EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Três primos, moradores de uma favela da zona oeste de São Paulo, que saíram para se divertir em um fim de semana, são mortos por policiais militares da ROTA na Rodovia Régis Bittencourt

Voltar 

Última atualização: 15/03/2007

 Data: 14 de maio de 2006
Local:
km 285 da Rodovia Régis Bittencourt (BR – 116)
Vítima: Gilson Furtado de Araújo, de 21 anos, David Furtado de Araújo, de 17, e Leandro Araújo, de 18 anos
Agentes do Estado
: policiais militares da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar)

Relato do caso: Na madrugada do dia 14 de maio de 2006, um domingo, os primos Gilson Furtado de Araújo, de 21 anos, David Furtado de Araújo, de 17, e Leandro Araújo, de 18 anos, foram mortos por policiais militares da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) na Rodovia Régis Bittencourt (BR 116), no trecho que liga São Paulo  a Curitiba.

Esse foi, provavelmente, só mais um caso, entre muitos, em que policiais - sejam eles da ROTA, da Polícia Civil ou da Polícia Militar - executaram sumariamente pessoas depois do pânico que os ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) causaram em São Paulo. Durante os dias que se seguiram aos ataques iniciados em 12 de maio, policiais e homens encapuzados apoiados por eles mataram um número ainda não esclarecido de pessoas, que pode chegar a mais de 400, conforme os laudos necroscópicos dos IMLs (Instituto Médico-Legal) do Estado de São Paulo (leia mais).

Os três jovens, moradores da favela de Vila Nova Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, pretendiam passar o fim de semana em Santos (litoral paulista) e para tanto, no sábado, dia 13 de maio, alugaram um carro – um Mercedes Classe A – de um ladrão de veículos que morava perto deles. Sabiam que o carro era roubado e escolheram viajar pela BR-116 para evitar os pedágios e para o carro não despertar a atenção da polícia.

Segundo a versão da polícia, os ocupantes do carro teriam atacado um posto da Polícia Rodoviária Federal em Itapecerica da Serra. Em seguida teriam sido perseguidos, resistido à prisão e trocado tiros com policiais da ROTA, morrendo em virtude desse enfrentamento. De acordo ainda com a polícia, os primos Gilson, David e Leandro não portavam documentos.

Por isso eles foram levados para o IML e iam ser enterrados como indigentes, sem identificação. Enquanto isso as três mães os procuravam desde domingo, dia 14 de maio. Mas só encontraram seus corpos na quarta-feira de madrugada, dia 18 de maio. Os familiares não acreditam em enfrentamento, pensam que depois de se renderem eles foram executados a tiros. "É muita coincidência, numa troca de tiro, como a polícia fala, os três serem baleados no peito" (Jornal da Tarde - SP (19/05/2006). A família, que viu os corpos dos rapazes, não encontrou marcas típicas de um confronto e sim tiros certeiros disparados pelos policiais. O veículo, segundo parentes dos mortos, apresentava perfurações de balas na lateral e na traseira. Mas, estranhamente, cada um deles foi morto com apenas um tiro no peito. Um deles também foi baleado num braço.

A família também garante que um deles portava documentos. "Gilson nunca saía sem documentos e portava na carteira um cartão com o telefone do trabalho do pai", explicou um primo dos rapazes, levantando a suspeita de que os próprios policiais tenham se desfeito dos documentos (Agência Estado (18/05/2006).

No velório dos três rapazes, realizado em uma garagem na rua Três Arapongas, na entrada da favela, na quarta-feira, dia 18 de maio, a revolta era generalizada contra a ação dos policiais.

Situação da investigação: Em casos como esse, e na confusão que se estabeleceu naqueles dias, com o Secretário de Segurança Pública de São Paulo recusando-se até a fornecer ao Ministério Público a lista oficial dos mortos pela polícia, falar-se da investigação que deveria haver, para corroborar ou negar a versão policial, seria impossível. As autoridades policiais, neste caso, nem se deram ao trabalho de argumentar que os três primos estavam armados, nem mostraram armas supostamente encontradas com eles.

Foi já, nesses primeiros dias de matança generalizada de “suspeitos” que ficaram claras as perspectivas das autoridades policiais. O delegado geral da Polícia Civil avaliou que a polícia estava agindo de maneira repressiva, porém sem excessos. "Quem atira balas para matar, recebe balas para morrer. E essa ação vai continuar" (Jornal da Tarde, 19/05/2006). Foi uma das falas que atuaram como “carta branca” para a truculência policial.

No entanto este caso, entre outros, chamou a atenção mais tarde da Corregedoria da Polícia Militar. Eram 11 os casos de pessoas mortas por policiais militares da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) entre 12 e 19 de maio de 2006, registrados como “resistência seguida de morte”, que estavam sendo investigados entre o fim de novembro e início de dezembro de 2006. Através de informações do Serviço Reservado da Polícia Militar várias contradições estavam sendo apontadas na versão fornecida pelos autores das mortes. No caso de Gilson, David e Leandro as investigações descobriram que no Mercedes Classe A que rodava no km 285 da Rodovia Régis Bittencourt, já estavam os policiais militares da ROTA à paisana e os três supostos atiradores, presos ou já mortos (Folha de S. Paulo, 25/11/2006).

Estes casos de mortos da ROTA investigados, segundo informou a Corregedoria da Polícia Militar aos jornalistas, tinham características em comum: tiroteios e confrontos sem nenhum ferimento de policiais ou marcas de tiros em carros da ROTA; sempre uma das vítimas portava um documento que comprovava ter ela antecedentes criminais; mesmo mortas ou atingidas em regiões vitais, as vítimas foram levadas para hospitais. Eram também, mais ou menos, sempre os mesmos policiais militares envolvidos. Sâo eles: um cabo, um segundo-tenente e cinco soldados (Folha de S. Paulo, 01/12/2006).

Fontes: Agência Estado, 18/05/2006; Jornal da Tarde, 19/05/2006; Folha de S. Paulo, 25/11/2006 e 01/12/2006;Terra, São Paulo, 01/12/2006