EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Trabalhador executado com tiros nas costas e na cabeça por motoqueiros não identificados, acompanhados por um carro da Polícia Militar, quando voltava para casa, em São Mateus (zona leste de São Paulo)

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Última atualização: 11/06/2007

 Data: 15 de maio de 2006
Local:
São Mateus (zona leste de São Paulo)
Vítima: Lindomar Lino da Silva, de 29 anos
Agentes
: quatro motoqueiros não identificados, acompanhados por um carro da Policia Militar

Relato do caso: No dia 15 de maio de 2006, por volta das 16hs, Lindomar Lino da Silva, de 29 anos, conhecido pelos amigos como “Ceará”, voltava para casa no bairro pobre de São Mateus, zona leste de São Paulo. Era seu dia de folga do trabalho. No meio do caminho, Lindomar foi abatido pelas costas com tiros disparados a partir das garupas de duas motos, acompanhadas por um carro da Policia Militar (Folha de S. Paulo, 13/08/2006), todos não identificados. Lindomar morreu com uma bala cravada nas costas e duas na cabeça. “Ele não teve tempo nem de se explicar”, contou a irmã da vítima (IstoÉ, 27/05/2006). Naquela tarde de segunda-feira as ruas da cidade de São Paulo, atemorizadas pela campanha histérica da imprensa e das autoridades policiais, temendo ataques apocalípticos, ficaram vazias. O comércio fechou as portas e a maioria dos trabalhadores voltava para casa mais cedo. O dia ficou marcado como um dos de maior violência da resposta policial aos ataques atribuídos ao PCC iniciados no dia 12 e que resultaram em centenas de mortos, grande parte delas ocorrida como a de Lindomar.

   Vizinhos do casal também disseram que os atiradores estavam nas garupas de duas motos, que eram acompanhadas por um carro da Polícia Militar. Depois de levar o primeiro tiro nas costas, Lindomar caiu. Não satisfeitos, os matadores, com muita tranqüilidade, desceram das motos, aproximaram-se da vítima e, a sangue frio, executaram-na com dois tiros na testa. “Foi uma covardia”, disse, inconformada, Maria, de 23, esposa de Lindomar. Quando perguntados sobre quem havia executado Lindomar, os moradores mais próximos da cena do crime dizem sem nenhuma dúvida: “Foram os policiais” (Istoé, 27/05/2006). Preocupada por ter que tocar a vida sem o marido, Maria disse que vai esperar um pouco mais para contar aos filhos o que aconteceu com o pai. "Vai ser difícil explicar porque ele morreu sem motivo. Era honesto, foi uma vítima inocente dessa guerra", disse. Maria também suspeita que o marido tenha sido assassinado por policiais (Folha de S. Paulo, 13/08/2006).

   Lindomar não pôde nem realizar o desejo de assistir à Copa do Mundo com o filho nos braços. Como a maioria dos brasileiros, gostava de futebol e tinha seu jogador preferido, Ronaldinho, mesmo nome que deu ao bebê. Pai também de uma menina de um ano e dez meses, Lindomar era louco para ter um filho homem. "No dia em que o Ronaldo nasceu, saiu pela rua mostrando o bebê para todo mundo", lembra a esposa. Ronaldo Gabriel nunca vai se lembrar do pai. Nem do seu rosto ou da sua voz. Tinha vinte dias quando o pai foi assassinado.

   Para manter a família, Lindomar trabalhou durante seis anos, vinte horas por dia, em dois empregos (de dia como cabeleireiro e à noite em uma lanchonete) e ainda chegava em casa com disposição para rolar pelo tapete com as crianças. "Não importava a hora, quando ele entrava, pegava a Samantha, de quase 2 anos, e brincava com ela sem parar. Era difícil separar os dois, eles passavam horas dando risada", lembrou a mulher da vítima. O apego era tanto que Maria teve de se mudar de casa e esconder as fotos do marido porque a menina perguntava pelo pai a todo instante. "Ela não entende o que aconteceu e não quero que sofra ainda mais”, lamenta a mulher pelos filhos terem de crescer sem a presença do pai (Folha de S. Paulo, 13/08/2006).

   Antes, Lindomar e Maria tinham sonhos e planos para melhorar a vida do casal e dar uma oportunidade melhor para os filhos.  O casal saiu de Solonópole, no sertão cearense, há dez anos, com a ilusão de prosperar na cidade grande. Tudo foi violentamente interrompido com a morte do marido. “O sonho da pizzaria estava perto de se realizar. Como vou criar meus filhos?”, pergunta Maria (IstoÉ, 27/05/2006).

   Sem nenhuma atenção do Estado, a esposa segue a vida como pode, para tentar criar os filhos. Para trabalhar como assistente de padeiro e ganhar R$ 400 no fim do mês, a viúva paga três crianças da vizinhança para olharem os filhos. "Como se não bastasse, não consegui vaga para meus meninos numa creche", lamentou Maria (IstoÉ, 27/05/2006). Do salão em que o marido tinha planejado montar a pizzaria dos sonhos e que agora está alugado, recebe apenas R$ 100,00. "Pago aluguel, água, luz, comida e o pessoal para tomar conta das crianças" (Folha de S. Paulo, 13/08/2006). “Estou desorientada”, emendou, ante a situação em que se encontra.

   Lindomar foi enterrado na cova 120, quadra 70, do Cemitério de Vila Formosa, zona norte de São Paulo. Junto com o corpo dele, enterraram também os sonhos e as esperanças de jovem trabalhador que desembarcou de um pau-de-arara na capital paulista em busca de uma vida melhor. Dez anos depois encontrou a morte como retribuição pelo suor de tantos anos derramado. Os disparos não vitimaram só o retirante. Dilaceraram a alma da sua companheira e talvez tenha selado o futuro dos filhos. 

Situação da investigação: Como não houve nenhum procedimento que indicasse a instauração de uma investigação, o caso foi apenas registrado em Boletim de Ocorrência pelos policiais. No mesmo dia, dezenas de boletins de ocorrências de mortes por arma de fogo foram lavrados e registrados nas delegacias de quase todo Estado de São Paulo. Cadáveres foram acumulados até pelos corredores do IML (Instituto Medico Legal) da cidade onde parentes de “desaparecidos” naquele dia mal puderam olhar para os corpos das vítimas, alguns reconheceram seus entes por fotografias que mostravam somente o rosto e mesmo assim afirmaram terem visto hematomas e até perfuração provocada por arma de fogo. O coveiro do cemitério de Vila Formosa declarou: “Enterrei 39 corpos num dia só em uma fileira”, referindo-se aos mortos sem identificação (Folha de S. Paulo, 13/08/2006). Chamou a atenção, entretanto, a quantidade de boletins de ocorrências encaminhada para o IML com os mesmos dizeres no campo referente à responsabilidade pelas mortes: “autoria desconhecida”, o que naquela altura já indicava que nenhuma investigação para apurar as circunstâncias e autoria seria feita. Dez dias depois da morte de Lindomar, pressionada pelas entidades de defesa dos direitos humanos e pelo Ministério Público, o Secretário de Segurança Pública  de São Paulo, Saulo de Castro Abreu Filho, autorizou, no dia 25 de maio de 2006, a liberação da lista oficial de mortos naquele período. Se Lindomar, porém, não constava na lista oficial, deve ter constado nas outras listas de mortos elaboradas pela Ouvidoria da Policia, pela Defensoria Pública, pela Comissão das entidades de defesa dos direitos humanos que acompanham as investigações e por este Observatório das Violências Policiais-SP (leia mais). Embora peritos do CRM (Conselho Regional de Medicina) e da UNICAMP (Universidade de Campinas) tenham afirmado, depois de analisarem boletins e laudos necroscópicos, que havia muitos casos que indicavam execução sumária, as investigações ainda não foram concluídas e os responsáveis sequer foram identificados, coroando mais uma vez a impunidade.

   Um ano depois do maio sangrento, a família de Lindomar vive hoje com grande dificuldade: a viúva trabalha fora ganhando um salário de R$ 580,00, que dá apenas para pagar outra pessoa para cuidar das crianças pequenas, que ela mal consegue ver. E ainda está devendo vários meses de aluguel. "Ficar sozinha no mundo, com dois filhos, sem saber o que fazer, é triste, muito triste. Você vê o seu filho pedindo alguma coisa e não tem pra dar. (...) Pensei que, se eu morresse, talvez meus filhos pegassem pensão. Trabalhei registrada e eles teriam direito. Às vezes pensava nisso. (...) Se sinto dor de cabeça, posso ir até o médico. Mas a dor não é na cabeça, no dente, é apenas no coração" (Diário de S. Paulo, 23/05/2007).

Fonte: Folha de S. Paulo, 13/08/2006; IstoÉ, 27/05/2006; Diário de S. Paulo, 23/05/07