"Os desaparecidos de nossa democracia parlamentar"

 Entrevista do Sr. Elias Isac dos Santos à Equipe OVP-SP, realizada nos dias  e de junho e 25 de agosto de 2005

Rodrigo Isac dos Santos

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A Equipe OVP-SP entrevistou, nos dias 3 de junho e 25 de agosto de 2005, o Sr. Elias Isac dos Santos, um pai que não se conformou com o desaparecimento de seu filho, seqüestrado,  torturado, morto e desaparecido em Guarulhos, em 19 de novembro de 2001, e saiu em busca do seu cadáver. Execuções sumárias, assassinatos e desaparecimento de cadáveres são hoje, muito mais numerosos do que no tempo da ditadura militar. Suas vítimas são os pobres do Brasil.

 

Equipe OVP-SP: Então Sr. Elias, queríamos entrevistá-lo sobre o desaparecimento do seu filho Rodrigo Isac dos Santos, de 17 anos. Passados quase quatro anos como é que o senhor relembra o primeiro momento, o de localizar o corpo, a maneira como o senhor o encontrou. O senhor podia falar um pouco sobre isso.

Sr. Elias dos Santos: Eu vou começar pelo desaparecimento: ele saiu para ir a um baile no antigo salão de nome Weif, na Avenida Jurema, no Bairro Parque Jurema, em Guarulhos, e não retornando para casa, eu fui procurá-lo. Fiquei então sabendo que no caminho de volta para casa teve uma ação policial na qual ele foi detido. Obviamente eu teria que procurá-lo na delegacia do bairro que responde pela região. Chegando lá me disseram que ninguém havia sido detido, ninguém tinha sido apresentado na delegacia naquela noite por nenhum policial militar. Procurando a equipe da Polícia Militar que naquele dia fizera o policiamento na região disseram-me que não tinham detido nenhum adolescente. Foi isso que me levou a procurá-lo: havia várias testemunhas dizendo que a polícia o tinha detido e a própria polícia negava. Inclusive falei diretamente com quem o prendeu, e ele dizia que não o tinha detido. Quer dizer, já se supunha o que tinha acontecido: que tinham pego ele e levado para matar porque era o que vinha acontecendo em Guarulhos, os habitantes da cidade  sempre tiveram conhecimento desse fato. E assim eu comecei a procurá-lo nos IMLs (Instituto Médico-Legal), foram quarenta dias de procura, todos os dias em sete IMLs de sete cidades circunvizinhas, em bueiros, dentro de matos, dentro de rios, lagos, córregos, onde eu sentisse odor desagradável, cheiro de putrefação, eu tinha que mexer ali pra ver se era o corpo do meu filho que estava ali jogado. Em 27/11/2001 foi feito um boletim de ocorrência, de nº 8443/2001, de desaparecimento com envolvimento de policiais. E eu, depois de procurar vários órgãos e entidades de Direitos Humanos e a imprensa, consegui chamar a atenção para o caso. Isto é, só um ano e quatro meses depois é que se conseguiu chamar a atenção para o caso. Foi que me chamaram na delegacia para prestar depoimento, mais de um ano depois do seu desaparecimento, pois meu filho desapareceu em 19 de novembro de 2001. Inicialmente houve investigação feita pela Corregedoria da Polícia Militar,  por sinal muito mal feita. Eu não consigo entender como um órgão de elite especializado em investigação possa cometer tantos erros primários que levam a proteger os criminosos. Comecei a ter alguma esperança com o envolvimento do Ministério Público no caso, mas até agora não se chegou a lugar nenhum. Apontam-se alguns policiais que teriam realmente assassinado e desaparecido com o corpo do meu filho, inclusive por causa do depoimento de um cabo que participou da ação. Ele disse que viu meu filho dentro de uma viatura que partiu, junto com uma outra, não se sabendo para que destino e o que foram fazer com o meu filho.

Equipe OVP-SP: Alguns meses antes seu filho mais velho, Leandro Isac dos Santos, de 19 anos, havia sido também assassinado. Fale um pouco sobre as circunstâncias em que ele foi morto, sobre as relações possíveis entre policiais militares e os assassinos de Leandro e de como isso impressionou e sensibilizou o Rodrigo.

Sr. Elias dos Santos: O seu assassinato aconteceu exatamente no dia 16 de agosto de 2001. Antes disso Leandro, enquanto menor, teve algumas passagens pela FEBEM. Quando atingiu a maioridade ele se aquietou. Mas por ele ter tido essas passagens pela FEBEM, era perseguido por policiais da 1ª Companhia do 31º Batalhão da Polícia Militar de Guarulhos.  E era perseguido como? Aonde estivesse, era abordado, revistado, e esses policiais faziam o chamado “achaque”. O que ele tinha, se fosse relógio ou qualquer coisa, tomavam dele e queriam que ele providenciasse dinheiro para eles. Marcavam uma data, uma semana depois, para que ele pudesse ter condições de arrumar esse dinheiro para esses policiais. Por duas vezes eu e minha esposa presenciamos esse fato: ele foi abordado e quando nós íamos nos aproximando para conversar com os policiais e saber o que estava acontecendo ele dava um sinal para que a gente ficasse afastado do local; aí ele conversava com os policiais e fazia o devido acerto. Na última vez eu perguntei para ele o que estava ocorrendo. E ele me disse que esses policiais o tinham liberado mas que tinham marcado uma próxima quinta-feira para que ele levasse quatro mil reais. Ele tinha que providenciar quatro mil reais para esses policiais. Foi quando eu disse a ele que já conhecia este tipo de sistema e sabia que o dia em que ele deixasse de providenciar esse dinheiro esses policiais o iriam assassinar e que não era para ele fazer isso.

  A partir desse dia meu filho Leandro passou a não sair mais de dentro de casa. O local em que ele mais ficava era em cima da laje. Tivemos notícia nesse meio-tempo de que havia um carro escuro fumé, com policiais à paisana, atrás do meu filho. Como não o encontravam porque ele não estava mais saindo de casa, encontravam uns garotos de 10, 11, 12 anos e perguntavam do meu filho. E como eles diziam que não o conheciam, esses policiais mandavam um recado dizendo que quando encontrassem meu filho, era para detoná-lo, para matá-lo.

  No dia da sua morte, 16 de agosto de 2001, ele pediu 1 real para a mãe para ir comprar um doce num barzinho a 80 metros de casa. E dentro desse bar ele foi assassinado. Segundo me disseram uma viatura da polícia estava próxima desse local e chegou rapidamente, pegou o corpo dele e jogou dentro do camburão. Levaram meia hora para chegar até o Pronto-Socorro, que ficava a dois minutos de casa. Nesse meio-tempo eu fui a dois hospitais - Pronto Socorro e Hospital Maria Luisa, que fica aqui na região - não encontrei o corpo de Leandro, e fui, na volta, de novo ao Pronto Socorro, onde já tinha estado. Quando cheguei encontrei os policiais e o corpo de meu filho. Estranhando essa demora perguntei ao sargento (que está envolvido na morte do meu segundo filho, Rodrigo) se ele tinha ido levar o corpo de Leandro para mostrar aos traficantes. Porquê? Leandro, uns tempos antes, tinha arrumado uma inimizade com uns traficantes lá e era de conhecimento de todos que esses policiais davam cobertura a esses traficantes. Eles iam buscar 10, 15, 20 mil com esses traficantes. Ou seja, eles protegiam os traficantes. Então a partir do momento em que meu filho arrumou encrenca com esses traficantes, passou a ser inimigo da polícia também. Passou até a ser um caso pessoal deles. Foi assim que acabaram assassinando ele. E isso veio a ter relação com o caso do meu segundo filho, Rodrigo. Porque na noite do enterro de Leandro a gente não conseguia dormir. Minha esposa foi dormir no vizinho e eu fiquei em casa. E meus dois filhos – Rodrigo e um outro - também foram dormir no vizinho. Só que eles, não conseguindo dormir, ficaram na esquina que fica mais ou menos a 40 metros de casa. Às três horas da manhã apareceu uma viatura em frente da minha casa e dali há pouco foi embora. Posteriormente essa viatura voltou, com mais outra, me chamaram, eu sai para fora e vi que era Rodrigo quem estava dentro. Nessa hora os policiais disseram que eles não trabalhavam da forma como eu tinha falado. Só que eu fiquei sabendo posteriormente com meu filho Rodrigo, que quando o detiveram, olharam para ele e falaram “ah, você é filho do Seu Elias, aquele que é ex-policial, não é?” Daí o outro, motorista, falou para o sargento “puxa, gente, vamo levar ele pro mato pra matá”. E o sargento falou: “não, vamos mostrar pro pai dele que a gente não trabalha dessa forma.” Então levaram o meu filho até minha casa. Chegando lá eu questionei o sargento: “Mas porque que o senhor o deteve? Ele tava cometendo algum crime, alguma coisa?” “Não, só vim mostrar pro senhor que a gente não trabalha dessa forma”. Ou seja, naquele momento ele estava mostrando pra mim que a minha família estava nas mãos deles. Depois disso eu acabei mudando de endereço e, apesar disso, posteriormente meu segundo filho, Rodrigo, também veio a desaparecer. Quando fui investigar, vi que tinha envolvimento desses policiais. Seu corpo se encontra até hoje desaparecido.

Equipe OVP-SP: Mas o Rodrigo ficou muito impressionado e muito revoltado, não é?

Sr. Elias dos Santos: O Rodrigo ficou impressionado inclusive porque ele sabia que a morte do Leandro tinha a participação de policiais. Então eu creio que no dia em que ele foi detido, deve ter falado um monte para esses policiais e eles tomaram isso como algo pessoal e levaram ele para matar. Porque ele estava revoltado contra esses policiais. E na primeira oportunidade aconteceu o seu assassinato.

Equipe OVP-SP: O senhor descreve uma série de investigações feitas pelo senhor no caso do desaparecimento do Rodrigo. O senhor procurou os órgãos responsáveis e mesmo assim investiu numa investigação própria. O senhor fez isso porque não confiava na investigação dos órgãos responsáveis, ou por que, ao denunciar, viu que os responsáveis por esses órgãos não demonstraram muito interesse no caso?

Sr. Elias dos Santos: Bem, devido ao fato de que se apontava para funcionários do Estado, ou seja, policiais militares envolvidos no assassinato e no desaparecimento do meu filho, isso já me levou a não acreditar nos órgãos policiais devido ao tão famigerado corporativismo. Além disso, pela forma com que me trataram na Corregedoria, tentando desacreditar a minha denúncia, notei que não ia dar em nada. Então eu mesmo procurei investigar. Inclusive, tudo o que se tem até hoje no caso foi obtido pelas investigações que eu fiz, porque os órgãos públicos até hoje não fizeram nada a respeito do caso. Ou melhor até fizeram, mas para desacreditar os fatos e não se chegou a lugar nenhum. Os policiais militares envolvidos, o Terceiro Sargento Wagner Garcia, o soldado Ariovaldo Cristóvão Antonio de Freitas, o soldado José Carlos Romualdo, o soldado Ricardo Veron Guimarães Junior, o soldado Jair de Almeida Bernardo e o soldado Samuel Alencar Néri, tendo ficado presos onze dias, acabaram sendo postos em liberdade como se nada devessem.

Equipe OVP-SP: O senhor percebeu corporativismo?

Sr. Elias dos Santos: Sem duvida, porque o juiz militar, da Justiça Militar do Estado de São Paulo, não aceitou o pedido de prisão preventiva desses policiais porque achou que não tinha nada comprometedor, sendo que havia uma série de circunstâncias apontando para esses policiais, inclusive com o depoimento de um deles dizendo que meu filho foi detido. Inclusive ele, depois de seu depoimento, pediu proteção de vida, pois disse não saber o que os outros policiais iriam fazer com ele após saberem que ele contou a verdade. Posteriormente, nas investigações que fiz, encontrei o local onde esteve o corpo de Rodrigo e alguns restos mortais - o maxilar, vários dentes soltos pelo local, três costelas, varias secções da vértebra, os dedos, os dois braços, um deles quebrado, e um direito do tênis que estava usando.

  Meu filho foi seqüestrado, torturado, assassinado com dois tiros na cabeça e eles não descobriram nada, sendo que posteriormente até o projétil que perfurou a cabeça do meu filho eu achei, fazendo uma pesquisa no local.

Equipe OVP-SP: Fale sobre o estado em que o senhor encontrou o corpo do seu filho. Para o senhor o Rodrigo foi torturado?

Sr. Elias dos Santos: Tenho absoluta certeza que sim.

Equipe OVP-SP: Os laudos apontam a tortura?

Sr. Elias dos Santos: Não foi feito um laudo para que se verificasse se ele foi torturado ou não, porque na realidade nem o corpo oficialmente se tem até agora. Porque fui eu quem encontrou o local onde foi encontrado o corpo do meu filho; na verdade encontrei apenas parte dos restos mortais dele. Encontrei dois braços, vários ossos dos dedos, alguns dentes, o maxilar, algumas costelas, alguns ossos da vértebra que ficaram no local e um pé de tênis. Foi através desse pé de tênis que foi possível identificar aquele corpo como sendo o do meu filho, porque aquele tênis era de um amigo que lhe havia emprestado na noite do seu desaparecimento. Depois desse encontro, que foi feito por mim, o IML foi até e recolheu os restos do cadáver, pois segundo disseram, o recolhimento daquele cadáver se deu à noite e, devido à falta de luz, acabaram por deixar aqueles ossos ali, que posteriormente foram encontrados por mim.

Equipe OVP-SP: Isso aconteceu quanto tempo depois do desaparecimento dele?

Sr. Elias dos Santos: Quarenta dias depois. Eu consegui localizar o corpo e já foi feito o exame de DNA, porém o resultado deu negativo e nada se comprovou até agora. Mas eu tenho absoluta certeza de que aquele corpo era o do meu filho. O corpo ficou sete dias no IML sem registro nenhum. Por quê o corpo ficou no IML sete dias sem registro?

Equipe OVP-SP:  Por quê?

Sr. Elias dos Santos: O corpo do meu filho ficou sete dias no IML de Suzano sem registro nenhum. Ficou à espera de mais corpos de desconhecidos, a meu ver, para que fosse feita uma confusão na hora de enterrar e com isso dificultar sua identificação como ocorre agora, com a nítida intenção de ocultação de cadáver e com isso manter na impunidade esses criminosos. Além disso o corpo foi enterrado sem registro nenhum.

Equipe OVP-SP: E além dos órgãos que o senhor procurou para investigar o caso, há também os órgãos fiscalizadores destes. O senhor procurou os órgãos fiscalizadores para falar das dificuldades que o senhor estava encontrando para acompanhar as investigações?

Sr. Elias dos Santos: Procurei. Estive no Ministério Público onde sempre fui muito bem atendido pelo promotor de justiça da vara do júri, Doutor Neudival Mascarenhas Filho, e de onde tenho tido ajuda. Mas até agora não se chegou a lugar nenhum, ou seja, à punição dos culpados, Mas creio que com a ajuda dessa instituição, tão zelosa pela justiça do nosso Estado, os criminosos serão punidos. Procurei a Secretaria de Segurança Pública na pessoa do Secretário Adjunto, Dr. Marcelo Martins de Oliveira, e do Coordenador Estadual dos Conselhos Comunitários de Segurança, o Major Luiz Eduardo Pesce de Arruda. Ou melhor, fui à procura do Secretário de Segurança Pública, Dr. Saulo de Castro Abreu Filho, e acabei falando com as autoridades mencionadas que disseram que dentro de quinze dias me dariam uma resposta. Estou aguardando essa respostacerca de três anos. Até hoje...

Equipe OVP-SP: O senhor já nos disse que foram feitas duas tentativas de exames de DNA e ambas deram negativo. Diante disso o processo se paralisou ou tem tido algum tipo de andamento? Qual a situação atual?

Sr. Elias dos Santos: Em 4 de janeiro deste ano, me chamaram na 2ª Delegacia de Proteção à Pessoa (do DHPP), no centro de São Paulo, para prestar depoimento a respeito do que tinha acontecido. Isso, como podem perceber, foi mais de três anos depois de ter acontecido o fato, e pela informação que obtive esse caso tinha sido remetido para a Vara da Região de Guarulhos. Segundo a escrivã que está à frente do caso não se chegou a nada, ou seja, não se descobriu nada. O caso continua como chegou para eles, porque o delegado que estava cuidando do caso, saiu de férias, veio um outro que não tinha ciência da existência desse caso.

Equipe OVP-SP: O senhor encontrou muitas dificuldades, porém, houve um avanço por conta do trabalho de investigação que o senhor mesmo fez para encontrar mais consistências e levá-lo adiante. Ainda assim, o senhor acredita que com tudo o que já foi feito o caso pode ser arquivado?

Sr. Elias dos Santos: É difícil tirar alguma conclusão a respeito pelo seguinte: já faz três anos e oito meses que esse caso está sendo investigado, segundo dizem, e não se chega a lugar nenhum. Eu nunca vi um inquérito levar três anos e oito meses em fase de investigação. Já era para se ter a conclusão do caso. No caso do DNA houve vários fatores que tiraram a credibilidade dos exames. Além dos “erros” no Instituto Médico Legal de Suzano, há também o fato de o Centro de Exames, Análises e Pesquisas-CEAP,  que é o órgão da Superintendência da Policia Técnico-Cientifica do Instituto de Criminalística que realiza exames de DNA, não ter a capacidade de realizar esses exames com probabilidade de 99,99 por cento de acerto, como deve ser. Segundo os pais da jovem Ana Paula Pereira Silva, assassinada no ano de 2002, em Jundiaí, os restos mortais de Ana Paula permaneceram durante três anos no Instituto Médico Legal (IML) de Jundiaí. Neste período foram realizados cinco exames de DNA para confirmar a identidade da ossada. A comprovação veio somente no mês de maio de 2005, com o resultado de um exame de DNA realizado num laboratório particular em São Paulo.

Equipe OVP-SP: O senhor poderia nos dar um exemplo no caso do seu filho?

Sr. Elias dos Santos: Foi colhido material meu e da minha esposa no IML de Suzano, no mesmo IML em que há pessoas supostamente envolvidas na ocultação de cadáveres. Por quê esse cadáver ficou sete dias dentro desse IML sem registro nenhum e foi enterrado sem registro nenhum também? O pessoal do IML colheu meu sangue e da minha esposa, porém sete dias depois apareceram novamente em casa e me pediram para que os levasse até o serviço da minha esposa para coletar um novo material de sangue dela porque, disseram, aquele outro havia se perdido. Eu não sei se interessava ao IML ou a quem interessava que esses exames dessem negativos. Foi feito, então, novo exame de DNA porque havia mais de seis corpos de pessoas desconhecidas e deu negativo. E recentemente fiquei sabendo que uma família fez cinco exames de DNA por um IML e todos eles deram negativos; no entanto depois pediram autorização na justiça para fazer o exame num laboratório particular e aí confirmaram, através do exame de DNA, que o corpo encontrado era o da filha deles, como relatei antes. Ou seja, chega-se à conclusão de que os IMLs não têm capacidade para fazer um exame de DNA. Então não têm credibilidade nenhuma os exames que eles fizeram até agora.

Equipe OVP-SP: O caso do seu filho foi apenas a ponta do iceberg e assim como esse há outros casos. Gostaria que o senhor falasse um pouco da mobilização das famílias por conta das mortes com a participação de policiais, ocorridas em Guarulhos.

Sr. Elias dos Santos: Bem, o que estava ocorrendo em Guarulhos todos nós já sabíamos, tínhamos conhecimento do que vinha ocorrendo, do modo criminoso como a polícia agia. Era como se eles tivessem uma ordem velada para matar. Só que, enquanto não atinge a gente diretamente, a gente acaba não fazendo nada ou acaba até não se manifestando a respeito, até pelo poder que essas pessoas demonstram ter. E no meu caso, após acontecer isso com o meu segundo filho, criei coragem e fui à luta, fui buscar saber o que estava ocorrendo. Em poucos dias, em três dias praticamente, eu já tinha a absoluta certeza de que meu filho tinha sido assassinado pela Polícia Militar. Foi a partir daí, não encontrando credibilidade, não encontrando apoio dos órgãos públicos, em delegacia, em corregedoria (com exceção do Ministério Público, através do acima citado promotor, quando tomou conhecimento, através de um oficio meu pedindo ajuda), que entrei nessa luta. Como é que o próprio órgão do governo fiscaliza o próprio governo? Como é que o próprio governo vai prender esses policiais se, para o governo, politicamente não interessa? Daí que os policiais estavam fazendo isso, o que me leva a crer que eles tinham quase que uma ordem para agir dessa forma. Eram policiais de dois batalhões em Guarulhos que estavam matando, do 15º e do 31º BPM. E já tínhamos conhecimento disso há muitos anos. Então foi só através da divulgação na imprensa e das entidades de direitos humanos que o assunto veio a público, nacional e mundialmente. Mas não houve desenvolvimento do caso, porque eu só posso dizer que vou acreditar nos órgãos públicos no dia que se fizer justiça no caso do meu filho, porque pior do que o assassinato, pior do que o trucidamento é a impunidade.

  Assassinaram e continuam impunes, e há de se supor que com o consentimento do Estado, com a permissão do Estado, pois o Estado é hipócrita, finge que não vê, que não está acontecendo nada. Agiram com a conivência do Estado, da Secretaria de Segurança Pública. Porque a Secretaria de Segurança Pública deveria saber que isso estava acontecendo. Se todo mundo sabia, porque a Secretaria não saberia? A política de extermínio está aí.

Equipe OVP-SP: A mobilização por conta das mortes fez com que o Secretário Especial de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, fizesse realizar em Guarulhos uma audiência pública da Comissão Especial do Conselho de Defesa da Pessoa Humana (CDDPH) sobre Grupos de Extermínio, em maio de 2003, para ouvir as famílias das vítimas do grupo de extermínio, não foi?

Sr. Elias dos Santos: Sim, ele não foi pessoalmente mas enviou essa Comissão. E houve a união dos familiares das vítimas do grupo de extermínio de Guarulhos.  No início eu me sentia sozinho, eu gritava que justiça fosse feita e ninguém queria me ouvir. Então cheguei à conclusão de que tinha que procurar mais casos como aquele e mostrar que aqueles policiais é que eram os bandidos, que eles eram assassinos, bandidos credenciados pelo Estado. Porque a princípio ninguém acreditava naquilo que eu estava dizendo. Através da reunião dos familiares dessas outras vítimas do grupo de extermínio e das entidades que passaram a me ajudar e me apoiar, eu cheguei a fazer uma denúncia em audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo, com a presença do Secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, em março de 2003, e a partir daí, foi resolvido que haveria uma audiência pública em Guarulhos. Mais tarde veio também a Guarulhos a Relatora da ONU para Execuções Sumárias para ouvir as denúncias dos familiares das vítimas. Eu gostaria de fazer uma ressalva com relação ao Secretário Especial de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, porque ele disse, na época, na audiência na OAB-SP, que daria todo o apoio e que estaria acompanhando o caso, mas infelizmente até agora não vi resultado nenhum. Ele disse que acompanharia, se é que ele algum dia acompanhou.

Equipe OVP-SP: O Secretário de Segurança Pública compareceu a audiência de Guarulhos?

Sr. Elias dos Santos: Não compareceu. Com relação ao secretário de Segurança Pública, eu vou falar o quê dessa pessoa? ? Uma pessoa arrogante, que parecia em público estar só tentando proteger esses assassinos, o que é que posso falar do Sr. Saulo de Castro Abreu Filho.... nada! Sinceramente.

Equipe OVP-SP: As mortes em Guarulhos tiveram uma enorme repercussão. Os responsáveis pela apuração foram todos acionados, ainda assim a impunidade prevalece. Interessa aos órgãos responsáveis punir os culpados?

Sr. Elias dos Santos: Não! Não à Secretaria de Segurança Pública. Aqui no Estado de São Paulo são todos subordinados à Secretaria de Segurança Pública. Como órgão de extermínio, como se pôde comprovar várias vezes, eu acredito, mas como de segurança pública, não. Eles só servem aos interesses deles mesmos. Se fosse o filho de um político ou uma pessoa eminente do Estado de São Paulo que tivesse tido seu filho assassinado, com certeza fariam com que os policias tivessem sido presos em menos de quarenta e oito horas, com menos indícios do que se têm no caso do meu filho. Estariam presos com certeza. Mas como é o filho do seu Elias que mora na periferia, não tem interesse nenhum para eles, infelizmente para mim.

Equipe OVP-SP: O que o senhor pretende fazer agora?

Elias: Eu pretendo continuar mobilizando os familiares das vítimas para que toda essas barbáries simplesmente não caiam no esquecimento. Porque é o que o governo pretende, que os casos caiam no esquecimento e que a impunidade prevaleça.

  Mas creio que não cairão, no que depender de pessoas como a que citei, do Ministério Público, das organizações como Grupo Tortura Nunca Mais, na pessoa da dona Angela Mendes de Almeida, como a Justiça Global. na pessoa da Sandra Carvalho, como a OAB de Guarulhos, na pessoa do seu presidente, Dr. Airton Trevisan, e de seu Vice-presidente, Dr. Fabio do Santos Silva, membro da coordenadoria de Direitos Humanos da O.A.B Guarulhos, como a Ouvidoria da Policia de São Paulo, na pessoa do ex-ouvidor Dr. Firmino Fecchio.


Entrevistadores: Angela Almeida e Fernando Lopes
Realizada em 03/06/2005 e 25/08/2005


 Foto dos restos mortais de Rodrigo Isac dos Santos,
encontrados por seu pai, Elias Isac dos Santos         
















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