EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Dois adolescentes são seqüestrados por cinco policiais militares e cerca de uma hora depois são executados em uma estradinha de terra deserta, na Estrada da Candinha, em Guarulhos (Grande São Paulo)

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 Data: 28 de julho de 2002
Local: Estrada da Candinha, Parque Santos Dumont, Guarulhos (Grande São Paulo)
Vítima: Bruno Diego Adorni, 17 anos e Edinaldo, de 17 anos
Agentes do Estado: cinco policiais militares

Relato do caso: No dia 28 de julho de 2002, Bruno Diego Adorni, de 17 anos, e Edinaldo, também de 17 anos, foram seqüestrados por cinco policiais militares, na rua Claudino Barbosa Macedo, entre os números 354 e 370, no Bairro do Macedo, perto da Praça das Pedras, em Guarulhos (Grande São Paulo). Essa prisão foi vista por alguns vizinhos que se encontravam na porta de suas casas, um lavando seu carro, outro guardando o seu.

Este caso, como todos os outros similares, de execuções sumárias de jovens das periferias, teve seus antecedentes. Bruno morava na rua João Romano, bairro de Vila Florida, em frente à Escola Estadual Valdivino de Castro Pereira. Na imediações da escola havia ronda da Polícia Militar. Em uma ocasião – por volta do dia 3 de julho de 2002, cerca de 25 dias antes do seqüestro - os policiais militares deram “uma geral” na escola, ou seja, diante da denúncia de ter havido um roubo, penetraram no recinto da escola com a anuência das autoridades escolares para inquirir os alunos. Na seqüência dois policiais militares, um sargento do 31º Batalhão e um outro policial militar, pegaram o irmão mais velho de Bruno, então com 19 anos, algemaram-no, e o levaram para a casa do pai, Sr. Aparecido Adorni. Nesse momento o pai ainda não tinha visto que o filho estava algemado e, para evitar um escândalo no meio da rua convidou os policiais a entrar em um corredor do quintal que antecede a sua casa. Logo que entraram o Sr. Aparecido pôde então ver que o filho estava algemado e pôde ainda constatar a truculência desses policiais que imediatamente apontaram as armas para a sua cabeça e a de seu filho e foram entrando na casa, inclusive ameaçando de matar a cachorra. Nesse momento Bruno, que já havia apanhado dos policiais, como muitos outros alunos, estava na calçada, fora de casa. Os policiais haviam usado caibros de madeira de uma construção que havia perto para bater nos meninos.

A razão de algemarem o irmão de Bruno e o interrogarem é que diziam acreditar que ali, em frente à escola, havia tráfico de drogas. O pai de Bruno, nessa ocasião, repetiu o que já havia dito várias vezes em outras discussões com os policiais da ronda: os seus filhos moravam ali, tinham que ficar na escola onde estudavam, ou em casa, ou na calçada, em frente à casa, tinham o direito de estarem ali. Não havia tráfico porque o próprio pai vigiava os filhos e qualquer problema, quem saía à rua era ele. Desde então carros da polícia militar passavam pela casa do Sr. Adorni tentando intimidá-lo.

Em uma outra ocasião, quando foi encontrada uma arma dentro da escola na mão de um garoto, que afirmava que a encontrou em cima da mureta do pátio, as autoridades escolares haviam permitido que os policiais entrassem, batessem e torturassem, em uma sala separada, para saber de quem era a arma. Alguns adolescentes, entre os quais um primo de Bruno, foram então levados para a delegacia, para o 6º DP, mas foram soltos por intervenção da mãe de um deles.

Além disso o Sr. Aparecido chegou a presenciar um policial militar que trabalhava com um outro fazendo ronda, aplicando choque em crianças, no meio da rua, em frente à casa dele. O Sr. Aparecido chega a descrever um aparelhinho com um botão, que apertado, provocava grande choque e estremecimento. Por causa disso ele chegou a discutir com esses policiais no meio da rua, discussão presenciada por trabalhadores que descansavam nas imediações, naquele momento. Porém não chegou a apresentar denúncia pois foi ameaçado: caso apresentasse queixa na delegacia “sofreria as conseqüências”.

No dia 28 de julho de 2002, um domingo, quatro rapazes – Bruno, seu irmão, Edinaldo e mais um – tinham ido ver um bicicleta que estava à venda. Não encontraram o endereço, tinham desistido e estavam voltando. O horário era entre 19hs e 20hs. O irmão de Bruno e o outro rapaz tinham se adiantado e virado a esquina, quando os cinco policiais militares, que chegaram em uma viatura do tipo Tricolor, prenderam Bruno e Edinaldo.  Os que tinham se adiantado não viram nada mas estranharam que os dois não chegavam na casa do quarto rapaz. Por um tempo procuraram. Em seguida o irmão de Bruno voltou para casa, por volta das 22hs30 e contou para o pai o desaparecimento do irmão. Saíram os dois e continuaram até de madrugada a procurar Bruno.

Situação da investigação: Na segunda-feira, dia 29 de julho, pai e filho continuaram procurando Bruno, pensando em uma prisão e denunciando o desaparecimento.  O Sr. Aparecido foi ao 1º DP: nada. Falaram que ele tinha que ir ao 15º Batalhão. Foi ao Hospital Brasil. E fez um Boletim de Ocorrência de desaparecimento no 6º DP. Como acontece sempre, teve que pelejar para que o B.O. fosse feito, pois exigiam que tivessem já passado 72 horas. Mas o pai argumentou que seu filho nunca dormia fora de casa. Nesta altura toda a família estava então mobilizada: o irmão mais velho e o cunhado do Sr. Aparecido. Vieram até São Paulo, no DHPP. Nessas idas e vindas já tinha sido estabelecida a convicção de que os dois desaparecidos – Bruno e Edinaldo – tinham sido detidos e colocados em uma viatura, mas não se sabia o número dela.

Na segunda-feira no fim tarde, enquanto o Sr. Aparecido estava em São Paulo, o irmão de Bruno que não tinha sido preso voltou ao local e conseguiu falar com dois vizinhos que reproduziram mais ou menos a cena. Morando em duas casas diferentes, os dois confirmaram que viram os cinco policiais colocarem os meninos na caçamba (“corró”) do carro policial. Um deles disse conhecer e temer alguns dos policiais, principalmente um deles. As duas testemunhas chegaram a descrever as roupas com que estava Bruno.

Mas os corpos dos dois rapazes só foram achados e recolhidos na terça-feira à tarde. A história do encontro dos corpos deve ser precedida da narrativa do pai de Edinaldo, que no entanto, só pôde contar a sua história ao Sr. Aparecido, uma semana depois do enterro de Bruno. Nessa ocasião, por intermédio da irmã de Edinaldo, que esteve no velório, foi marcado um encontro entre os dois pais, justamente perto do lugar onde os corpos foram encontrados.

E na narrativa do pai de Edinaldo, uma história impressionante. Eram entre 20hs30 e 21hs do mesmo dia em que os dois havia sido presos. Trabalhando com um caminhão que faz carretos, o pai de Edinaldo estava ao lado de um terreno baldio jogando entulho que havia retirado de uma escola, apenas capim. Perpendicularmente à rua em que se encontrava o caminhão chegou uma viatura com cinco policiais dentro e virou à direita, no sentido inverso ao que se encontrava o veículo que descarregava entulho. Mas notando aquela presença deu uma marcha à ré e penetrou na Estrada da Candinha, que ficava em frente à rua por onde haviam chegado: uma estrada de terra, um caminho, por onde só pode passar um carro. Por sua vez o pai de Edinaldo pôde notar, dentro do “corró”, a presença de duas pessoas cujas cabeças eretas demonstravam que estavam vivas. Enquanto o pai de Edinaldo, temendo ser repreendido por descarregar entulho, interrompia o serviço com os ajudantes e preparava-se para partir, ouviu tiros.

Pouco tempo depois, no mesmo dia,  estando a família também à procura de Edinaldo, seu irmão mais velho ouviu falar em um ambiente freqüentado por policiais que naquele local tinham matado e abandonado dois corpos. Um deles disse: “E aí?, mais um sem vergonha morto”; o outro respondeu: “É, mais um”. Ao que o primeiro replicou: “É nós já terminamos o serviço com mais dois aqui”. Por causa desse comentário o pai de Edinaldo lembrou-se do ocorrido e concluiu que viu seu filho e Bruno passarem pouco antes de serem executados.

Paralelamente outras pessoas já sabiam da localização  dos corpos, e particularmente a caseira de uma chácara pertencente a um oficial do Exército que ficava perto. Como o empregado da chácara tinha que passar todos os dias pelo local onde estavam os corpos, ele andou telefonando insistentemente para o número 190, pedindo que a polícia fizesse alguma coisa, mas sem resultado, no início. Pessoas começaram a se aglomerar no local. Até que, na terça-feira à tarde a polícia, justificando ter encontrado os corpos em sua ronda – o que é impossível pois o local da desova ficava bem longe da estrada principal, por onde passam os carros de polícia – recolheu-os.

Tudo isso foi relatado ao Sr. Aparecido pelo pai de Edinaldo cerca de uma semana depois do enterro dos rapazes. Nessa ocasião foram lá também alguns parentes de Bruno e tiraram várias fotografias que foram anexadas ao processo (nº 3179/92 e 1560/02 Júri) pelo promotor, Dr. Neudival Mascarenhas Filho. E mesmo quando estavam lá, vários parentes dos dois mortos, tentando entender como tinham acontecido as coisas, passou pela estrada principal um carro da Polícia Militar tentando intimidá-los.

Sabe-se que os cadáveres dos dois rapazes foram encontrados com as calças abaixadas e com os cadarços dos sapatos amarrados, para impedir a fuga. Há indícios de que Edinaldo foi torturado antes de ser morto. Tinham tiros no peito e na cabeça. No laudo de exame de corpo de delito de Bruno consta que tinha orifícios de cinco tiros, um na barriga e 4 na cabeça, um deles com entrada de trás para frente.

Depois do encontro dos dois corpos o Sr. Aparecido foi à Delegacia de Homicídios de Guarulhos. Enviaram-no para o 7º DP onde havia um B.O. de ocorrência de encontro de corpo desconhecido. Fez então o reconhecimento, já que tinha antes feito o reconhecimento do corpo, no IML.

Depois que o Sr. Aparecido passou a ter o caso acompanhado pelo promotor, Dr. Neudival Mascarenhas Filho, ele começou a ser assediado pela Polícia Civil. Dois policiais do 7º DP foram à sua casa, “convidando-o” para que comparecesse à delegacia para falar com o delegado. Como o promotor lhe havia recomendado que não fizesse nada sem antes consultá-lo – ele chegou inclusive a telefonar enquanto os dois policiais estavam em sua casa – ele não aceitou o “convite”. Continuaram a assediá-lo mais algumas vezes, indo à sua casa e depois passando com o carro policial várias vezes.

Depois de instalado o processo o Sr. Aparecido foi à Corregedoria da Polícia Militar e ali reconheceu os policiais militares que anteriormente haviam discutido com ele.

Quanto ao inquérito na Corregedoria, o Sr. Aparecido não sabe se as testemunhas que viram os policiais militares colocarem os dois rapazes na caçamba do camburão foram ouvidas, embora todos os dados tivessem sido fornecidos.

Atualmente, depois de mais de três anos, o processo (1560/02) encontra-se no DHPP de São Paulo, em lentas investigações que não levam a nada, tendo sido o Sr. Aparecido e seu filho que escapou de ser também preso e assassinado, interrogados. E como sempre a pergunta mais constante é se o morto usava drogas: é a criminalização da pobreza. O morto é sempre o culpado de sua morte.

Fonte: Audiência Pública da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP, com a presença do Secretário Especial de DIreitos Humanos, Nilmário Miranda, em 14/03/2003; Audiência Pública da Comissão Especial do Conselho de Defesa da Pessoa Humana (CDDPH) sobre Grupos de Extermínio realizada em 20/05/2003, na Câmara Municipal de Guarulhos; Relatório das Entidades de Direitos Humanos entregue à Relatora da ONU para Execuções Sumárias, Sra. Asma Jahangir, “São Paulo: Política de segurança ou política de extermínio?”, setembro 2003; jornal Folha Metropolitana, Guarulhos, 31/07/2006; Laudo de Exame de Corpo de Delito – Exame Necroscópico, Equipe de Perícias Médico-Legais de Guarulhos, Superintendência da Política Técnico-Científica, IML/Secretaria da Segurança Pública; Entrevista concedida por Aparecido Adorni à equipe OVP-SP.