EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Dois rapazes são presos por policias militares, desaparecem e, dias depois, seus corpos são encontrados nus, em meio a denúncias de vários crimes atribuídos a grupos de extermínio em Guarulhos (Grande São Paulo)

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 Data: 9 de março de 2003
Local:
Jardim Cumbica, Guarulhos
Vítima:
Dorival René Savioli, 26 anos; e Adriano de Holanda Cavalcante, 18 anos
Agente do Estado
: policiais militares da 3ª Companhia do 31º Batalhão não identificados

Relato do caso: Dorival René Savioli, de 26 anos, e seu primo, Adriano de Holanda Cavalcante, de 18 anos, desapareceram no dia 9 de março de 2003, um domingo. Seus parentes souberam do desaparecimento por testemunhas que declararam que eles foram presos por policiais militares da 3ª Companhia do 31º Batalhão. Segundo declarações da irmã de Dorival, Alessandra Savioli, os cinco rapazes voltavam de uma festa à qual tinham ido na noite de sábado para domingo, quando estando na firma Elesbon, no Jardim Cumbica, três deles foram presos. Mas apenas um deles, José Florêncio da Silva, de 31 anos, foi apresentado pelos policiais militares ao 4º Distrito Policial.

Os jornais registraram que parentes teriam reconhecido, em Boletim de Ocorrência no 8º DP, que os dois rapazes que então estavam desaparecidos estavam tentando realizar um furto junto com os outros três, porém em depoimento na Audiência Pública sobre Grupos de Extermínio em Guarulhos, realizada na Câmara Municipal em 20 de maio de 2003, a irmã de Dorival afirmou que os rapazes voltavam de uma festa.

Situação da investigação: Durante o domingo, dia 9, e nos dias seguintes os parentes de Dorival e de Adriano procuraram os rapazes nas delegacias. No dia 11, na terça feira, Alessandra Savioli fez um Boletim de Ocorrência do desaparecimento no 8º DP. No dia seguinte, quarta-feira, dia 12, quando estava na 8º DP, chegou a notícia de que dois corpos haviam sido encontrados em uma ribanceira, no bairro Ponte Preta, área do 7º DP. Os corpos estavam nus, com marcas de vários tiros e de torturas, praticamente irreconhecíveis. Alessandra declarou que só pôde reconhecer o irmão por uma tatuagem no ombro direito.

Alessandra ainda foi chamada à Delegacia de Homicídios de Guarulhos para fazer um exame de DNA, pois, argumentavam, precisavam comparar com manchas de sangue em duas viaturas. Porém quando ela se apresentou no dia marcado, foi dispensada sem maiores explicações.

Em virtude do encontro desses dois corpos e da voz corrente em Guarulhos, durante o ano de 2003, que havia grupos de extermínio, formados em sua maioria por policiais, o GAERCO (Grupo de Atuação Regional de Combate ao Crime Organizado) passou a investigar essas ocorrências. O coronel corregedor da Polícia Militar declarou na ocasião que 18 policiais foram ouvidos, quatro carros e 20 armas do 31º Batalhão foram apreendidos para perícia. Houve afastamento provisório para o serviço administrativo de alguns policiais. Mas, segundo a Corregedoria, não foi encontrado nenhum indício de envolvimento de policiais militares no caso.  O Ministério Público afirmava ter conhecimento de 12 inquéritos somando 20 crimes que apresentavam indícios de participação de policiais nos assassinatos.

Mas segundo membros da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Vereadores de Guarulhos, havia provas de envolvimento de um soldado, um sargento e um tenente da 1ª Companhia do 15º Batalhão nesse conjunto de crimes atribuído a grupos de extermínio. O sargento, apontado na maioria das denúncias, era até conhecido como “dedo mole” pela sua fama em apertar o gatilho.

O soldado em questão chegou a ter decretada a sua prisão temporária. Ele havia sido denunciado à Corregedoria da Polícia Militar em carta de Márcio Seminaldo, de 27 anos, como chefe de um grupo de extermínio formado por policiais militares. No mesmo dia em que o soldado iria começar a ser investigado Márcio foi assassinado no centro de Guarulhos (leia mais). Além disso esse soldado é acusado da tentativa de assassinato de Eric Nogueira Gnomo em um bar em Vila Galvão. A vítima levou seis tiros, ficando cega de um olho. Chamado à Corregedoria, reconheceu o soldado. Porém o único resultado foi que Eric passou a ter que ficar sob a vigilância do Serviço de Proteção às Testemunhas.

Até 2006 o assassinato de Dorival René Savioli e Adriano de Holanda Cavalcante não foi esclarecido, encontrando-se no DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa), Proc. 672/03.     

Fontes: Folha Online, 13/03/2003; 15/03/2003; Folha de S. Paulo, 15/03/2003; Diário de S. Paulo, 14/03/2003, 15/03/2003; Atas da Audiência Pública sobre Grupos de Extermínio em Guarulhos, 20/05/2003; Relatório das Entidades de Direitos Humanos entregue à Relatora da ONU para Execuções Sumárias, Sra. Asma Jahangir, “São Paulo: Política de segurança ou política de extermínio?”, setembro 2003