Data:
18 de
julho de 2004
Local:
Favela
do Mangue, Sapopemba (zona leste de São Paulo)
Vítima:
Jaqueline Duque Patriarcha, 13 anos
Agente
do Estado:
policiais militares
não identificados
Relato
do caso:
Na
madrugada do dia 18 de julho de 2004, um domingo, Jaqueline Duque
Patriarcha, de 13 anos, voltava de um baile com uma amiga às 5h30, quando
foi abordada por dois homens encapuzados, que trajavam blusas e calças
cinzas e calçavam coturnos. Moradores ouviram Jaqueline dizer, antes de
levar o tiro:
“não sei de nada, senhor; pelo amor de Deus, não faz isso comigo”. Depois
dos tiros saíram da favela não apenas os dois que abordaram a menina, como
mais seis, dentre os quais, cinco estavam fardados. Entraram em dois
carros: uma Parati da Polícia Militar e um Fiat Palio particular e
partiram. Quinze minutos depois do crime chegou um carro (Blazer) da mesma
Polícia Militar e, conforme os moradores, um deles teria dito a um outro:
“você não vai colocar a mão nisso”. O corpo foi recolhido pelo Instituto
Médico-Legal. No Boletim de Ocorrência, registrado por um policial militar no 70º Distrito Policial, consta que os
primeiros a chegarem ao local depois do crime foram os ocupantes da
viatura da Polícia Militar VTR-19514.
No
mesmo dia as entidades de Direitos Humanos ouviram testemunhas da cena e,
em seguida, divulgaram um relatório, em nome do Movimento Nacional de
Direitos Humanos, em que os moradores do bairro acusam os policiais
militares pelo crime. Isto porque a violência policial na região é uma
rotina: policiais invadem casas, ameaçam de morte, batem em pessoas,
principalmente em crianças e jovens. Além disso extorquem o pouco dinheiro
que os moradores têm. Além dessa violência policial fardada, é comum a
invasão da favela por homens encapuzados, como os que assassinaram
Jaqueline. E os moradores chegam a ver policiais trocando de roupa em um
terreno próximo à favela. Os policiais chegam até a quebrar os “orelhões”
para impedir a notificação na hora, por telefone, das violências. Na
Favela do Mangue esses abusos são praticados por policiais militares do
19º Batalhão da Polícia Militar. E há ainda indícios da existência de um
grupo de extermínio formado por esses homens encapuzados, dentre os quais
alguns policiais militares sem farda.
No
relatório citado foram reunidas, além da denúncia do assassinato de
Jaqueline, várias outras relativas à atuação da Corregedoria da Polícia
Militar: as testemunhas são intimidadas ao irem depor no órgão, às vezes
até retidas de um dia para o outro. O órgão não se informa com o Conselho
Tutelar e nem com as entidades de Direitos Humanos.
Situação
da investigação:
O
Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil,
instaurou um inquérito policial para investigar o caso. Procurou o
Conselho Tutelar e está atuando com a Ouvidoria de Polícia.
O promotor Paulo
Penteado, do Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade
Policial (Gecep), do Ministério Público estadual, também vai pedir que
seja instaurado um inquérito na Corregedoria.
Fonte: Agência Carta
Maior -
http://agenciacartamaior.uol.com.br/
22/07.2004; Folha de S. Paulo, 23/07/2004