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Filmes

Quase dois irmãos, de LÚCIA MURAT, 2005

O longa-metragem, com roteiro de Lúcia Murat e Paulo Lins (autor do Cidade de Deus, que deu origem ao filme do mesmo nome), é, na verdade, uma espécie de fábula em três tempos da história do Brasil, vista pelo prisma daqueles que sonharam em transformá-la. Em três momentos de nossa história, apresentados concomitantemente, anos 50, anos 70 e hoje, dois amigos, um branco de classe média e um negro favelado, encontram-se e desencontram-se no Rio de Janeiro. Nos anos 50, crianças, jogam futebol enquanto seus pais, os dois apaixonados pelo samba, trocam opiniões em pleno território da favela, então “pacífica”. Nos anos 70 os dois amigos reencontram-se no Presídio da Ilha Grande, o branco como preso político, o negro como preso comum. E nos dias de hoje, o branco virou senador da República enquanto o negro, grande chefe do crime organizado, está preso mas de lá chefia seu bando. Desde os anos 70 até as cenas do “hoje” já fica claro o dilema de uma esquerda cujo “sujeito histórico” da ação é o campo popular, mas que não consegue atingi-lo com seu idealismo e seus princípios, incapazes de discernir o sujeito real. Em cada momento se contrapõe a ideologia da classe média politizada e o realismo brutal dos pobres. São como duas culturas contrapostas, quase como se fossem duas etnias. E a intransponível barreira social da desigualdade termina por curtocircuitar os projetos de boa índole da classe média de esquerda, impondo a violência entre ela e os pobres. O filme de Lúcia Murat e Paulo Lins, falando do Rio, evoca o Brasil da desigualdade, a nação cindida em duas partes, os ricos e os pobres. E mostra como tudo piorou.


O cárcere e a rua, LILIANA SULZBACH, 2004

O documentário mostra o universo carcerário por um ângulo pouco abordado: a rotina de uma prisão feminina e o difícil trânsito entre o lado de dentro e o lado de fora da prisão. Liliana Sulzbach registra as marcas da rua dentro do cárcere e as do cárcere na rua. Para tanto, a cineasta visitou durante três anos a Penitenciária Feminina Madre Pelletier, em Porto Alegre. Dentre umas cem prisioneiras entrevistadas, três foram escolhidas por suas dramáticas histórias de vida. Cláudia Rullian, de 54 anos, 28 dos quais passou na prisão - mãe, cujo filho ficou com ela até os 4 anos na creche do presídio - é uma espécie de líder entre as presidiárias, recebe em sua cela e dá proteção à novata Daniela Cabral, de 19 anos, que corre risco de morte por ser suspeita de ter matado o próprio filho. Com a saída de sua protetora da prisão, Daniela afunda na depressão e logo na loucura, quando é transferida para o manicômio judiciário. Mãe de duas crianças, a jovem Betânia Fontoura, de 28 anos, está sendo transferida para o regime semi-aberto, o que a obriga a voltar para dormir todos os dias, com horários e regulamento muito rígidos. Unindo as realidades destas mulheres, a diretora nos conduz a uma tragédia anunciada e revela o tradicional abandono, uma das características mais dolorosas das prisões femininas. Diferentemente do que acontece com os homens, elas são quase sempre abandonadas pelos filhos, pelo marido ou pelos namorados.  Uma exceção, porém, é habilmente captada pela diretora: um marido aparece todas as noites diante da porta da penitenciária para gritar em altos brados seu amor por sua mulher. Sulzbach entrelaça essas histórias com pulso rítmico e dramático, fazendo do espaço um dos personagens vilões determinantes nessa história.


Justiça, de Maria Augusta Ramos, 2004

O documentário mostra, de uma forma seca e desadjetivada, o cotidiano de alguns acusados de pequenos delitos, alguns juízes e uma defensora pública, em tribunal do Rio de Janeiro. Do retrato ressalta a absoluta frieza da instância judiciária, preparada para punir os pobres, para não ver as circunstâncias atenuantes, para cometer injustiças por insensibilidade, para humilhá-los.


Ônibus 174, de José Padilha, 2002

O documentário mostra detalhadamente os diversos passos do seqüestro de um ônibus da linha 74, na zona sul do Rio de Janeiro, e a responsabilidade da Polícia Militar na morte da refém,  Geísa Firmo Gonçalves, professora primária, e no assassinato do sequestrador, Sandro Nascimento, por policiais militares. Fala da vida de Sandro, um rapaz de apenas 19 anos, que viu a mãe ser assassinada a facadas quando tinha nove anos, sobrevivente da chacina da Candelária, morador de rua, que vez por outra conseguia integrar-se em algum projeto de ajuda a essa população. Deixa bem claro como um simples assalto a um ônibus transformou-se naquela tragédia televisionada por causa da ação de um policial zeloso que levou o ônibus a imobilizar-se na Rua do Jardim Botânico. “Construído” o seqüestro, com Sandro visivelmente alterado pelo uso de drogas, armou-se o espetáculo com o seqüestro de reféns, passageiras humildes do ônibus. Mostra ainda como foi a iniciativa desastrada da Polícia Militar que levou o seqüestrador, Sandro, a atirar e matar a refém, Geísa. E relata como Sandro, depois de colocado vivo e andando dentro de um carro da polícia, chegou ao seu destino, morto, asfixiado pelos policiais que estavam nesse carro. Tem como depoente o capitão do Batalhão de Operações Especiais Rodrigo Pimentel, afastado da Polícia Militar por ter se manifestado contra a operação que resultou na morte de duas pessoas humildes e pobres.


Tranca e Couro, o Brasil que tortura, CRP-SP/TV PUC-SP, 2001

 
Realizado numa parceria entre o Conselho Regional de Psicologia (CRP-SP) e a TV PUC-SP, o documentário discute a “tradição brasileira” de tolerar as agressões físicas e psicológicas praticadas pelo Estado, denunciando a "naturalização" da tortura em nossa sociedade. Começando pelos índios e portugueses, passando pelos escravos e pelos movimentos revoltosos, traça um paralelo entre a violência cometida contra os escravos e a exercida hoje contra presos, adolescentes e doentes mentais - pobres em geral - retidos em instituições públicas tais como presídios, delegacias, FEBEMs e manicômios. Apresenta números surpreendentse da tortura no país, dando voz a vários atores de trágico espetáculo e apresenta propostas de como sensibilizar a sociedade e fazê-la perceber a gravidade da tortura, principalmente quando utilizada como prática corriqueira e institucional. Para solicitar cópias ao CRP-SP:  tel (11) 3061-9494 | e-mail info@crpsp.org.br
 

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Livros

LUÍS EDUARDO SOARES, ANDRÉ BATISTA e RODRIGO PIMENTEL, Elite da Tropa. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2005

Após a leitura de Elite da Tropa, fica-se sabendo de pelo menos duas coisas: o BOPE (Batalhão de Operações Especiais), é treinado para matar e a Polícia Militar do Rio de Janeiro está corrompida até a alma.
O
livro é fictício, mas baseado em fatos reais. Algumas situações descritas foram contadas parcialmente, outras integralmente e às vezes recombinadas. O universo retratado é o cenário de violência do Rio de Janeiro do ponto de vista do antropólogo e ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luís Eduardo Soares, e de dois ex-capitães do BOPE, André Batista e Rodrigo Pimentel.
O
livro é dividido em duas partes. Na primeira concentram-se relatos impressionantes sobre o cotidiano de policiais que o narrador afirma considerar “de elite”. Na segunda, um dos personagens seguirá numa trama que envolve autoridades de segurança pública, traficantes, políticos e policiais - uma rede que tece a cumplicidade entre os vários atores do trágico cenário da violência do Rio de Janeiro.
Elite da Tropa não procura apontar soluções para os problemas da violência do Rio, mas tem o mérito de identificar muitas de suas causas, apontadas na própria estrutura da Segurança Pública. Serve para compreender que a política de enfrentamento, pautada por estratégias de guerra tais como as vistas nas incursões do BOPE nas favelas cariocas, sempre deixando rastros de sangue e por isso muito temidas, não tem feito nada pela Segurança Pública a não ser eliminar moradores pobres estigmatizados como sendo inimigos internos.  


LUIZ EDUARDO SOARES, MV BILL E CELSO ATHAYDE, Cabeça de porco. Rio de Janeiro, Objetiva, 2005

O livro, do cientista político Luiz Eduardo Soares, do rapper MV Bill e do empresário de rap Celso Athayde, contém relatos, entrevistas e ensaios sobre o tráfico de drogas e a violência que o cerca. Os ensaios são de Soares, enquanto os relatos e entrevistas tiveram como base depoimentos de 16 jovens entrevistados para um documentário a ser montado por MV Bill e Athayde, que já foram parcialmente mostrados no clipe do rap mais famoso de Bill, "Soldado do Morro". Todos os 16 entrevistados morreram ao longo de um trabalho iniciado nos anos 90 em cinco regiões do país. Dando voz aos jovens recrutados pelo “trabalho” do tráfico, eles mostram as aspirações frustradas de muitos em mudar de vida, que sabiam curta e difícil. Em entrevista à Folha de S. Paulo (09/04/2005), Soares mostra que a arma funciona, para o adolescente, como uma forma de “emergir da invisibilidade social”. É “o clamor por reconhecimento e valorização”, enquanto a sociedade quer jogá-lo no lixo das FEBENs. Aí o adolescente “absorve essa identidade e procura se transformar no monstro que estamos produzindo”.


Vera Malaguti Batista, Difíceis ganhos fáceis. Rio de Janeiro, Ed. Revan, 2003

O livro mostra o enredamento da juventude pobre do Rio de Janeiro no tráfico de drogas e discute como o tráfico, exercido com perigo pelos pobres, é penalizado, enquanto o consumo, desfrutado com alegria pelos jovens de classe média e alta, é despenalizado.


Julita Lemgruber, Leonarda Musumeci e Ignacio Cano, Quem vigia os vigias? Um estudo sobre controle externo da polícia no Brasil. Rio de Janeiro, Record, 2003.

O livro é o resultado de uma pesquisa realizada nas Corregedorias e Ouvidorias de polícia de cinco estados da federação e mostra os nós górdios que dificultam a fiscalização e a punição dos policiais que praticam crimes. Tortura e extermínio de pessoas, corrupção e abuso de poder, crimes que, pelos laços corporativos, as Corregedorias têm dificuldade em circunscrever e indiciar em processos.

 

O livro é o resultado de uma pesquisa realizada ns Corregedorias e Ouvidorias de polícia de cinco estados da federação e mostra os nós górdios que dificultam a fiscalização e a punição dos policiais que praticam crimes. Tortura e extermínio de pessoas, corrupção e abuso de poder, crimes que, pelos laços corporativos, as Corregedorias têm dificuldade em circunscrever e indiciar em processos.

documentário mostra detalhadamente os diversos passos do seqüestro de um ônibus da linha 74 e a responsabilidade da Polícia Militar na morte da refém,  Geísa Firmo Gonçalves, professora primária, e no assassinato do sequestrador, Sandro Nascimento, por policiais militares. Fala da vida de Sandro, um rapaz de apenas 19 anos, que viu a mãe ser assassinada a facadas quando tinha nove anos,  sobrevivente da chacina da Candelária, morador de rua, que vez por outra conseguia integrar-se em algum projeto de ajuda a essa população. Deixa bem claro como um simples assalto a um ônibus transesastrada da Polícia Militar que levou o seqüestrador, Sandro, a atirar e matar a refém, Geísa. E relata como Sandro, depois de colocado vivo e andando dentrerações