Relato do caso: Era terça-feira de carnaval e os moradores da Favela São Remo, no Jaguaré (zona oeste de São Paulo), faziam o seu já tradicional "Carnaval do Ovo", realizado há pelo menos seis anos. A brincadeira mobilizava não só os moradores adultos, que colaboravam na compra, ou cedendo de suas casas, os materiais usados na brincadeira (ovos e muita farinha), mas divertia principalmente o bloco das crianças e adolescentes. Cerca de 400 foliões faziam a festa na rua, local onde as crianças escolhiam suas vítimas para quebrarem os ovos e lambuzá-las com farinha. A festa chamava a atenção pela aglomeração de foliões. Mas neste carnaval, a festa dos moradores terminou em desgraça. No meio dos foliões lambuzados de farinha e ovos quebrados, houve também sangue. Isso porque a alegria foi interrompida pela perigosa chegada de uma viatura da Polícia Militar, e depois mais outra. Mais tarde o comando do 16º Batalhão da Polícia Militar declarou que os policiais se dirigiram ao local "para atender à suposta ocorrência de desordem e arrastão na favela" (Folha de S. Paulo, 22/02/2007), já que festa de carnaval em favela só pode ser "desordem." Os foliões revidaram àquela desagradável presença gesticulando e jogando ovos em direção aos carros policiais, sem no entanto conseguir atingi-los (Agora, São Paulo, 22/02/2007). Irritados, os policiais resolveram efetuar alguns disparos de armas de fogo para o alto, pretendendo dispersar o "tumulto" (O Estado de S. Paulo, 22/02/2007), como depois um deles classificou os foliões armados com ovos e farinha. Um disparo efetuado por um soldado, lotado na 5ª Companhia do 16º BPM, com 19 anos de carreira, atingiu em cheio a testa da auxiliar de cozinha da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Maria Cícera Santos Portela. Cicinha, de 24 anos, assistia à festa da sacada da casa que dividia com a tia, situada em rua sem asfalto e com esgoto a céu aberto, porém chamada Avenida São Remo, nº 552, no bairro de Jaguaré. No momento em que foi baleada, a jovem estava com outras quatro amigas.
Maria
Aparecida dos Santos, de 41 anos, tia que morava com a jovem, comentava
depois:
"Eu
era a mãe e o pai dela (...) Ela era uma pessoa sorridente, alegre e
bastante prestativa.
(...) Eles [os policiais militares] já chegaram atirando.
(...) o policial atirou para cima, onde ela estava. Depois rodou a arma no
dedo. Ele quis acertá-la e ainda se recusou a socorrê-la" (Folha de S.
Paulo, 22/02/2007). Foi o que também contou uma das amigas que estava
com Cicinha na sacada:
"Eles
ficaram parados olhando nosso desespero" (Agora, São Paulo,
22/02/2007). No velório de Maria Cícera, realizado em 21 de fevereiro, em um bar da favela São Remo, cartazes traziam os dizeres "Que a justiça seja feita" (Agora, São Paulo, 22/02/2007). O enterro da jovem, no cemitério São Luís, em Santo Amaro, transformou-se em um protesto. Os moradores se mobilizaram e fretaram dois ônibus para dar o último adeus a jovem e pedir à justiça que os responsáveis não fiquem impunes. Sobre o caixão da jovem colocaram uma faixa que dizia: "Cicinha, sempre vamos te amar" (Folha de S. Paulo, 22/02/2007). Maria Cícera era de Alagoas e há cinco anos havia trocado o estado nordestino por São Paulo. O pai da jovem, que era filha única e solteira, mora em Pernambuco. Situação da investigação: Reconhecendo que tudo levava a crer que o disparo mortal teria sido de autoria de um determinado soldado, o tenente-coronel, comandante do 16º BPM tentava explicar: "ele falou que efetuou os disparos para se proteger" (Folha de S. Paulo, 22/02/2007). Para justificar a ida dos policiais militares à favela, disse que os soldados chegaram ao local para dissolver "um tumulto", "uma desordem" e que na volta contaram que assim que estacionaram o carro os moradores lançaram pedras e pedaços de pau contra a primeira viatura, e depois contra a segunda. "E o soldado acabou indo contra todas as orientações da Polícia Militar. Disparou tiros para o alto para afastar a população. Condenamos essa atitude" (Jornal da Tarde, São Paulo, 22/02/2007). Declarou ainda: "Nosso procedimento é usar a arma somente em último caso" (O Estado de S. Paulo, 22/02/2007). A perícia científica esteve no local do crime e recolheu para análise duas cápsulas de armas usadas pelos policiais militares. Após ser reconhecido por testemunhas, o soldado foi preso em flagrante e indiciado no 93º Distrito Policial por homicídio culposo, isto é, sem intenção de matar. Ou seja, ciente do risco que representa dar tiros para o alto em locais de grande aglomeração de pessoas e casas, o policial disse ter efetuado dois disparos para o alto, embora moradores tenham ouvido cinco (Folha de S. Paulo, 22/02/2007). Diante disso a autoridade encarregada do inquérito policial qualifica a autoria da morte como sendo sem intenção de matar, deixando de lado o risco voluntário que ele assumiu ao atirar. Mas não foi só na delegacia que a ação do policial foi tratado com benevolência. O comandante do 16º BPM, embora reconhecendo que "tudo leva a crer que o soldado foi o responsável pelos disparos" ponderou em seguida: "mas isso quem vai dizer são as provas periciais" (Folha de S. Paulo, 22/05/2007). Com facilidade que revoltou os moradores da Favela São Remo, o policial militar pagou a fiança de R$ 300,00 (trezentos reais) e saiu da prisão, apesar de seus superiores classificarem a ação como "precipitada" (Folha de S. Paulo, 22/02/2007). A arma do policial militar foi apreendida e encaminhada para perícia junto com as dos três outros, pois há suspeitas de que mais disparos foram efetuados. Passando a exercer função administrativa, os quatro policiais militares envolvidos na ação foram preventivamente afastados das ruas até a conclusão dos inquéritos das polícias Civil e Militar, que poderão determinar ou não a expulsão deles da corporação (Folha de S. Paulo, 22/02/2007).
Os
moradores da Favela São Remo e a comunidade da USP não esqueceram de Maria
Cícera. No dia 3 de março, um sábado, cerca de 500 pessoas participaram de
uma passeata para protestar contra a sua morte. A manifestação durou cerca
de 40 minutos, finalizados com um minuto de silêncio diante do quartel do
16º BPM, e pediu paz e justiça.
"Só
queremos paz e justiça, não guerra. O policial está livre depois de pagar
uma fiança de R$ 300. Isso é imoral, indigno e ilegal", disse uma prima de
Maria Cícera. Sua tia, que era como se fosse mãe e pai, Maria Aparecida,
declarou: "Espero que ninguém passe pelo que eu estou passando. Ela era
minha única filha e só eu sei o que estou sofrendo. Queremos paz e
justiça. O policial tem de pagar pelo que fez e este é justamente o motivo
da passeata" (Jornal da Tarde, São Paulo, 04/03/2007). |
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