Data:
15 de
maio de 2006
Local:
Rua João Pereira Teixeira, nº 70, Jardim Guanciale, Campo
Limpo Paulista (interior do Estado de São Paulo)
Vítima:
Fabiano Maciel Galvão, de 26 anos
Agentes
do Estado:
policiais civis da Delegacia de Investigações Gerais (DIG)
de Jundiaí
Relato
do caso:
Ante o clima de histeria que tomou conta do Estado de São
Paulo com os ataques do PCC a alvos do aparelho de Estado e a “vingança”
das polícias, conforme noticiou a imprensa, corroborada pelas falas das
principais autoridades do sistema de segurança do estado, a categoria de
“suspeito” foi elevada à de “culpado”, até prova em contrário. Como muitos
“suspeitos” são apresentados nos boletins de ocorrência como “culpados”
depois de mortos, não raro em versões ratificadas por inquéritos policiais
duvidosos, é esta a versão que fica. Vejamos apenas um exemplo.
No dia 15 de maio de 2006, em pleno pico da explosão de
violência que resultou em centenas de mortos, investigações de policiais
da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Jundiaí estiveram na casa do pintor Fabiano Maciel
Galvão, de 26 anos, suspeito de ser um dos líderes da organização
criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) na região e de coordenar os
ataques contra policiais na região.
Nesse dia, pela manhã, cumprindo diligência, investigadores
da DIG foram à casa do pintor, localizada na Rua João Pereira Teixeira, nº
70, no Jardim Guanciale, em Campo Limpo, interior do Estado de São Paulo.
Divididos em duas equipes, uma bloqueou a entrada da residência, enquanto
outra foi para os fundos dela, completando assim o cerco à casa. Segundo a
versão policial retomada pelos órgãos da imprensa, Fabiano tentou fugir
pelos fundos da casa, sendo surpreendido pela outra equipe. Na tentativa
de fuga ele teria pego um revólver calibre 38 e disparado na direção dos
policiais. Subseqüentemente teria sido baleado pelos policiais.
Como em todos os casos desse tipo, a morte não se dá no
local do suposto confronto, de modo que fica dispensado o exame da polícia
científica na cena do crime para confirmar que efetivamente o pintor
Fabiano, que estava em sua casa, atirou contra os policiais. O Jornal
de Jundiaí, na edição de 17 de maio de 2006, concluiu seu relato,
semelhante a tantos outros casos que, pela sua lógica repetitiva,
demonstram por si só a parcialidade na cobertura dos fatos, da seguinte
maneira: “Prontamente socorrido, Fabiano foi levado ao Hospital Nossa
Senhora do Rosário, porém, morreu quando recebia os primeiros cuidados”.
Ou seja, a versão da polícia, que é a contida no Boletim de Ocorrência, é
a única veiculada.
Situação da investigação: Ao que tudo indica, nenhuma testemunha foi ouvida.
As fontes usadas neste relato não citam o número de policiais envolvidos
na ação, limitando-se a mencionar apenas que eles foram divididos em duas
equipes. Também economizam nos detalhes, tais como: quantos disparos a
vítima teria efetuado, correspondentes às marcas deixadas no local,
quantos disparos os policiais efetuaram e, sobretudo, quantos tiros
alvejaram a vítima e em que parte do corpo a acertaram.
No Boletim de Ocorrência elaborado na Delegacia de Campo
Limpo Paulista, o assassinato consta apenas, como de praxe, como
“resistência seguida de morte” (RSM), uma espécie de código que justifica
as execuções sumárias. O “suspeito” torna-se assim, depois de morto,
culpado.
Fontes: Terra,
15/05/2006; Agência Estado, 16/05/2006; Jornal de Jundiaí,
17/05/2006