EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Servente de pedreiro, reconhecido de longe como suspeito de ter matado um soldado da PM, é perseguido e executado por policiais militares em Caçapava (Vale do Paraíba – Estado de São Paulo)

Voltar
 

 Data: 16 de maio de 2006
Local:
Vila Paraíba, Caçapava, Vale do Paraíba (Estado de São Paulo)
Vítima: Alan Jones Belini Leme, de 22 anos
Agentes do Estado
: dois policiais militares da Força Tática da Polícia Militar

Relato do caso: Em pleno período de “caça aos bandidos” a que se dedicaram as forças policiais do Estado de São Paulo como reação à primeira onda de ataques do PCC, o jovem Alan Jones Belini Leme, de 22 anos, servente de pedreiro, morreu executado por policiais militares na noite do dia 16 de maio de 2006, em uma suposta troca de tiros com a vítima, na Vila Paraíba, Caçapava.  

Na versão policial, Alan era tido como suspeito de envolvimento no assassinato do policial militar Ricardo Savino, 28 anos, que estava de folga, no sábado, dia 13 de maio, e foi assassinado com disparos de uma pistola calibre 9mm (arma de uso das forças policiais e militares do estado), em sua casa, em Caçapava.

Não deixa de ser estranha esta agilidade policial para identificar um suspeito, assim, a olho. A Polícia Militar relatou que membros da Força Tática depararam-se com Alan por volta das 21h40 do dia 16, terça-feira, quando faziam patrulhamento pelo bairro de Vila Paraíba. Ao avistar a viatura ele teria iniciado uma fuga, sendo perseguido a pé por dois policiais. Durante a fuga, Alan teria disparado dois tiros contra os policiais, pulado alguns muros e chegado a uma fábrica de doces, onde teria tentado se esconder. Os policiais – que se supõe também tenham pulado alguns muros – seguiram Alan para dentro do prédio. Ali o servente de pedreiro teria atirado um tiro novamente, ao qual os dois policiais, sem serem absolutamente atingidos, revidaram com três tiros mortais: no tórax, no quadril e no abdômen. Como em todas as histórias semelhantes, ele não morreu no local. Seriamente baleado, ele  teria sido “generosamente” socorrido, mas não resistiu aos ferimentos, vindo a morrer depois, ou no caminho, ou no hospital, de modo que a cena do crime e a comprovação da “troca de tiros” nunca teria podido ser analisada e comprovada. Segundo ainda a versão da polícia, com ele foi apreendido um revólver calibre 38 com três cápsulas deflagradas e duas intactas. 

No dia seguinte à morte de Alan, dia 17 de maio, policiais civis teriam prendido outro suspeito, com o qual teriam encontrado objetos que teriam sido furtados da casa do policial militar Ricardo Savino, após seu assassinato (objetos estes expostos em foto no jornal Vale Paraibano de 18/05/2006). Nessa ocasião o delegado de Caçapava declarou: "Ele [suspeito] disse que viu pessoas saindo da casa de Alan depois da morte do servente com objetos para esconder no mato, objetos estes furtados na casa do policial Savino” (Vale Paraibano. S. José dos Campos, 18/05/2006). O encadeamento da explicação é engenhoso: alguém resgata da casa de Alan objetos roubados (mas afinal o soldado Savino foi vítima de um latrocínio?), esconde-os no mato, um outro ladrão rouba dos ladrões e tem a má sorte de ser também preso! Era a prova testemunhal que faltava para incriminar Alan, ligá-lo ao PCC e assim justificar seu assassinato. Com efeito, a execução de Alan foi grosseiramente integrada ao operativo de punição dos membros do PCC feito em São José dos Campos, onde outros dois homens, apontados sumariamente pela polícia como membros do PCC, também foram mortos.

Situação da investigação: O nome de Alan Jones Belini Leme vem se juntar aos de mais de 400 mortos por policiais e homens encapuzados entre os dias 12 e 31 de maio de 2006. Todos os organismos estatais que se dispuseram a apurar essas mortes sucumbiram ao peso do trabalho e à dificuldade de obtenção de informações. Reconhecido de longe como “suspeito” de um crime, perseguido e executado, a única resposta das autoridades do aparelho repressivo do Estado foi essa mirabolante história de objetos do soldado Savino, retirados discretamente da casa de Alan, escondidos no mato, roubados por outro ladrão que, pela mão da Providência, é preso. Tudo para provar que a suspeição era justa e que a execução se justifica, apesar de não haver na legislação brasileira a pena de morte.

Fontes: Agência Estado (17/05/2006); Vale Paraibano, S. José dos Campos (18/05/2006); (10/08/2007)