Data:
17 de maio de 2006
Local:
Jardim Ermira,
Jundiaí (interior do Estado de São Paulo)
Vítima:
Edinaldo Moura
Bessa, 30 anos
Agentes
do Estado:
Força Tática da
Polícia Militar de Jundiaí
Relato
do caso:
No dia 17 de maio de
2006, quarta-feira, cinco dias após o início dos ataques do PCC a alvos do
aparelho de Estado e de empresas privadas, embora os ataques já tivessem
amainado, as polícias andavam ansiosas à caça de suspeitos. Em Jundiaí o
estado de
alerta prosseguia nos batalhões da Polícia Militar. Os integrantes da
corporação continuavam em regime de trabalho especial, com menos horas de
folga. "Nós vamos chegar aos autores dos crimes", declarava o major
comandante do 11º Batalhão da Polícia Militar do
Interior (BPMI), no Anhangabaú. "Estamos alcançando novos resultados a
cada dia. As equipes da Força Tática estão se desdobrando nas ruas (...)
Os marginais estão espalhados pela cidade. Para combater essa estrutura
esparsa, precisamos recorrer à inteligência policial" (Jornal de
Jundiaí, 18/05/2006). Já um major do 49ª BPMI, na Vila Arens, afirmava que as operações especiais da polícia não
tinham data para acabar. "A situação está voltando ao normal, mas
continuamos com um esquema diferenciado" (Jornal de Jundiaí,
18/05/2006).
Foi
assim que um episódio corriqueiro, a desconfiança em relação a um carro
Ford Ka que atravessou o caminho de uma viatura da Força Tática, evoluiu
para uma perseguição desenfreada que culminou na execução do pedreiro,
Edinaldo Moura Bessa, de 30 anos.
Conforme declarações da Polícia Civil, a Força Tática retornava de uma
ocorrência na cidade de Cabreúva, interior do Estado de São Paulo, quando
passou a perseguir um Ford Ka. Aqui as versões se confundem para
justificar a perseguição. Na versão contida no Boletim de Ocorrência
lavrado no Plantão Permanente da Polícia Civil, os policiais militares
seguiam o Ford Ka e tiveram a sorte de, diante da empresa Gordinho Braume,
ver os ocupantes do carro dispararem tiros (Jornal de Jundiaí,
17/05/2006). Já segundo a Polícia Militar, os policiais teriam recebido
uma denúncia de um vigilante noturno, através do número 190, de que um
Ford Ka havia disparado tiros contra a fachada de uma empresa
(Folha
On-Line,
18/05/2006).
Em
seguida as versões coincidem: após intensa perseguição, o carro em fuga
desgovernou-se, chocando-se contra um barranco, no Jardim Ermira. Teria
então havido a clássica troca de tiros da qual resultou ter sido Edinaldo
alvejado com dois tiros no peito, sendo o único ferido no confronto.
Socorrido e levado ao Hospital São Vicente, Edinaldo veio a falecer. O
outro rapaz que estava no veículo conseguiu fugir por um matagal.
Situação da
investigação:
Edinaldo, que segundo a polícia era conhecido como Edinho Preto, tinha
endereço fixo, à rua Idalina Gonçalves Dias, Jardim São Camilo. Apesar
disso o Boletim de Ocorrência já citado da Polícia Civil classifica o
crime, tal como em todos os casos semelhantes, como “resistência seguida
de morte” (RSM). O delegado Antônio Dota Júnior chegou a ir ao local do
suposto confronto e participou dos levantamentos feitos por peritos da
Polícia Científica (Jornal de Jundiaí, 17/05/2006). Mas o fez numa
cena do crime completamente desvirtuada, pois a vítima havia sido
deslocada e levada para um hospital, onde faleceu.
De
antemão classificado o caso como “resistência seguida de morte”, restava
às polícias justificar a execução, criminalizando a vítima. Assim, segundo
a versão policial, no Ford Ka foram encontrados um galão de gasolina e
materiais incendiários, além de uma pistola Heckler e Koch, de nove
milímetros, com a numeração suprimida e municiada, bem como um revolver
Taurus, calibre 32. Tudo foi encaminhado para a perícia, mas o encontro
desse material seria a prova de que Edinaldo e o outro rapaz pretendiam
incendiar um ônibus.
A
versão policial avançou ainda para a vida pregressa de Edinaldo e o
recôndito de suas intenções. Em janeiro de 2006 ele teria sido detido em
flagrante com 70 papelotes de cocaína e recolhido à Cadeia Pública de
Jundiaí. Nessa ocasião teria admitido ter ligações com o PCC. Ainda na
versão policial, Edinaldo seria um "soldado" que trabalharia para a
organização, executando ordens em troca de perdão a eventuais dívidas (Agência
Estado, 17/05/2006; Yahoo News, São Paulo, 17/05/2005).
Assim
ele se tornou o suspeito perfeito para que lhe fossem atribuídos o
incêndio de dois ônibus e dois ataques a bancos da cidade ocorridos no fim
de semana anterior. Estava localizado ao menos “um dos autores dos
crimes”, pretensão anunciada com anterioridade pelo major comandante do 11º Batalhão da Polícia Militar do Interior (BPMI),
conforme acima.
Na
ideologia do “marginal culpado”, que é sempre pobre e negro – tão
introjetada na polícia e na população brasileiras - pode-se esperar por
mais execuções sumárias, ou seja, pela política do “gatilho frouxo”, com
os executores acobertados pelos poderes públicos.
Fontes: Agência Estado, 17/05/2006; Folha
On-Line, 18/05/2006); Jornal de Jundiaí, 17/05/2006,
18/05/2006; Yahoo News, São Paulo, 17/05/2006)