Data:
3 de maio de 2006
Local:
Rua
Antonio Joaquim de Alvarenga, Jardim Satélite, zona sul de São José dos
Campos (interior do Estado de São Paulo)
Vítima:
Moises Philippe de
Souza, 17 anos
Agentes
do Estado:
policiais militares do
46º BPM-I
(Batalhão da Polícia Militar do Interior)
Relato
do caso:
Na noite do dia 3 de maio de 2006, policiais
militares do 46º Batalhão da Polícia Militar do Interior foram chamados a
atender, em São José dos Campos, interior do Estado de São Paulo, a
ocorrência de uma tentativa de assalto a um funcionário das Casas Bahia
que estava no estacionamento da loja com sua moto. Dois homens
supostamente armados foram responsabilizados pela tentativa de assalto,
porém teriam desistido e fugido a pé. Ou seja, o assalto não se
concretizou.
Os policiais, então, iniciaram uma patrulha
pelas imediações na certeza de que encontrariam os dois homens. Com tal
certeza, viram dois homens “com características semelhantes” àquelas
descritas no assalto frustrado, caminhando, por volta das 21h30, na rua
Antonio Joaquim de Alvarenga, no Jardim Satélite, zona sul de São José dos
Campos. O adolescente Moises Philippe de Souza, de 17 anos, era um deles.
Na versão da polícia, ao serem vistos, os dois homens sacaram as armas e
atiraram contra a viatura. Ninguém melhor do que o superior dos policiais
militares envolvidos, devidamente informado da ocorrência, para descrever
então a forma da abordagem feita por seus subordinados aos tais dois
homens: "Os policiais desembarcaram e um deles atirou contra o
Moises [acertou a cabeça do menor]”, disse o comandante interino do 46º
BPM-I, acrescentando: “Já o outro fugiu,
fizemos um cerco mas não conseguimos pegá-lo”. A referida autoridade
salientou no seu depoimento publicado na imprensa local que “uma viatura
socorreu o Moises, que não resistiu" (Vale do Paraíba, 05/05/2006).
É de se destacar a quantidade de socorridos em viaturas que morrem antes
de chegar ao hospital, uma história padrão que não permite que a cena do
suposto confronto seja analisada por uma polícia científica, comprovando,
ou não, o confronto.
Certo é que o grau de letalidade das polícias,
sobretudo a militar, no Brasil, é escandalosamente alto, conforme atestam
inúmeros relatórios de entidades nacionais e internacionais de defesa dos
direitos humanos que monitoram ações policiais no país, em conjunto com o
poder público ou contribuindo com ele nesta tarefa. Embora se tenha feito
muitos esforços para denunciar casos de execuções sumárias cometidas por
agentes do Estado - e aqui se destaca o papel da sociedade civil
organizada - raramente se têm notícias de que agentes públicos autores de
crimes que violam os direitos humanos, no exercício das suas funções ou
beneficiando-se delas, tenham sido responsabilizados administrativamente e
depois legalmente. Para que isso venha acontecer será preciso que o
corporativismo que contamina as instâncias administrativas das polícias
seja derrotado e que o Poder Judiciário supere a insuficiência de ações
punitivas exemplares contra agentes do Estado que cometem crimes. Salvo em
raras exceções, a maioria dos casos vai parar na vala comum da impunidade.
A morte do adolescente Moises Philippe de
Souza, de 17 anos, executado com um tiro na cabeça por um policial militar
pertencente ao 46º Batalhão da Polícia Militar do Interior, em São José
dos Campos, a menos de dez dias do início da primeira onda de violência
protagonizada pelo PCC, à qual as polícias de São Paulo responderam com um
banho de sangue de execuções sumárias de “suspeitos” e inocentes, já
demonstrava o alto grau de letalidade em simples abordagens policiais.
Situação da investigação:
As armas dos policiais militares envolvidos na ocorrência foram
apreendidas para exame de praxe e um Inquérito Policial Militar (IMP), foi
instaurado. A imprensa local não disse o quê ou quem seria investigado,
uma vez que noticiou que houve uma “troca de tiros” e “tiros disparados
contra a viatura”, o que no mínimo sugeriria a tão escassa perícia em
momentos tão cruciais deste ofício. Por enquanto, o que ficou foi a velha
versão de resistência seguida de morte.
Fonte: Vale Paraibano, S. José
dos Campos, 05/05/2006