Data:
17 de março de 2006
Local:
Rua Gabriele D'Annunzio, esquina com a Avenida Vereador
José Diniz, Campo Belo (zona sul de São Paulo)
Vítima:
um homem não identificado e Gerson Mendonça de Freitas
Filho, de 50 anos
Agente
do Estado:
sete policiais militares da 1ª Companhia do 12º Batalhão da
Polícia Militar
Relato
do caso:
Era pouco antes de meio-dia do dia 17 de março de 2006, no
luxuoso bairro do Brooklin, quando dois homens abordaram o empresário
Gerson Mendonça de Freitas Filho, de 50 anos, que dirigia um Astra
vermelho. Um deles assumiu a direção, o outro o lugar do passageiro, e o
empresário foi para o banco traseiro do veículo. Porém uma testemunha viu
a tentativa de seqüestro e comunicou o fato aos policiais que patrulhavam
a região. Começou então uma perseguição pelas ruas do bairro de Campo
Belo, que durou apenas 10 minutos, mas teve como resultado, após intenso
tiroteio, o saldo de duas mortes: a de um dos rapazes que tentavam o
seqüestro, cujo nome não foi revelado, com seis tiros; e a do refém, o
empresário Gerson Mendonça de Freitas Filho, de 50 anos, com um tiro nas
costas dado por um dos policiais militares. O outro rapaz foi preso e um
policial foi ferido de raspão no braço. Mais de 40 disparos foram feitos
numa das regiões mais movimentadas e ricas da zona sul de São Paulo (Terra,
18/03/2006).
Depois de abordar o empresário, os dois homens tomaram a
Avenida Jornalista Roberto Marinho e num dos cruzamentos o semáforo
fechou, obrigando o Astra a parar. Os policiais militares chegaram numa
viatura a tempo de interceptar o Astra. Parecia que a perseguição
terminaria ali. Mas, o homem que dirigia o Astra, ao perceber os
policiais, acelerou o veículo e tentou fugir na contramão. Outras viaturas
que participavam da perseguição localizaram o Astra e passaram a segui-lo.
Na Rua Gabriele D'Annunzio, esquina com a Avenida Vereador José Diniz, o
Astra bateu em um táxi, e depois em uma viatura da PM que vinha logo
atrás, ficando no meio da pista. Segundo a versão da polícia, os dois
rapazes desceram do carro atirando. Um deles se rendeu. O outro, conforme
testemunhas, ao tentar sacar uma arma foi sumariamente abatido com seis
tiros. E sobrou para o refém. No intenso tiroteio, no afã de liquidar os
infratores, sem cuidado em ver em quem se atira, ele também foi abatido.
Um moto-boy que presenciou o tiroteio e pediu para não ser identificado,
declarou: "Depois da batida, o homem que estava no banco do passageiro já
desceu do carro atirando e logo tomou um tiro na testa". Num outro relato,
o mesmo moto-boy acrescentou: "O senhor que estava no banco de trás abriu
a porta, saiu do carro, deu dois passos e tombou” (Folha de S. Paulo,
18/03/2006). O taxista Ronaldo Silva Rosa, de 59 anos, confirmou a versão
do moto-boy de que o tiroteio foi intenso, tanto que teve que se abaixar
no carro (Globo On-line, 24/03/2006). O empresário estava no banco
de trás do carro durante toda a ação. Enquanto os policiais atiravam o
empresário saiu do Astra pela porta traseira e tombou logo em seguida.
Uma testemunha confirmou que os primeiros policiais
militares logo pediram reforço. A perseguição e o tiroteio deixaram em
pânico o bairro chique, onde os vizinhos avaliaram que só a "resposta
exagerada" por parte dos policiais militares pode explicar a morte do
empresário (Jornal da Tarde, 18/03/2006). Já a viúva do empresário
julgou injustificável a confusão: "O meu marido era um homem de 1m80,
cabelo grisalho, estava vestido de roupa social. Ele não poderia ser
confundido com nenhum marginal" (Estado de S. Paulo, 25/03/2006).
Com efeito, desta vez a polícia se enganou, pois normalmente seus tiros
tem destino certo: os “marginais”, isto é, os excluídos. Por isso o
“marginal” levou seis tiros, enquanto o empresário recebeu só um tiro, de
engano, infelizmente, fatal. Já o capitão da 1ª Companhia do 12º Batalhão
da PM sintetizou assim seu pensamento: "Pelo palco da
ocorrência, não houve erro nem excesso e sim uma fatalidade" (Jornal da
Tarde, 18/03/2006).
Os médicos do Hospital Evaldo Foz, que atenderam o
empresário alvejado nas costas, declararam ter feito os procedimentos
necessários para tentar reanimá-lo, mas por causa do ferimento e da
excessiva perda de sangue, não puderam salvá-lo. "Pelo tipo de ferimento
que o empresário apresentava nas costas, foi uma arma de grosso calibre",
declarou o médico Marcelo Padilha Balsimelli (Jornal da Tarde,
18/03/2006). Ele acrescentou que o ferimento do empresário era
incompatível com armas de pequeno calibre, como os revólveres 38 e 32, que
foram apreendidos com os dois homens.
O rapaz que foi executado pela polícia, como de praxe,
chegou a ser levado para o Hospital São Paulo, mas já chegou morto (Jornal
da Tarde, 18/03/2006).
Situação da investigação: Após o tiroteio, depoimentos falam de mais de 40
tiros disparados. Dos policiais militares, foram apreendidas dez armas,
seis revólveres calibre 38 e quatro pistolas ponto 40, sendo estas mais
potentes, de uso exclusivo da polícia, das quais foram deflagrados pelo
menos 23 tiros. Das armas em posse dos dois homens, revólveres calibre 38
e 32, saíram oito balas. De fato, não só a morte do empresário, mas como
também a do outro homem, demonstram que a ação dos policiais militares
possui um alto grau de letalidade, criticado por entidades de defesa dos
direitos humanos como a Anistia Internacional.
Para o delegado que acompanha o caso, os policiais
militares não imaginavam que o proprietário ainda estivesse dentro do
Astra (Jornal da Tarde, 24/03/2006). Sugere assim que uma outra
abordagem seria feita caso os policiais militares tivessem conhecimento de
que o proprietário se encontrava no interior do veículo.
A viúva do empresário declarou que iria aguardar os laudos
do Instituto Médico Legal (IML) e do Instituto de Criminalística (IC) para
decidir com os demais familiares do empresário quais providências seriam
tomadas.
A assessoria de imprensa da Polícia Militar disse que um
Inquérito Policial Militar (IPM) foi aberto para apurar as circunstâncias
do tiroteio que resultou na morte do empresário, e apenas dele, e que em
princípio todos os policiais militares envolvidos no caso voltariam para o
patrulhamento de rua. Ao todo, 10 armas foram apreendidas para análise. "A
bala ficou alojada no corpo da vítima e será retirada para que seja feito
o confronto balístico", disse o delegado titular do 27º DP (Ibirapuera),
Roberto Calaça Vieira (Jornal da Tarde, 18/03/2006).
Os médicos do Instituto Médico Legal (IML), afirmaram que a
bala que atingiu o empresário nas costas, desceu até o abdômen, perfurando
todos os órgãos que estavam na sua trajetória. Os médicos, informaram que
pela trajetória do projétil, o tiro foi disparado de cima para baixo e da
direita para a esquerda. Como esperado, o exame posterior da perícia
policial provou que a bala que matou o empresário partiu de pistola ponto
40, usada por quatro dos oito policiais envolvidos na ação.
Com esta informação, a Corregedoria da Polícia Militar comunicou que sete policiais militares envolvidos no caso foram afastados
do patrulhamento de rua e iriam cumprir função administrativa na 1ª
Companhia do 12º Batalhão da Policia Militar.
Inquérito da Polícia Civil e um IPM iriam investigar de
qual arma saiu o tiro que matou o empresário e assim chegar até o policial
militar que efetuou o disparo. Os inquéritos também deverão esclarecer se
o empresário estava sentado dentro do carro ou se rastejava para escapar
do fogo cruzado quando foi baleado. "Só a perícia vai dizer se o projétil
que atingiu o veículo é o mesmo que causou a morte da vítima", afirmou o
delegado regional (Folha de São Paulo, 24/03/2006).
O caso foi registrado no 27º DP (Campo Belo) como morte
suspeita. O delegado responsável disse que vai encaminhar os inquéritos ao
Fórum. Lá, os promotores de Justiça deverão analisar a atuação dos
policiais militares. "Eles podem interpretar que a morte foi, desde uma
fatalidade decorrente do estrito cumprimento do dever, até um homicídio
culposo (sem intenção)", disse o delegado (Jornal da Tarde,
24/03/2006). Para ele, a morte do empresário foi uma fatalidade. "Parece
que não houve dolo [intenção de matar]. Pode ter ocorrido excesso, mas
isso só será definido no final das investigações" (Folha de São Paulo,
24/03/2006). “Excesso” é como tem sido chamada a extrema truculência das
polícias, que às vezes, como no caso, volta-se contra ela própria, ao
matar por engano um membro da elite.
O Setor de Comunicação Social da PM disse que só iria se
manifestar depois de ter conhecimento oficial do fato. O comandante da companhia da PM responsável pela região onde houve o
tiroteio, negou a existência de falha na ação e insiste que a morte foi
uma "fatalidade".
Depois que os familiares ameaçaram processar o Estado pela
morte do empresário, foi a vez dos moradores do bairro Vila Alexandria,
onde o empresário morava, que em uma esquina colocaram uma faixa de
protesto pedindo mais segurança.
Fontes: Folha On-line,
17/03/2006, 24/03/2006; Terra, 18/03/2006, 25/03/2006;
Folha de S. Paulo, 18/03/2006, 24/03/2006; Todo Dia,
18/03/2006, 20/03/2006; Jornal da Tarde, 18/03/2006, 19/03/2006,
24/03/2006, 25/03/2006; Estado de S. Paulo, 19/03/2006, 24/03/2006,
25/03/2006; Diário do Grande ABC, 19/03/2006, 25/03/2006; Globo
On-line, 24/03/2006; Diário de S. Paulo, 24/03/2006,
25/03/2006; Agora, 24/03/2006