EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Estudante acusado de tentativa de roubo de carro é morto com dois tiros por um investigador da Polícia Civil em São Bernardo do Campo (Grande São Paulo)

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 Data: de maio de 2006
Local:
Bairro Assunção, São Bernardo do Campo (Grande São Paulo)
Vítima: Joaquim Rodrigues Estevez, 18 anos
Agente do Estado: um investigador da Polícia Civil e policiais militares

Relato do caso: Mais um caso apresentado como de “confronto”, do qual só se tem a versão da polícia a partir do Boletim de Ocorrência n° 3996, registrado no 3º Distrito Policial de São Bernardo, nos indica a morte do estudante Joaquim Rodrigues Estevez, de 18 anos, com domicílio fixo no Bairro de Santo Inácio. Segundo essa versão, a Polícia Militar teria sido chamada, por volta das 21 horas do dia 1° de maio, para atender a um caso de disparos de arma de fogo no Bairro Assunção, de São Bernardo do Campo. Ao chegarem ao local, na esquina das ruas Argia e Padre José Leite Penteado, os policiais militares encontraram um jovem ferido à bala.  Foram então informados — ao que tudo indica pelo próprio autor dos disparos que balearam o jovem estudante, um investigador da Polícia Civil cujo nome não foi revelado — de que três jovens haviam tentado roubar o seu automóvel, um Toyota Corolla. Ainda segundo a versão do próprio autor dos disparos que viriam a matar Joaquim, ao perceber tratar-se de um policial, este teria sacado sua arma, uma Taurus 7.65. Só então o investigador teria feito uso de sua arma, mais potente, uma Taurus calibre 45, disparando duas vezes em Joaquim. Os outros dois rapazes fugiram.

Como em quase todos os casos semelhantes, Joaquim, apenas ferido, foi “socorrido” pelo investigador autor dos disparos e pelos policiais militares acorridos ao local. Foi levado para o Pronto Socorro Central de São Bernardo, porém, como em quase todos os casos, nesta repetição monótona de procedimentos que revelam o alto grau de letalidade da polícia brasileira, Joaquim não resistiu aos ferimentos e, no caminho, morreu.

Situação da investigação: A Polícia Militar apreendeu as duas armas deste caso para perícia. Isto é tudo como investigação. Na medida em que, como em quase todos os casos dessa natureza - supostos “confrontos” - a cena do crime foi desarranjada, o morto saiu ferido e morreu só no caminho, fica impossível e é considerado dispensável que a polícia comprove que os fatos se deram nessa ordem, que o investigador atirou mesmo por ver sua vida em perigo. Não há menção de depoimento de testemunhas. É possível portanto, àqueles que questionam a facilidade com que a polícia mata, imaginar que a cena não se teria dado dessa forma.

Fonte: Diário do Grande ABC, Santo André (04/05/2006)