|
A Equipe OVP-SP
entrevistou, nos dias 3 de junho e 25 de agosto de 2005, o Sr. Elias
Isac dos Santos, um pai que não se conformou com o desaparecimento de
seu filho, seqüestrado, torturado, morto e desaparecido em Guarulhos,
em 19 de novembro de 2001, e saiu em busca do seu cadáver. Execuções
sumárias, assassinatos e desaparecimento de cadáveres são hoje, muito
mais numerosos do que no tempo da ditadura militar. Suas vítimas são
os pobres do Brasil.
Equipe OVP-SP:
Então
Sr. Elias, queríamos entrevistá-lo sobre o desaparecimento do seu
filho Rodrigo Isac dos Santos, de 17 anos. Passados quase quatro anos
como é que o senhor relembra o primeiro momento, o de localizar o
corpo, a maneira como o senhor o encontrou. O senhor podia falar um
pouco sobre isso.
Sr. Elias dos
Santos:
Eu vou começar pelo desaparecimento: ele saiu para ir a um baile no
antigo
salão de
nome Weif, na
Avenida
Jurema, no
Bairro
Parque
Jurema,
em Guarulhos, e não retornando
para casa, eu fui procurá-lo. Fiquei então sabendo que no caminho de
volta
para
casa teve uma ação policial na
qual ele foi detido. Obviamente eu teria que procurá-lo na delegacia
do bairro que responde pela região. Chegando lá me disseram que
ninguém havia sido
detido,
ninguém
tinha sido apresentado na
delegacia naquela
noite
por
nenhum
policial
militar. Procurando a equipe da Polícia
Militar
que naquele dia fizera o policiamento na região disseram-me que não
tinham detido nenhum adolescente. Foi isso que me levou a procurá-lo:
havia várias testemunhas dizendo que a polícia o tinha detido e a
própria polícia negava. Inclusive falei diretamente com quem o
prendeu, e ele dizia que não o tinha detido. Quer dizer, já se supunha
o que tinha acontecido: que tinham pego ele e levado para matar porque
era o que vinha acontecendo em Guarulhos, os
habitantes da
cidade
sempre tiveram
conhecimento desse
fato.
E assim eu comecei a procurá-lo nos IMLs (Instituto Médico-Legal),
foram quarenta
dias de
procura,
todos os
dias em sete IMLs de sete
cidades circunvizinhas, em bueiros, dentro de matos, dentro de rios,
lagos, córregos, onde eu sentisse
odor
desagradável,
cheiro
de
putrefação,
eu tinha que mexer ali pra ver se era o corpo do meu filho que estava
ali jogado.
Em
27/11/2001
foi
feito
um
boletim de
ocorrência, de nº 8443/2001, de
desaparecimento
com envolvimento de
policiais. E eu, depois de
procurar vários órgãos e entidades de Direitos Humanos e a imprensa,
consegui chamar a atenção para o caso. Isto é, só um ano e quatro
meses depois é que se conseguiu chamar a atenção para o caso. Foi
aí
que
me chamaram na
delegacia
para
prestar
depoimento,
mais de
um
ano
depois do
seu desaparecimento, pois
meu
filho desapareceu
em 19 de
novembro de 2001.
Inicialmente houve
investigação
feita
pela Corregedoria da Polícia
Militar,
por
sinal
muito
mal
feita. Eu
não
consigo
entender
como
um
órgão de
elite especializado
em
investigação possa
cometer
tantos
erros
primários
que
levam a
proteger os
criminosos. Comecei a
ter alguma
esperança
com o envolvimento do
Ministério Público no caso, mas até agora não se chegou a lugar
nenhum. Apontam-se alguns policiais que teriam realmente assassinado e
desaparecido com o corpo do meu filho, inclusive por causa do
depoimento de um cabo que participou da ação. Ele disse que viu meu
filho dentro de uma viatura que partiu, junto com uma outra, não se
sabendo para que destino e o que foram fazer com o meu filho.
Equipe OVP-SP:
Alguns meses antes seu filho mais velho, Leandro Isac dos Santos, de
19 anos, havia sido também assassinado. Fale um pouco sobre as
circunstâncias em que ele foi morto, sobre as relações possíveis entre
policiais militares e os assassinos de Leandro e de como isso
impressionou e sensibilizou o Rodrigo.
Sr. Elias dos
Santos:
O seu
assassinato aconteceu exatamente no dia 16 de agosto de 2001. Antes
disso Leandro, enquanto menor, teve algumas passagens pela FEBEM.
Quando atingiu a maioridade ele se aquietou. Mas por ele ter tido
essas passagens pela FEBEM, era perseguido por policiais da 1ª
Companhia do 31º Batalhão da Polícia Militar de Guarulhos. E
era perseguido como? Aonde estivesse, era abordado, revistado, e esses
policiais faziam o chamado “achaque”. O que ele tinha, se fosse
relógio ou qualquer coisa, tomavam dele e queriam que ele
providenciasse dinheiro para eles. Marcavam uma data, uma semana
depois, para que ele pudesse ter condições de arrumar esse dinheiro
para esses policiais. Por duas vezes eu e minha esposa presenciamos
esse fato: ele foi abordado e quando nós íamos nos aproximando para
conversar com os policiais e saber o que estava acontecendo ele dava
um sinal para que a gente ficasse afastado do local; aí ele conversava
com os policiais e fazia o devido acerto. Na última vez eu perguntei
para ele o que estava ocorrendo. E ele me disse que esses policiais o
tinham liberado mas que tinham marcado uma próxima quinta-feira para
que ele levasse quatro mil reais. Ele tinha que providenciar quatro
mil reais para esses policiais. Foi quando eu disse a ele que já
conhecia este tipo de sistema e sabia que o dia em que ele deixasse de
providenciar esse dinheiro esses policiais o iriam assassinar e que
não era para ele fazer isso.
A partir
desse dia meu filho Leandro passou a não sair mais de dentro de casa.
O local em que ele mais ficava era em cima da laje. Tivemos notícia
nesse meio-tempo de que havia um carro escuro fumé, com policiais à
paisana, atrás do meu filho. Como não o encontravam porque ele não
estava mais saindo de casa, encontravam uns garotos de 10, 11, 12 anos
e perguntavam do meu filho. E como eles diziam que não o conheciam,
esses policiais mandavam um recado dizendo que quando encontrassem meu
filho, era para detoná-lo, para matá-lo.
No dia da
sua morte, 16 de agosto de 2001, ele pediu 1 real para a mãe para ir
comprar um doce num barzinho a 80 metros de casa. E dentro desse bar
ele foi assassinado. Segundo me disseram uma viatura da polícia estava
próxima desse local e chegou rapidamente, pegou o corpo dele e jogou
dentro do camburão. Levaram meia hora para chegar até o
Pronto-Socorro, que ficava a dois minutos de casa. Nesse meio-tempo eu
fui a dois hospitais - Pronto Socorro e Hospital Maria Luisa, que fica
aqui na região - não encontrei o corpo de Leandro, e fui, na volta, de
novo ao Pronto Socorro, onde já tinha estado. Quando cheguei encontrei
os policiais e o corpo de meu filho. Estranhando essa demora perguntei
ao sargento (que está envolvido na morte do meu segundo filho,
Rodrigo) se ele tinha ido levar o corpo de Leandro para mostrar aos
traficantes. Porquê? Leandro, uns tempos antes, tinha arrumado uma
inimizade com uns traficantes lá e era de conhecimento de todos que
esses policiais davam cobertura a esses traficantes. Eles iam buscar
10, 15, 20 mil com esses traficantes. Ou seja, eles protegiam os
traficantes. Então a partir do momento em que meu filho arrumou
encrenca com esses traficantes, passou a ser inimigo da polícia
também. Passou até a ser um caso pessoal deles. Foi assim que acabaram
assassinando ele. E isso veio a ter relação com o caso do meu segundo
filho, Rodrigo. Porque na noite do enterro de Leandro a gente não
conseguia dormir. Minha esposa foi dormir no vizinho e eu fiquei em
casa. E meus dois filhos – Rodrigo e um outro - também foram dormir no
vizinho. Só que eles, não conseguindo dormir, ficaram na esquina que
fica mais ou menos a 40 metros de casa. Às três horas da manhã
apareceu uma viatura em frente da minha casa e dali há pouco foi
embora. Posteriormente essa viatura voltou, com mais outra, me
chamaram, eu sai para fora e vi que era Rodrigo quem estava dentro.
Nessa hora os policiais disseram que eles não trabalhavam da forma
como eu tinha falado. Só que eu fiquei sabendo posteriormente com meu
filho Rodrigo, que quando o detiveram, olharam para ele e falaram “ah,
você é filho do Seu Elias, aquele que é ex-policial, não é?” Daí o
outro, motorista, falou para o sargento “puxa, gente, vamo levar ele
pro mato pra matá”. E o sargento falou: “não, vamos mostrar pro pai
dele que a gente não trabalha dessa forma.” Então levaram o meu filho
até minha casa. Chegando lá eu questionei o sargento: “Mas porque que
o senhor o deteve? Ele tava cometendo algum crime, alguma coisa?”
“Não, só vim mostrar pro senhor que a gente não trabalha dessa forma”.
Ou seja, naquele momento ele estava mostrando pra mim que a minha
família estava nas mãos deles. Depois disso eu acabei mudando de
endereço e, apesar disso, posteriormente meu segundo filho, Rodrigo,
também veio a desaparecer. Quando fui investigar, vi que tinha
envolvimento desses policiais. Seu corpo se encontra até hoje
desaparecido.
Equipe OVP-SP:
Mas o
Rodrigo ficou muito impressionado e muito revoltado, não é?
Sr. Elias dos
Santos:
O Rodrigo ficou
impressionado inclusive porque ele sabia que a morte do Leandro tinha
a participação de policiais. Então eu creio que no dia em que ele foi
detido, deve ter falado um monte para esses policiais e eles tomaram
isso como algo pessoal e levaram ele para matar. Porque ele estava
revoltado contra esses policiais. E na primeira oportunidade aconteceu
o seu assassinato.
Equipe
OVP-SP:
O senhor
descreve uma série de investigações feitas pelo senhor no caso do
desaparecimento do Rodrigo. O senhor procurou os órgãos responsáveis e
mesmo assim investiu numa investigação própria. O senhor fez isso
porque não confiava na investigação dos órgãos responsáveis, ou por
que, ao denunciar, viu que os responsáveis por esses órgãos não
demonstraram muito interesse no caso?
Sr. Elias dos
Santos:
Bem, devido ao
fato de que se apontava para funcionários do Estado, ou seja,
policiais militares envolvidos no assassinato e no desaparecimento do
meu filho, isso já me levou a não acreditar nos órgãos policiais
devido ao
tão
famigerado corporativismo. Além
disso, pela forma com que me trataram na Corregedoria, tentando
desacreditar a minha denúncia, notei que não ia dar em nada. Então eu
mesmo procurei investigar. Inclusive, tudo o que se tem até hoje no
caso foi obtido pelas investigações que eu fiz, porque os órgãos
públicos até hoje não fizeram nada a respeito do caso.
Ou
melhor
até fizeram,
mas
para
desacreditar os
fatos e
não se chegou a
lugar
nenhum. Os policiais militares
envolvidos, o Terceiro
Sargento Wagner Garcia, o
soldado Ariovaldo Cristóvão Antonio de Freitas, o soldado José Carlos
Romualdo, o soldado Ricardo Veron Guimarães Junior, o soldado Jair de
Almeida Bernardo e o soldado Samuel Alencar Néri, tendo ficado presos
onze dias, acabaram sendo postos
em
liberdade
como se
nada devessem.
Equipe
OVP-SP:
O senhor percebeu corporativismo?
Sr. Elias dos
Santos:
Sem duvida, porque o juiz
militar, da
Justiça
Militar do
Estado de
São Paulo, não aceitou o pedido
de prisão preventiva desses policiais porque achou que não tinha nada
comprometedor, sendo que havia uma série de circunstâncias apontando
para esses policiais, inclusive com o depoimento de um deles dizendo
que meu filho foi detido. Inclusive
ele,
depois de
seu
depoimento, pediu
proteção de
vida,
pois disse
não
saber o
que os
outros
policiais iriam
fazer
com
ele
após saberem
que
ele contou a
verdade. Posteriormente, nas investigações
que fiz, encontrei o local onde esteve o corpo de Rodrigo e alguns
restos mortais - o
maxilar,
vários
dentes soltos
pelo
local,
três
costelas, varias secções da
vértebra, os
dedos, os
dois
braços,
um deles
quebrado, e
um
pé
direito do
tênis
que estava usando.
Meu filho
foi seqüestrado, torturado, assassinado com dois tiros na cabeça e
eles não descobriram nada, sendo que posteriormente até o projétil que
perfurou a cabeça do meu filho eu achei, fazendo uma pesquisa no
local.
Equipe
OVP-SP:
Fale sobre o estado em que o senhor encontrou o corpo do seu filho.
Para o senhor o Rodrigo foi torturado?
Sr. Elias dos
Santos:
Tenho
absoluta
certeza
que
sim.
Equipe
OVP-SP:
Os laudos
apontam a tortura?
Sr. Elias dos
Santos:
Não foi feito um laudo para que se verificasse se ele foi torturado ou
não, porque na realidade nem o corpo oficialmente se tem até agora.
Porque fui eu quem encontrou o local onde foi encontrado o corpo do
meu filho; na verdade encontrei apenas parte dos restos mortais dele.
Encontrei dois braços, vários ossos dos dedos, alguns dentes, o
maxilar, algumas costelas, alguns ossos da vértebra que ficaram no
local e um pé de tênis. Foi através desse pé de tênis que foi possível
identificar aquele corpo como sendo o do meu filho, porque aquele
tênis era de um amigo que lhe havia emprestado na noite do seu
desaparecimento.
Depois desse
encontro,
que foi
feito
por
mim, o IML foi
até
lá e recolheu os
restos do
cadáver,
pois
segundo disseram, o
recolhimento daquele
cadáver se deu à
noite e,
devido à
falta de
luz, acabaram
por
deixar
aqueles
ossos
ali, que
posteriormente foram
encontrados
por
mim.
Equipe
OVP-SP:
Isso aconteceu
quanto tempo depois do desaparecimento dele?
Sr. Elias dos
Santos:
Quarenta dias depois. Eu consegui localizar o corpo e já foi feito o
exame de DNA, porém o resultado deu negativo e nada se comprovou até
agora. Mas eu tenho absoluta certeza de que aquele corpo era o do meu
filho. O corpo ficou sete dias no IML sem registro nenhum. Por quê o
corpo ficou no IML sete dias sem registro?
Equipe
OVP-SP: Por
quê?
Sr. Elias dos
Santos:
O corpo do meu filho ficou sete dias no IML de Suzano sem registro
nenhum. Ficou à
espera de
mais
corpos de
desconhecidos, a meu ver,
para
que fosse
feita uma confusão na
hora de
enterrar e
com
isso
dificultar
sua
identificação
como ocorre
agora,
com a
nítida
intenção de ocultação de
cadáver e
com
isso
manter na
impunidade
esses
criminosos. Além disso o corpo
foi enterrado
sem
registro
nenhum.
Equipe
OVP-SP:
E além dos
órgãos que o senhor procurou para investigar o caso, há também os
órgãos fiscalizadores destes. O senhor procurou os órgãos
fiscalizadores para falar das dificuldades que o senhor estava
encontrando para acompanhar as investigações?
Sr. Elias dos
Santos:
Procurei. Estive
no
Ministério
Público
onde
sempre fui
muito
bem atendido pelo
promotor de
justiça da
vara do
júri,
Doutor Neudival Mascarenhas
Filho, e de
onde tenho tido
ajuda. Mas
até
agora
não se chegou a
lugar
nenhum,
ou seja, à
punição dos culpados,
Mas creio
que
com a
ajuda dessa
instituição,
tão
zelosa
pela justiça do
nosso
Estado, os
criminosos
serão punidos. Procurei a
Secretaria de
Segurança
Pública na
pessoa do
Secretário
Adjunto,
Dr. Marcelo Martins de
Oliveira, e do Coordenador
Estadual dos
Conselhos
Comunitários de
Segurança,
o
Major Luiz Eduardo Pesce de
Arruda. Ou melhor, fui à
procura do
Secretário de
Segurança
Pública, Dr. Saulo de Castro
Abreu
Filho, e acabei falando
com as
autoridades mencionadas
que disseram
que
dentro de quinze
dias
me dariam uma
resposta. Estou aguardando essa
resposta há
cerca de
três
anos. Até hoje...
Equipe
OVP-SP:
O senhor já nos
disse que foram feitas duas tentativas de exames de DNA e ambas deram
negativo. Diante disso o processo se paralisou ou tem tido algum tipo
de andamento? Qual a situação atual?
Sr. Elias dos
Santos:
Em 4 de janeiro deste ano, me chamaram na 2ª Delegacia de Proteção à
Pessoa (do DHPP), no centro de São Paulo, para prestar depoimento a
respeito do que tinha acontecido. Isso,
como podem
perceber, foi
mais de
três
anos
depois de
ter acontecido o
fato, e
pela
informação
que obtive esse caso tinha sido
remetido para a Vara da Região de Guarulhos. Segundo a escrivã que
está à frente do caso não se chegou a nada, ou seja, não se descobriu
nada. O caso continua como chegou para eles, porque o delegado que
estava cuidando do caso, saiu de férias, veio um outro que
não
tinha
ciência da
existência desse
caso.
Equipe
OVP-SP:
O senhor
encontrou muitas dificuldades, porém, houve um avanço por conta do
trabalho de investigação que o senhor mesmo fez para encontrar mais
consistências e levá-lo adiante. Ainda assim, o senhor acredita que
com tudo o que já foi feito o caso pode ser arquivado?
Sr. Elias dos
Santos:
É difícil tirar alguma conclusão a respeito pelo seguinte: já faz três
anos e oito meses que esse caso está sendo investigado, segundo dizem,
e não se chega a lugar nenhum. Eu nunca vi um inquérito levar três
anos e oito meses em fase de investigação. Já era para se ter a
conclusão do caso. No caso do DNA houve vários fatores que tiraram a
credibilidade dos exames. Além dos “erros”
no Instituto Médico Legal de Suzano, há
também o
fato de o
Centro de
Exames,
Análises e Pesquisas-CEAP,
que é o
órgão da
Superintendência da Policia
Técnico-Cientifica do
Instituto de Criminalística
que realiza
exames de DNA,
não ter a
capacidade de
realizar
esses
exames
com
probabilidade de 99,99
por
cento de
acerto,
como deve
ser. Segundo os
pais da
jovem
Ana Paula
Pereira Silva, assassinada no
ano de 2002,
em Jundiaí, os
restos
mortais de
Ana Paula permaneceram
durante
três
anos no
Instituto
Médico
Legal (IML) de Jundiaí. Neste
período foram realizados
cinco
exames de DNA
para
confirmar a
identidade da
ossada. A
comprovação
veio
somente no
mês de
maio de 2005,
com o
resultado de
um
exame de DNA realizado num
laboratório
particular
em
São Paulo.
Equipe
OVP-SP:
O senhor poderia
nos dar um exemplo no caso do seu filho?
Sr. Elias dos
Santos:
Foi colhido
material meu e da minha esposa no IML de Suzano, no mesmo IML em que
há pessoas supostamente envolvidas na ocultação de cadáveres. Por quê
esse cadáver ficou sete dias dentro desse IML sem registro nenhum e
foi enterrado sem registro nenhum também? O pessoal do IML colheu meu
sangue e da minha esposa, porém sete dias depois apareceram novamente
em casa e me pediram para que os levasse até o serviço da minha esposa
para coletar um novo material de sangue dela porque, disseram, aquele
outro havia se perdido. Eu não sei se interessava ao IML ou a quem
interessava que esses exames dessem negativos. Foi feito, então, novo
exame de DNA porque havia mais de seis corpos de pessoas desconhecidas
e deu negativo. E recentemente fiquei sabendo que uma família fez
cinco exames de DNA por um IML e todos eles deram negativos; no
entanto depois pediram autorização na justiça para fazer o exame num
laboratório particular e aí confirmaram, através do exame de DNA, que
o corpo encontrado era o da filha deles, como relatei antes. Ou seja,
chega-se à conclusão de que os IMLs não têm capacidade para fazer um
exame de DNA. Então não têm credibilidade nenhuma os exames que eles
fizeram até agora.
Equipe
OVP-SP:
O caso do seu
filho foi apenas a ponta do iceberg e assim como esse há outros
casos. Gostaria que o senhor falasse um pouco da mobilização das
famílias por conta das mortes com a participação de policiais,
ocorridas em Guarulhos.
Sr. Elias dos
Santos:
Bem, o que
estava ocorrendo em Guarulhos todos nós já sabíamos, tínhamos
conhecimento do que vinha ocorrendo, do modo criminoso como a polícia
agia.
Era
como se
eles tivessem uma
ordem velada
para matar. Só
que,
enquanto
não atinge a
gente
diretamente, a
gente acaba
não fazendo
nada
ou acaba
até
não se manifestando a
respeito,
até
pelo
poder
que essas
pessoas demonstram
ter. E no meu caso, após acontecer isso
com o meu segundo filho, criei coragem e fui à luta, fui buscar saber
o que estava ocorrendo. Em poucos dias, em três dias praticamente, eu
já tinha a absoluta certeza de que meu filho tinha sido assassinado
pela Polícia Militar. Foi a partir daí, não encontrando credibilidade,
não encontrando apoio dos órgãos públicos, em delegacia, em
corregedoria (com
exceção do
Ministério
Público,
através do acima citado
promotor,
quando tomou
conhecimento,
através de
um oficio
meu pedindo ajuda), que entrei
nessa luta. Como é que o próprio órgão do governo fiscaliza o próprio
governo? Como é que o próprio governo vai prender esses policiais se,
para o governo, politicamente não interessa? Daí que os policiais
estavam fazendo isso, o que me leva a crer que eles tinham quase que
uma ordem para agir dessa forma. Eram policiais de dois batalhões em
Guarulhos que estavam matando, do 15º e do 31º BPM. E já tínhamos
conhecimento disso há muitos anos. Então foi só através da divulgação
na imprensa e das entidades de direitos humanos que o assunto veio a
público, nacional e mundialmente. Mas não houve desenvolvimento do
caso, porque eu só posso dizer que vou acreditar nos órgãos públicos
no dia que se fizer justiça no caso do meu filho, porque pior do que o
assassinato, pior do que o trucidamento é a impunidade.
Assassinaram e continuam impunes, e há de se
supor que
com o
consentimento do
Estado,
com a
permissão do
Estado,
pois o
Estado é
hipócrita, finge que não vê,
que não está acontecendo nada. Agiram com a conivência do Estado, da
Secretaria de Segurança Pública. Porque a Secretaria de Segurança
Pública deveria saber que isso estava acontecendo. Se todo mundo
sabia, porque a Secretaria não saberia? A política de extermínio está
aí.
Equipe
OVP-SP:
A mobilização por conta das mortes fez com que o Secretário Especial
de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, fizesse realizar em Guarulhos
uma audiência pública da Comissão Especial do Conselho de Defesa da
Pessoa Humana (CDDPH) sobre Grupos de Extermínio, em maio de 2003,
para ouvir as famílias das vítimas do grupo de extermínio, não foi?
Sr. Elias dos
Santos:
Sim, ele não foi pessoalmente mas enviou essa
Comissão. E houve a união dos familiares das vítimas do grupo de
extermínio de Guarulhos. No início eu me sentia sozinho, eu gritava
que justiça fosse feita e ninguém queria me ouvir. Então cheguei à
conclusão de que tinha que procurar mais casos como aquele e mostrar
que aqueles policiais é que eram os bandidos, que eles eram
assassinos, bandidos credenciados
pelo
Estado. Porque a princípio
ninguém acreditava naquilo que eu estava dizendo. Através da reunião
dos familiares dessas outras vítimas do grupo de extermínio e das
entidades que passaram a me ajudar e me apoiar, eu cheguei a fazer uma
denúncia em audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da OAB
(Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo, com a presença do
Secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, em março de 2003, e
a partir daí, foi resolvido que haveria uma audiência pública em
Guarulhos. Mais tarde veio também a Guarulhos a Relatora da ONU para
Execuções Sumárias para ouvir as denúncias dos familiares das vítimas.
Eu gostaria de fazer uma ressalva com relação ao Secretário Especial
de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, porque ele disse, na época, na
audiência na OAB-SP, que daria todo o apoio e que estaria acompanhando
o caso, mas infelizmente até agora não vi resultado nenhum. Ele disse
que acompanharia, se é que ele algum dia acompanhou.
Equipe
OVP-SP:
O Secretário de Segurança Pública compareceu a audiência de Guarulhos?
Sr. Elias dos
Santos:
Não compareceu.
Com relação ao secretário de Segurança Pública, eu vou falar o quê
dessa pessoa? ? Uma
pessoa
arrogante,
que parecia
em
público estar só tentando
proteger
esses
assassinos, o
que é
que posso
falar do Sr. Saulo de Castro Abreu
Filho....
nada! Sinceramente.
Equipe
OVP-SP:
As mortes em
Guarulhos tiveram uma enorme repercussão. Os responsáveis pela
apuração foram todos acionados, ainda assim a impunidade prevalece.
Interessa aos órgãos responsáveis punir os culpados?
Sr. Elias dos
Santos:
Não! Não
à Secretaria de Segurança Pública. Aqui no Estado de São Paulo são
todos subordinados à Secretaria de Segurança Pública. Como órgão de
extermínio, como se pôde comprovar várias vezes, eu acredito, mas como
de segurança pública, não. Eles só servem aos interesses deles mesmos.
Se fosse o filho de um político ou uma pessoa eminente do Estado de
São Paulo que tivesse tido seu filho assassinado, com certeza fariam
com que os policias tivessem sido presos
em
menos de quarenta e
oito
horas, com menos indícios do
que se têm no caso do meu filho. Estariam presos com certeza. Mas como
é o filho do seu Elias que mora na periferia, não tem interesse nenhum
para eles, infelizmente para mim.
Equipe
OVP-SP:
O que o senhor
pretende fazer agora?
Elias:
Eu pretendo
continuar mobilizando os
familiares das vítimas
para
que
toda essas
barbáries
simplesmente
não caiam no
esquecimento.
Porque é o
que o
governo pretende,
que os
casos caiam no
esquecimento e
que a
impunidade prevaleça.
Mas
creio que não cairão, no
que
depender de
pessoas
como a
que citei, do Ministério
Público, das organizações
como
Grupo Tortura
Nunca Mais, na pessoa da
dona Angela Mendes de Almeida,
como a
Justiça
Global. na
pessoa da Sandra Carvalho, como a OAB de
Guarulhos, na
pessoa do
seu
presidente, Dr. Airton
Trevisan, e de
seu
Vice-presidente, Dr. Fabio do
Santos Silva,
membro da coordenadoria de
Direitos
Humanos da O.A.B Guarulhos,
como a Ouvidoria da Policia de
São Paulo, na pessoa do
ex-ouvidor Dr. Firmino Fecchio.
Entrevistadores:
Angela Almeida e Fernando Lopes
Realizada em 03/06/2005 e 25/08/2005
|