos moldes de uma “vingança” - em um número ainda não
esclarecido de mortos que pode chegar a mais de 400, uma nova
operação, levada a cabo por cerca de setenta policiais civis à
paisana de São Bernardo do Campo (Grande São Paulo) terminou em
chacina com a morte de treze pessoas.
Aparentemente, tudo foi minuciosamente planejado pelos
policiais civis. Segundo a versão oficial, com informações obtidas
através de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, e até foto
aérea, os policiais civis teriam tido tempo de sobra para fazer uso
da inteligência no lugar das execuções sumárias que refletem o usual
alto grau de letalidade que, em geral, envolve as ações policiais.
Infelizmente, inteligência policial no Brasil ainda se confunde com
o estilo “gatilho fácil” das polícias, que vêem na quantidade de
mortos a eficiência de suas operações.
Segundo o delegado-chefe da Delegacia Seccional de São Bernardo, a
polícia civil da Grande São Paulo teria descoberto o plano do
atentado dez dias antes da chacina. Em sua fala o delegado
acrescenta como fonte da descoberta, além das escutas telefônicas
com ordem judicial, informações de presos rivais e de informantes da
polícia. O plano previa, segundo estas fontes oficiais, ataques a
guardas dos CDPs (Centros de Detenção Provisória) de S. Bernardo do
Campo, Diadema, Mauá e Santo Amaro (deveriam ser mortos de 5 a 15
agentes). E havia um prazo de 10 dias para que os “soldados” do PCC
executassem essa tarefa, cuja ordem teria partido de dentro de
prisões (Folha de S. Paulo , 27/06/2006).
Durante cinco dias, policiais civis teriam se revezado em
frente aos quatro CDPs da região do ABC, onde esperavam que ataques
ordenados por presos fossem acontecer. Segundo a narrativa policial,
mulheres ligadas ao PCC fizeram vigílias em regiões próximas para
descobrir a rotina dos agentes e guardas, como parte do plano para
atacá-los e resgatar presos. Assim, até a entrada e saída de agentes
e guardas teria sido monitorada pelos policiais. Enquanto isso, um
outro grupo de policiais procurava pela região quem pudesse estar
envolvido no plano, que estabelecia papéis de participação bem
definidos. Com tanta inteligência, os policiais também sabiam que um
plano como esse exigiria uma estrutura mínima e sabiam que quem quer
que fosse executá-lo precisaria de armas e munição, além de carros
para serem usados na ação e, portanto, tinham conhecimento de uma
certa movimentação nesse sentido na região. Apesar de tudo isso,
permitiram que a execução do plano continuasse até quase o seu
desfecho. Ao que se sabe, durante os 10 ou 15 dias de investigações
(as informações sobre a data da descoberta variam), nenhuma pessoa
foi presa, embora textos da facção - por exemplo, pedindo o aumento
da contribuição mensal dos membros - tenham sido apreendidos pela
polícia, conforme noticiou o Jornal da Tarde (27/06/2006).
Os fatos se apresentam de tal forma estranhos e, ao mesmo
tempo, encaixados em seus lugares pré-estabelecidos, que alguém como
o deputado estadual Romeu Tuma Júnior, do PMDB, alheio à área de
Direitos Humanos, foi enfático ao dizer que “o Estado não sabe
trabalhar com a informação”. E continuou na análise do que
qualificou como uma “emboscada da polícia”: “A carnificina teria
sido evitada, inclusive sem risco para os policiais, se houvesse
planejamento e melhor utilização dos setores de inteligência. As
autoridades conheciam os planos dos criminosos, mas não fizeram nada
para interceptá-los no meio do caminho. O uso da força serviu apenas
para acalmar a opinião pública, sem levar em consideração as
conseqüências que a ação pode ter. Enquanto não houver
profissionalismo na área de segurança pública, os confrontos entre
os ‘mocinhos’ e ‘bandidos’ continuarão a existir. E apenas
aumentarão as estatísticas de mortos do Governo Estadual em ambos os
lados” (O Estado de S. Paulo, 02/07/2006).
Na narrativa dramatizada do corpo policial, o deslanche
para ação teria sido dado por frases que participantes teriam dito a
seus familiares e amigos: “se não voltasse até às 8 horas, era
porque tinha morrido”; “ia sair para matar ou morrer” (O Estado
de S. Paulo, 27/06/2006). Tais frases, ou foram inventadas, ou
demonstram que a principal fonte da descoberta do plano foi
infiltração de “gansos” da polícia ou de rivais da facção.
Assim, às 5h30 da madrugada do dia 26 de junho, nas
proximidades de um ponto de ônibus e de dois postos de gasolina, na
rua Samuel Aizemberg, Bairro Cooperativa, a cerca de 600 metros da
entrada do CDP de São Bernardo do Campo, teria começado uma
movimentação estranha de veículos. Horas antes policiais civis à
paisana já haviam cercado a região e se posicionado. Em plena
madrugada, chamava a atenção um comboio formado por seis carros e um
caminhão que, ainda por cima, pararam na rua do CDP. Os ocupantes
teriam descido dos veículos e se dividido entre os dois postos de
gasolina, o ponto de ônibus usado pelos agentes penitenciários e a
porta do CDP, sendo que esta última era vigiada por quatro mulheres.
Segundo os policiais, o grupo esperava pela troca de turno
dos agentes e guardas, marcada para acontecer às 6hs, com a chegada
dos que iriam entrar. Uma hora depois, às 7 horas, sairiam os três
primeiros do turno da noite. Uma das quatro mulheres do grupo, ao
ver três agentes saírem, teria dito: “Esses vão ser os três
primeiros”. As fontes discordam sobre a forma pela qual esta frase
teria chegado aos ouvidos policiais. Para O Estado de S. Paulo
(26/06/2006) a frase foi ouvida pela escuta telefônica. Outra fonte
noticiou que a mensagem chegou aos policiais pela utilização de
“recursos de captação de voz à distância” (DCI, 27/06/2006). O
recado da mulher teria servido de senha para que os policiais
entrassem em ação.
Na narrativa policial, houve confronto, todos os “bandidos”
morreram e todos os “mocinhos” salvaram-se. Este lugar comum, às
vezes, até esquece de justificar a matança pelo fato de os
“bandidos” terem iniciado o confronto, reagindo a tiros. Um jornal
explicita isso afirmando: “os policiais
agiram rapidamente e iniciaram uma troca de tiros. Dez bandidos
morreram no local” (Diário do Grande ABC, Santo André,
27/06/2006). Iniciaram e concluíram rapidamente. Em poucos
instantes mataram seis pessoas no posto de gasolina que fica diante
do ponto de ônibus, onde outros dois homens foram abatidos. Um nono
homem foi morto no outro posto de gasolina. Na confusão, quatro
homens fugiram num carro e foram cercados em Diadema: três morreram
e um fugiu. Outros dois tentaram fugir em um automóvel, um deles
morreu e o outro foi preso em S. Bernardo do Campo. Dois outros
homens conseguiram fugir usando um caminhão. Diante do presídio,
três mulheres e um homem foram presos.
Todos os detidos foram autuados por formação de quadrilha,
tentativa de homicídio, porte de arma e resistência à prisão.
Toda a inteligência empregada
na operação acabou por descambar numa chacina. Morreram: Adriano
Wilson da Silva (Boy), de 25 anos, Edson Dantas da Silva (Caixa), de
26 anos,
Evilson Rodrigues
de Oliveira, de 28 anos,
Fernando
de Almeida (Fedô), de 27 anos,
Francisco
de Assis Silva (De Assis), 26 anos,
Gilberto Inácio Ferreira (Juba), de 32 anos,
Márcio José dos Santos (Marcinho), de 21 anos,
Mário Tavares (Magôo), de 30 anos,
Wellington de Araújo Carvalho (Boquinha), de 23 anos,
Nilton Ferreira da Silva (Niltinho), de 38 anos, Ana Paula
de Souza, de 26 anos, Eduardo de Oliveira Santos, de 31 anos
e Marcelo
Alves dos Santos (Beiço), de 23 anos. Nessa lista fornecida pelas
autoridades policias não consta onde cada uma dessas pessoas morreu.
Na ação teriam sido apreendidos sete revólveres, sete pistolas e uma
espingarda, além de 16 celulares. Um policial foi atingido mas
estava protegido com um colete à prova de balas e nada sofreu.
Sobre os
mortos, as autoridades policiais paulistas, secundadas pela
imprensa, logo se apressaram em qualificá-los perante a opinião
pública, criminalizando-os. Na televisão foi assim: no SPTV da hora
do almoço, da Globo, os treze mortos foram qualificados de
“criminosos”. No SBT, Ana Paula Padrão chamou-os de “bandidos”. Já
no SPTV da hora do jantar, os mortos foram “promovidos” a
“suspeitos” (Folha de S. Paulo,
28/06/2006). Um portal on-line noticiou que “segundo a
assessoria da Secretaria de Segurança, as mortes ocorrerem em
confronto com a Polícia Militar e todos os suspeitos (mortos e
presos) tinham passagem pela polícia” (CruzeiroNet, Sorocaba,
26/06/2006). Em outro portal lia-se a seguinte notícia: “a Polícia
Civil não acredita que haja inocentes entre os mortos” (Folha
On-line, 26/06/2006). Nas palavras do delegado seccional de S.
Bernardo do Campo, "todas as ações
que ocorreram envolvendo policiais no ABC hoje são de conhecimento
pleno do Poder Judiciário e do Ministério Público das cidades, por
isso tenho certeza que nenhum inocente morreu nestas ações" (Yahoo
News, 26/06/2006). E foi o mesmo delegado que deu a palavra
final. "Tenho uma ordem [do governo] para que se reprima qualquer
ação de pessoas que se dizem ligadas a essa facção" (Folha
On-line, 26/06/2006). Mais
tarde soube-se que três dos mortos –
Wellington, de 23 anos, Marcelo, de 23 anos e Ana Paula, de 26 anos
- não tinham qualquer passagem pela polícia (Diário do Grande
ABC, Santo André, 29/06/2006).
Com essas falações todas essas autoridades e a imprensa em geral
estão, de certa forma, implantando a pena de morte - um procedimento
anti-constitucional - sem passar pelo Parlamento. Não importa se
dentre as treze pessoas executadas, a maioria (mesmo que fosse a
totalidade) tinha passagens pela polícia. Não importa se, na fácil
criminalização a posteriori, se revele que todas as treze
eram do PCC. Não cabe à polícia
o julgamento para determinar quem é inocente e quem é
culpado, para isso existe o Judiciário. E o Judiciário, ao julgar,
não vai condenar ninguém à morte. Portanto as mortes só se
justificariam se os cerca de 70 policiais estivessem correndo risco
de vida e atirassem em legítima defesa, advindo daí a morte de
alguns desses treze. À polícia cabe investigar e produzir o maior
número de provas contra autores de crimes. Imputar culpa a terceiros
não justifica matá-los.
A tese da polícia é a de que todos - mortos e presos -
pertenciam ao PCC e cumpriam ordem para matar agentes e guardas para
apagar o suposto “mau desempenho” da facção criminosa na região, na
primeira onda de ataques. No entanto, algumas explicações dadas por
autoridades levaram um certo tempo para se ajustarem. O delegado que
comandou a operação disse, por
exemplo: “Nós [policiais] não temos escutas” (Folha On-line,
26/06/2006). Enquanto que a Secretaria de Segurança dizia, em nota,
que as investigações foram realizadas “por meio de grampo
telefônico” (Folha On-line, 26/06/2006). Mas foi o próprio
delegado que comandou as investigações que mais adiante fez uma
revelação importante: tudo teria sido descoberto porque “agentes
infiltrados na organização descobriram o plano a tempo”. Essa
afirmação vai na contramão do que havia afirmado o governador
Cláudio Lembo, atribuindo a descoberta à escutas telefônicas (Globo
On-line, 26/06/2006). Afirmou mesmo que “a polícia já estava em
alerta, pois ficou sabendo antecipadamente dos ataques por meio de
escutas telefônicas autorizadas, além de outras fontes de
informação” (Agência Estado, 26/06/2006), e em tom
triunfalista, arrematou: “foram vencidos!” (Yahoo News,
26/06/2006). Enfim, nada de transparência.
Nos outros três estabelecimentos prisionais da região,
também monitorados, curiosamente nada de estranho foi registrado.
Até o Secretário Nacional de Segurança Pública, Luiz Fernando
Corrêa, pego de surpresa pelos jornalistas, admitindo desconhecer
detalhes da operação, apressou-se em falar do caso: “O Estado de São
Paulo tem dado resposta. O último episódio mostrou capacidade de
antecipação e essa é a solução. Não sei detalhes dessa operação, mas
já demonstrou antecipação” (O Estado de S. Paulo,
27/06/2006). Também destacou a importância de se estabelecer redes
de trocas de informações e inteligência. Já o jornal O Estado de
S. Paulo, em editorial, apoiando a ação da polícia exatamente
como ela se realizou, concluiu: “Eis por que é necessário reconhecer
que a Polícia Civil paulista realizou um bom trabalho – e em seu
crédito entram muitas vidas salvas” (28/06/2006).
As entidades de defesa dos
direitos humanos têm outra opinião. “Não podemos medir a eficiência
da polícia da polícia pelo número de mortes, mas, sim, por meio de
produção de provas e prisão de criminosos”, afirmou o advogado Ariel
de Castro Alves, integrante do Movimento Nacional de Direitos
Humanos (MNDH) (Diário do Grande ABC,
Santo André, 29/06/2006). Em outra circunstância afirmou ainda:
"Isso mostra a ineficiência da polícia, que ao invés de prender,
mata" (Yahoo News, São Paulo, 27/06/2006)
A chacina em tela, tem um precedente rodeado de
controvérsias. O uso da força agora serviu não apenas para “acalmar
a opinião pública” como pretendia funcionar como uma operação
pirotécnica para calar a sede de sangue dos que aprovam as execuções
sumárias e outras arbitrariedades. A chacina de S. Bernardo e
Diadema tem vários pontos em comum com outra, a chacina do
Castelinho, ocorrida em março de 2002. Tal como naquela época,
estava-se a alguns meses de uma campanha eleitoral em que era
candidato Geraldo Alckmin, chefe das polícias quando era governador,
e agora apoiador da política de segurança pública mantida pelo
governo Lembo através do Secretário de Segurança Pública.
Em 2002, o GRADI (Grupo de Repressão e Análise dos Delitos
de Intolerância), que reunia a cúpula das policiais civil e militar
e subordinado diretamente à Secretaria de Segurança, uniu-se a dois juizes corregedores, e retirou detentos das
prisões para infiltrá-los em ações de membros do PCC. Alguns dos
presos recrutados se juntaram a outros doze homens e os convenceram
a roubar um avião-pagador que nunca existiu. A data marcada para
ação foi 5 de março de 2002. Os doze homens saíram da cidade de
Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, em um ônibus e dois veículos
roubados. O comboio seguia pela Senador José Ermírio de Moraes,
rodovia que dá acesso à Castelo Branco, na região de Sorocaba,
quando foi interceptado pelos policiais já próximo ao pedágio do
Castelinho. Resultado: doze homens mortos e nenhum policial ferido
no suposto “confronto”. Depois verificou-se que todos foram mortos
com tiros na cabeça e nas costas. A “Operação Castelinho”, como
ficou conhecida, envolveu cerca de 120 policiais militares (Folha
de S. Paulo, 27/06/2006). Posteriormente, o Ministério Público
Estadual, que na época qualificou a ação da polícia como
“armadilha”, conseguiu desmontar a farsa montada pela cúpula da
polícia paulista e pela Secretaria de Segurança, e denunciou 53
policiais militares à Justiça como responsáveis pelas mortes.
O caso foi levado à
Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA pelo Dr. Hélio
Bicudo.
Sandra Carvalho,
diretora da ONG Justiça Global, vê relação entre os dois episódios:
“Tanto na ação de 2002 como na do último dia 26 a polícia alega ter
se antecipado e frustrado uma ação do PCC. Ou seja, a polícia, ao
tomar conhecimento de uma possível ação criminosa, em vez de prender
as pessoas que a planejam, prefere montar uma emboscada e
executá-las. Esse tipo de ação policial é reflexo de uma política de
segurança pública centrada na letalidade, em que a eficiência é
medida na quantidade de ‘suspeitos’ eliminados”
(O Estado de S. Paulo, 02/07/2006).
Situação da investigação: Dez dos treze mortos na operação foram levados
para o IML (Instituto Medico Legal) de São Bernardo do Campo, os
outros três foram para a unidade de Diadema. Com a notícia das
mortes sendo divulgada pela imprensa, familiares das vítimas
começaram a chegar em busca de informações e reconhecimento dos
corpos. Na porta do IML, alguns deles admitiram que seus parentes
eram do PCC, mas afirmaram convictamente que não tinham sido mortos
em confronto, e sim executados em emboscada sem chance de se
defender. Uma garota, namorada de um dos mortos, chegou a afirmar
que “os policiais o pegaram, o levaram para algum lugar e deram
tiros nele”, acrescentando que “não gosta de policial. Ele só quer
saber de matar” (Folha de S. Paulo, 27/06/2006). Uma senhora
de 55 anos, que conhecia alguns dos homens mortos, disse que sabia
do envolvimento deles com o PCC “mas isso não a importava”, muito
menos justificava a morte deles. Um homem de cerca de trinta anos,
parente de uma das vítimas, disse que os policiais grampearam o
celular do irmão dele e lamenta: “os policiais pegaram pesado” (Folha
de S. Paulo, 27/06/2006).
Sabedores de que os familiares não deixariam o local sem
antes verem os corpos, foram-lhes então apresentadas fotografias de
rosto para identificação, medida que além de deixá-los
insatisfeitos, levantou grave suspeita sobre o estado dos corpos.
Pedro de Souza, pai de Ana Paula, única mulher entre os mortos,
ainda se lembrava da última vez que falou com a filha. Ela era
“secretária num curso de inglês e disse que sairia com uma amiga.
Nunca duvidei”, disse o pai (Folha de S. Paulo, 27/06/2006).
Dois dias depois os treze
mortos foram enterrados em diversos cemitérios da região. Alguns
enterros tiveram forte presença de parentes, amigos e vizinhos dos
mortos. Repetiu-se a mesma reação presenciada nos IMLs: a maioria
reconhecia que os mortos pertenciam ao PCC mas não aceitava a versão
de confronto, acreditando mais bem em execuções sumárias. Adriano, o
Boy, foi definido pela família como “bom menino”. Para uma prima,
“a vizinhança veio em peso; ele era muito
querido". Outros consideraram que “treze mortos de uma vez só, é
muito estranho”. A mulher de um outro morto afirmou: “Vi meu marido.
Tinha uma cicatriz enorme, como uma tiara na cabeça. Com certeza
levou um tiro na cabeça” (Folha de S. Paulo, 28/06/2006).
De antemão, peritos apontaram hipóteses diferentes para a
conclusão dos laudos. O médico legista Manuel Gazze, de São
Bernardo, disse que os mortos levaram, em média, três tiros da
polícia, o que para ele “afasta a possibilidade de execução” (Globo
Online, 27/06/2006). Mas outra fonte noticiou que dez corpos
examinados pelo IML de São Bernardo levaram, em média, entre quatro
e cinco tiros cada um (Jornal da Tarde, São Paulo,
26/06/2006). A idéia do médico legista, ao basear sua tese na
quantidade de balas cravadas em cada corpo vai contra a concepção
mais difundida de que não é a quantidade e sim a natureza dos
disparos que caracteriza a execução. Para o perito Ricardo Molina,
da Universidade de Campinas (UNICAMP), os
documentos estão sendo analisados: "Já temos uma estimativa de que
70% desses laudos têm alguma característica de execução, como tiros
no topo da cabeça, ou todos os disparos de cima para baixo",
adiantou o perito. Ele espera receber todos os Boletins de
Ocorrência e os laudos de balística: "Dos 427 tiros dados, 173 foram
recuperados e encaminhados para a análise. Se tivermos esse
documento, podemos descobrir se há outros padrões nessas mortes” (O
Estado de S. Paulo, 27/06/2006).
Caberá ao
Ministério Público apurar as circunstâncias das treze mortes. Para
isso, os promotores Nelson dos Santos Pereira Júnior, de São
Bernardo do Campo, e Carlos César de Faria Bernardi, de Diadema,
pretendem confrontar informações de Boletins de Ocorrência, laudos
necroscópicos, abertura de inquéritos e relatos de testemunhas. Será
preciso que elas sejam ouvidas pelas autoridades e não apenas pela
imprensa. O jornal O Estado de S. Paulo, por exemplo,
noticiou que “três passageiros do ônibus da linha
Piraporinha-Sapopemba passavam pela estrada Samuel Aizemberg por
volta das 7hs quando viram policiais pararem um Santana, retirar e
executar dois homens” (28/06/2006). Além do Ministério Público, uma
comissão formada por representantes de entidades de defesa dos
direitos humanos, formada no âmbito do Conselho Estadual de Defesa
dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE), deverá acompanhar a
apuração (Diário do Comércio, São Paulo, 27/06/2006).
Como se não bastasse a falta de transparência das
autoridades em esclarecer definitivamente a hipótese de ter havido
uma emboscada seguida de uma chacina, o juiz-corregedor da Vara de
Execuções Penais de São Bernardo do Campo não só atendeu o pedido de segredo de Justiça para as
escutas telefônicas feito pelo promotor Nelson Silveira Júnior, como
também estendeu o sigilo para todo o processo, decretando, no dia
seguinte, 27 de junho de 2006, “Segredo de Justiça” sobre o caso,
com o “objetivo de não atrapalhar o andamento das investigações” (Jornal
da Tarde, 28/06/2006). Entretanto a imprensa não conseguiu saber
de quem era o pedido para impor o sigilo a todo o processo. O
Ministério Público argumentou que só havia pedido sigilo para as
escutas telefônicas. A assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça
informou que o autor do pedido estava também protegido pelo “segredo
de Justiça”. Tudo leva a crer que foi a própria polícia, autora da
chacina, que o solicitou (Folha de S.
Paulo, 28/06/2006). A
medida impede que a imprensa e entidades de defesa dos direitos
humanos que acompanham as investigações tenham acesso aos laudos do
inquérito, inclusive aos necroscópicos.
Ora, em uma operação com resultado tão desproporcional como
essa realizada pelos policiais civis, o mínimo que a sociedade
poderia esperar do poder público é a transparência em relação às
informações sobre o caso. Mais uma vez o Judiciário negou à
sociedade o direito de acompanhar as investigações de uma operação,
agravada pelo fato de ter sido levada a cabo por agentes públicos.
Cabe salientar que essa foi a operação com maior número de
mortes executada por policiais de São Paulo nos últimos 15 anos,
ficando atrás apenas do Massacre do Carandiru, quando 111 presos
rebelados foram mortos por policiais militares. Até hoje,
lamentavelmente, a Justiça do Estado de São Paulo não
responsabilizou definitivamente ninguém por essas mortes.
Fontes: Folha
de S. Paulo,
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27/06/2006; Diário do Grande ABC, Sto.André, 27/06/2006,
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02/07/2006; Yahoo News, 26/06/2006; Globo Online,
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26/06/2006, 27/06/2006, 28/06/2006; Diário do Comércio, São
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Agência Estado, 26/06/2006, 27/06/2006, 28/06/2006; IG,
São Paulo, 26/06/2006; Diadema Jornal, 26/06/2006;
Cruzeiro Net, 26/06/2006, 27/06/2006; A Tribuna, Santos,
27/06/2006; 28/06/2006; Mogi News, 27/06/2006; Todo Dia,
Americana, 27/06/2006, 28/06/2006; Gazeta de Limeira,
27/06/2006; Comércio de Jahu, Jaú, 27/06/2006; Cosmo
On-line, Campinas, 27/06/2006, 28/06/2006; Diadema Jornal,
27/06/2006; Panorama Brasil, São Paulo, 27/06/2006; Jornal
Diário, Marília, 27/06/2006, 28/06/2006; Consultor Jurídico,
28/06/2006; Jornal de Piracicaba, 28/06/2006; Jornal de
Jundiaí, 28/06/2006; Agora, São Paulo, 29/06/2006