CHACINA DE S. MATEUS (ZONA LESTE DE SÃO PAULO) – 14 de maio de 2006

 

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Data: 14 de maio de 2006
Local: Ladeira da Rua São José, Parque São Rafael, São Mateus (zona leste de São Paulo)
Vítimas: Robson de Souza, 21  anos, Danilo Lopes Rissi, 21 anos, Ivan Ramos Ferreira de Moura, 23 anos, Fernando da Silva Rodella, 29 anos e Edílson Pedro de Souza, 29 anos
Agentes: homens que se apresentaram como policiais, à paisana e encapuzados

Relato do caso: Menos de 48 horas após o início da onda de violência que envolveu as forças de segurança pública e o crime organizado, São Paulo já registrava sua segunda chacina (a quinta do ano só na capital), ocorrida no Parque São Rafael, zona leste de São Paulo, onde cinco jovens foram chacinados com tiros de pistola na cabeça e um sexto ficou gravemente ferido. Perguntado sobre os responsáveis pela chacina, um morador local não teve dúvida: "Os assassinos eram policiais. Com certeza", disse, apoiado pelos demais moradores (Folha de S. Paulo, 18/05/2006).

No dia 14 de maio de 2006, por volta das 19h30, início da noite de domingo. Na ladeira da Rua São José, a Igreja do Evangelho Quadrangular estava lotada e o bar aberto. Cinco jovens, todos eles negros, conversavam numa esquina próxima ao local, onde havia também um mercado. A rua estava cheia de gente como de costume. Um táxi se aproximou, três homens saltaram e subiram um pedaço da ladeira.  Estavam com roupas à paisana, encapuzados e aos berros se apresentaram como policiais. Deram ordem para os seis rapazes porem as mãos na cabeça e mandaram que se encostassem de frente para a parede para revistá-los. Ao obedecer à ordem, todos foram atingidos por vários disparos na cabeça e tombaram. Os três assassinos deixaram o local calmamente, caminhando. Não satisfeito, "um deles ainda voltou, bem devagar, para conferir se todos estavam mortos e deu tiros de xeque-mate", contou uma testemunha, referindo-se a uma última bateria de disparos contra os corpos empilhados (Folha de S. Paulo, 18/05/2006).

Na chacina, morreram o metalúrgico Robson de Souza, de 21 anos e Danilo Lopes Rissi, da mesma idade e que ia começar a trabalhar nos próximos dias numa loja de uma rede de fast-food em Santo André; o metalúrgico Ivan Ramos Ferreira de Moura, de 23 anos, recém-desempregado e que ainda recebia o seguro-desemprego; o mecânico de autos Fernando da Silva Rodella e o metalúrgico Edílson Pedro de Souza, ambos de 29 anos. Robson e Edílson trabalhavam juntos numa empresa de metais. Os cinco amigos de São Mateus se conheciam desde criança, quando o bairro ainda era um imenso matagal.

Cessados os disparos, os moradores assustados aproximaram-se da pilha de corpos ensangüentados sobre a calçada. Do meio deles, uma voz abafada de pedido de socorro: "Me tira daqui, me tira daqui". Era o sexto rapaz, que havia saído de casa para comprar pão e no caminho parou para falar com os amigos. Ele havia deixado o local instantes antes da chegada do táxi com os assassinos dentro, e quando retornou, foi surpreendido pela cena dos amigos sendo abatidos. Levado à parede, ao tentar olhar para trás, também foi baleado. Nele, a bala atravessou o lado direito da nuca. Fingindo-se de morto, resistindo entre a vida e a morte, o rapaz esperou outras pessoas se aproximarem para dar sinais de vida. Socorrido a tempo, deu entrada em estado grave no Hospital Municipal de São Mateus, na zona leste de São Paulo.

O episódio, como em quase todos os casos, tem antecedentes. Naquele mesmo dia, às 11 horas da manhã, o policial militar José de Souza, de 48 anos, tinha sido assassinado com vinte tiros por três homens. O crime ocorreu em um ponto de ônibus próximo ao local onde mais tarde houve a chacina. Como deveria ser feito em qualquer caso de homicídio, conforme as normas de investigação policial, o corpo do soldado e o local ficaram isolados e permaneceram impecáveis por horas até que os técnicos terminassem a perícia, pouco depois das 18 horas. E a chacina ocorreu às 19h30.

No bairro, só se ouvia dizer que os autores da chacina eram policiais. "Todos dizem que foi a polícia", disse o pai de uma das vítimas para em seguida fazer uma importante revelação: "Disseram pra mim que o táxi do crime ficava estacionado na delegacia" (Estado de S. Paulo, 17/05/2006). Para os familiares dos jovens mortos, a chacina ocorrida naquela noite não foi uma mera coincidência. O pai de um dos jovens disse que a chacina foi uma tentativa de satisfazer a "sede de vingança dos policiais. Queriam vingar o colega morto" (Folha de S. Paulo, 19/05/2006).

Perguntado sobre a hipótese da chacina ter sido motivada por acerto de contas, um comerciante e morador do bairro respondeu que aquela não era uma prática de "bandidos comuns". "Não pode ser. A gente conhece bem bandido nessa região. Bandido não mata desse jeito. Não manda pôr a mão na cabeça para depois atirar. Atira e sai correndo. Não sai com essa calma toda. Andando. Não volta pra conferir o serviço" (Folha de S. Paulo, 19/05/2006).

Da esquina onde cinco jovens foram friamente chacinados com tiros na cabeça, no Parque São Rafael, fica a triste lembrança de Jorge Silva, morador do bairro que minutos antes dos disparos havia deixado os amigos e ido para casa: "Aqui, no domingo à noite, tinha uma montanha de corpos" (Folha de S. Paulo, 19/05/2006).

Fernando da Silva Rodella, morto na chacina, morava com os pais e duas irmãs, numa casa localizada numa rua de terra e mal iluminada. Preocupado com o que havia acontecido na manhã daquele dia com o policial, foi o próprio filho que chamou a atenção dos pais para perigo na rua. "No mesmo dia ele tinha falado pra gente tomar cuidado porque tinham matado um policial aqui. Saímos para ir à igreja e ele ficou em casa", lembrou D. Juruté da Silva Rodella, de 51 anos, mãe do rapaz. Depois que a família saiu, o rapaz foi até a esquina da rua onde costuma ficar com os amigos. O pai, só veria o filho de novo caído no chão, ensangüentado, já morto junto com outros corpos também baleados. "Quando a gente chegou já estava cheio de viatura. Pelo que vi, tenho certeza que foi execução", afirmou o pai do rapaz (Estado de S. Paulo, 26/05/2006).

Como quem espera uma causa qualquer para a morte, a prima de um dos jovens mortos desabafou. "Se alguém me dissesse que eles tinham morrido por causa de uma briga entre torcedores, eu até entenderia. Mas não uma morte assim" (Folha de S. Paulo, 18/05/2006). Abalados, desprotegidos e sem nenhuma informação sobre o que havia de fato ocorrido, os familiares estavam desorientados.  "Eu não sei o que fazer. Minha mulher sofre de pressão alta e pediu para eu não falar mais nada", lamentou o pai de outro dos rapazes (Estado de S. Paulo, 17/05/2006).

Pobres e somente por isso sem direito a uma investigação que leve aos assassinos, os familiares ainda temem serem alvos de retaliações. "Tem gente que diz que foi policial sem farda, com capuz, mas a gente tem medo e não sabe de nada", disse o pai de Fernando da Silva, o Sr. Albertino dos Santos Rodella (Estado de S. Paulo, 26/05/2006). Desacreditando na justiça, Cláudio, tio de uma das vítimas, pede para que o assunto seja esquecido. "Não me interessa saber quem foi. Eu não me importo se vai ser feita justiça. Ela não vai trazer ninguém de volta. Não sabemos de nada", disse muito irritado, como se fosse obrigado a aceitar a impunidade que coroa chacinas como esta (Estado de S. Paulo, 17/05/2006).

A notícia da morte de Robson e Edílson de Souza revoltou os colegas da fábrica onde os dois trabalhavam. "Foi uma surpresa geral a morte dos garotos. Eles eram muito queridos, tanto que a empresa alugou vans para levar os funcionários ao enterro e encerrou o expediente duas horas mais cedo", disse o gerente da fábrica. Mais de duas mil pessoas se mobilizaram para comparecer ao enterro do dois rapazes (Folha de S. Paulo, 18/05/2006).

Um dos parentes de Danilo Lopes, morto na chacina, resumiu o sentimento da família diante da tragédia. "Estamos resignados. Senti isso no cemitério, com 200 pessoas em silêncio" (Estado de S. Paulo, 17/05/2006), lamentou a mulher.

Situação da investigação: Não restam dúvidas de que uma investigação começa com o primeiro contato da autoridade policial com o local onde o crime ocorreu. Ignorar evidências materiais é, além de deixar de lado provas substanciais, favorecer seus autores, mantendo-os quase sempre no anonimato. Assim, é possível presumir o resultado de uma investigação quando desde o início as evidências do crime são propositalmente desfeitas.

A chacina na rua São José que vitimou cinco jovens negros e deixou um outro gravemente ferido é mais uma prova do desinteresse da autoridade policial em conduzir uma investigação séria que identifique os assassinos e forneça provas consistentes à Justiça para que esta possa devidamente incriminá-los pelas mortes. Vejamos, a seguir, a seqüência desastrosa dos fatos.

Os moradores ainda observavam a pilha de corpos quando, em menos de dez minutos dos disparos, um veículo da Policial Militar chegou no local. Em seguida, chegaram outros identificados pelas placas: M-38203, M-38302 e os da Força Tática, prefixos 38020 e 30011. Os moradores, acostumados com as ocorrências, estranharam a chegada tão rápida dos policiais no local.

Sem esperar ou sequer cogitar da presença de peritos, os policiais militares começaram a recolher primeiro as cápsulas espalhadas pelo chão. Mais do que depressa iniciaram a remoção dos corpos. Indignada com a postura dos policiais, uma testemunha conta que os corpos "foram colocados em duas viaturas, jogados como cachorros. Quando, iam jogar o Ivan, o último, mais gordinho do que os outros, o corpo escorregou e caiu no chão". Ela ainda reconstituiu o diálogo, subseqüente à queda do corpo, entre um soldado e seu superior. "E esse aqui, a gente põe onde?", perguntou o soldado. "Joga essa merda aí em cima, com os outros", respondeu o superior, apontando para um dos veículos policiais (Folha de S. Paulo, 18/05/2006). Atônitos com a situação, os moradores ficaram surpresos quando, em seguida, os policiais fizeram a lavagem da calçada que estava encharcada de sangue (Folha de S. Paulo, 18/05/2006). Ninguém foi ouvido no local.

Para os familiares dos jovens mortos, o primeiro passo a ser dado seria registrar na delegacia da região, um Boletim de Ocorrência (B.O.), e exigir uma investigação, dadas as evidências de participação de policiais na chacina. As provas contra os assassinos viriam conforme o desenrolar do caso pela investigação.

Pois bem: na 55º Distrito Policial, os familiares puseram as cinco carteiras de trabalho das vítimas sobre a mesa do delegado, provando que os jovens mortos eram, coincidentemente, trabalhadores, e assim prevenindo a hipótese dos policiais forjarem no B.O. provas que os incriminassem, ainda que nenhum deles tivesse antecedentes criminais. Mal sabiam os familiares que, tal como os policiais que rapidamente limparam o local da chacina, na delegacia não seria diferente. Quando pediram para registrar as mortes e contar o que sabiam, descobriram que não poderiam fazê-lo, pois o B.O. já estava pronto! O delegado Ferrão limitou-se a entregar aos familiares cópias do documento produzido a partir de relato de apenas um policial, que é taxativo ao apontar "autoria desconhecida" para as mortes.

No B.O. nº 1.643, há somente a versão do policial sobre os fatos, deixando de lado a atuação dos policiais militares no local após a chacina. Limita-se a dizer que cinco amigos foram baleados por “quatro indivíduos encapuzados, que chegaram a pé” (Estado de S. Paulo, 26/05/2006), versão diferente da das testemunhas, e que "a autoridade policial compareceu ao local, não sendo possível obter qualquer informação sobre a autoria do delito ora investigado, bem como constatou que o local encontrava-se prejudicado para perícia". Ora, como explicar que repórteres do jornal Folha de S. Paulo ouviram “treze testemunhas” da chacina no local (Folha de S. Paulo, 18/05/2006), e a autoridade policial não conseguiu obter nenhuma informação sobre a autoria dos disparos? Como explicar que o táxi do qual os moradores viram os assassinos saírem, sumiu? E as cápsulas recolhidas pelos policiais, pelo visto, também sumiram. Os corpos foram removidos sem que o local fosse isolado e periciado. E para piorar, os próprios policiais que chegaram depois dos disparos ao local ainda tiveram tempo para lavar a calçada. Mas não tiveram tempo para ouvir nenhuma testemunha! Todos esses fatos foram ignorados pelo policial responsável pelo B.O.. Restavam, então, as informações que o único sobrevivente da chacina teria a fornecer.

Assim, no dia 18 de maio de 2006, policiais do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que antes haviam informado que policiais estiveram no local da chacina, mas não puderam colher depoimentos, sem explicar o motivo (Folha de S. Paulo, 19/05/2006), deram enfim início à investigação. Três policiais do DHPP ouviram o único sobrevivente da chacina na semi-UTI do Hospital onde se encontrava internado. Lá, os policiais tiraram fotos, colheram impressões digitais e informações durante uma hora sem que os familiares pudessem acompanhar o depoimento. A advogada Valdênia Aparecida Paulino, do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (CEDECA) de Sapopemba, que acompanha o caso, criticou o fato de o depoimento ter sido colhido naquelas condições e com o jovem ainda sob o efeito de medicamentos (Folha de S. Paulo, 19/05/2006).

Como se já não bastasse a preocupação com o estado grave do rapaz dentro do hospital, do lado de fora ele ainda corria sério risco de morte por ter sido o único sobrevivente da chacina e por isso ter alguma informação que pudesse ajudar na identificação dos assassinos. Bastou a presença de investigadores e de policiais militares na frente do hospital para que os familiares ficassem apreensivos, pois temiam que os mesmos assassinos "voltem para terminar o que começaram" (Folha de S. Paulo, 19/05/2006). Desde o dia da chacina, irmãos e outros parentes do  rapaz se revezaram na vigília de 24 horas no hospital. "Estamos cansados, sem saber ainda o que aconteceu", lamentou um deles (Folha de S. Paulo, 19/05/2006). Por segurança, a remoção do rapaz para um outro hospital também foi cogitada. Diante da situação, a advogada do CEDECA pediu para que o jovem fosse incluído no Programa de Proteção a Testemunhas.

O laudo preliminar nº 2.499, feito pelos peritos do IML Central, registraram a expressão "zona de chamuscamento na região auricular direita" no caso de Fernando da Silva, atestando que o rapaz foi morto com um tiro à queima-roupa na cabeça (Estado de S. Paulo, 26/05/2006).

A Secretaria da Segurança Pública limitou-se a orientar os familiares a levarem suas suspeitas de que a chacina teria sido cometida por policiais à paisana à Ouvidoria da Polícia, eximindo-se completamente de dar explicações.

Fontes: Estado de São Paulo, 17/05/2006, 19/05/2006 e 26/05/2006; Folha de S. Paulo, 18/05/2006; IG, 19/05/2006; Correio Popular, 21/05/2006