EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Dois rapazes, de 17 e de 19 anos, acusados de terem tido a intenção da atacar bases da PM a mando do PCC, são executados por policiais militares na zona leste de São Paulo, em confronto em que as balas só saem de um lado

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 Data: 15 de maio de 2006
Local:
zona leste de São Paulo
Vítima: Paulo Ricart do Vale, de 17 anos e Jonathan Roberto Farias, de 19 anos
Agentes do Estado
: policiais militares não identificados

Relato do caso: Na segunda-feira, dia 15 de maio de 2006 – dia de maior tensão após o início dos ataques do PCC a alvos do aparelho do Estado - Paulo Ricart do Vale, de apenas 17 anos, saiu de casa com a namorada, no bairro pobre de Engenheiro Goulart, na zona leste de São Paulo, por volta das 9 horas da manhã, muito à vontade, calçado apenas com chinelos, sem nem se preocupar em levar documentos. Atento à preocupação da família, o adolescente ligou para o celular da irmã no meio da tarde avisando que voltaria logo. Mas isso não aconteceu.

   Na manhã seguinte, a notícia da morte de Paulo por policiais militares mudou a rotina de toda a família, deixando-a totalmente desamparada. "De pobre que sou, fiquei ainda mais pobre. Tiraram um pedaço de mim. Estou há 40 anos em São Paulo. É só sofrimento" (Folha de S. Paulo, 18/05/2006), desabafou o cozinheiro Antônio Ricardo do Vale, de 48 anos, pai do adolescente, que sustenta a família com R$ 500,00 mensais. Junto com Paulo, que “levou tiros no tórax e teve ferimentos no rosto” (Folha de S. Paulo, 18/05/2006), morreu também Jonathan Roberto Farias, de 19 anos.

   Na versão da polícia os dois seriam do PCC e estariam se preparando para atacar duas bases da PM, em São Miguel e em Vila Santa Terezinha. O ataque, portanto, ficou no “preparo”. Foram mortos porque, segundo ainda a versão policial, “resistiram à abordagem” (Folha de S. Paulo, 18/05/2006). Resistiram como? Paulo estaria portando uma arma de numeração raspada e Jonathan teria um revolver. Porém, ao serem apresentadas as duas armas estavam intactas.

   Para justificar a execução os policiais militares alegaram que os dois rapazes teriam apontado as armas para eles, o que teria motivado a reação. Apontaram, mas não dispararam, foram executados antes. Inconformado, o irmão mais velho da vítima rebateu a versão dos policiais militares envolvidos na ação. “Eles dizem que houve resistência, mas as duas armas supostamente encontradas com eles estavam intactas, nenhum projétil deflagrado”. E mais: “Dizem que eles iriam atacar uma das bases da PM às 4 horas e eles foram mortos às 5 horas, sem nenhum ataque registrado. Nada bate”, acrescentou o rapaz (Folha On-line, 18/05/2006). Ainda para justificar a execução os policiais disseram que no hospital uma enfermeira teria encontrado na meia de Paulo um bilhete do PCC no qual se ordenava um ataque. Mais uma vez, o irmão da vítima contesta a versão dos policiais militares, ressaltando que “ele [Paulo] saiu de casa de chinelos” (Folha On-line, 18/05/2006), e sendo assim, não poderia vestir meia depois de morto a menos que alguém a calçasse. O pai, estarrecido com a acusação, também contesta a versão dos policiais dizendo que o “filho nunca roubou nada e nunca pegou em uma arma. Nossa família é pobre, mas é honesta. Ele nunca chegou com dinheiro em casa. A polícia está forjando essa história de ligação com o PCC” (Folha de S. Paulo, 18/05/2006).

   No hospital de Ermelino Matarazzo, na zona leste, prevalecia a angústia da espera pela liberação do corpo que não foi visto pelos parentes que aguardavam do lado de fora. “Eles não nos deixaram chegar perto do corpo e não tivemos acesso ao B.O.” (Folha On-line, 18/05/2006), contou o irmão da vítima.

   No mesmo momento em que o corpo do adolescente saía do hospital rumo ao IML (Instituto Medico Legal), por volta das 15h30 do dia 16 de maio de 2006, a mãe do adolescente, internada há um mês naquele hospital devido um derrame cerebral, recebia alta. Já em casa, teve que viver outro drama: sem poder andar, sem falar e usando sonda para se alimentar, a mãe passou o dia agitada, chorando e fazendo muita força para tentar dizer o nome do filho morto. À sua volta, como se já não bastasse a perda do filho, o cenário era desolador: a família vivia com grandes dificuldades, tanto assim que se via uma geladeira que não funcionava, armários sem portas e um banheiro sem descarga.

   Um mês antes, Paulo havia tido uma passagem pelo Conselho Tutelar da região por portar a droga que consumia. Na agenda do Conselho ainda constava que, se estivesse vivo, o adolescente se apresentaria para assistir a uma palestra e acertar o cumprimento da medida sócio-educativa, qual seja, prestação de serviço à comunidade e pagamento de cesta básica. O pai ainda lembra do arrependimento do filho no dia que antecedeu a sua morte. “No domingo ele se ajoelhou diante de mim e disse que nunca mais iria me dar trabalho. Era um garoto obediente, o mais amoroso dos filhos” (Folha de S. Paulo, 18/05/2006).

   No cemitério da Vila Formosa, na zona leste, cerca de 150 pessoas, entre familiares e amigos, se reuniram no dia 17 de maio de 2006, para o enterro de Paulo. A matéria da Folha de S. Paulo, em sua versão impressa de 18 de maio de 2006, afirmava ter-se ouvido de várias pessoas presentes na cerimônia que “o garoto era educado, estudava, cuidava da mãe doente”. Opinião semelhante foi relatada por outras 15 pessoas entrevistadas, a maioria vizinha da família. Uma delas é a do médico Alcides Silva que conhece a família há pelo menos 20 anos e que ficou chocado com a morte do adolescente. “Vi esses meninos crescerem. É gente honesta, trabalhadora, que leva uma vida miserável. Essa ligação do Paulo com o PCC me parece absurda”.

Situação da investigação: Não se sabe porque nenhuma informação foi dada a respeito da morte de Jonathan. Absolutamente nada foi noticiado e tampouco alguém ou algum parente foi ouvido, como se a morte do rapaz não tivesse acontecido. Questionada sobre a morte dos adolescentes e se ela seria investigada, a assessoria da Secretaria da Segurança Pública informou apenas que o delegado responsável já havia solicitado uma “série de exames”, entre eles o residuográfico, que poderá atestar “se houve abuso da polícia”. A Secretaria assegura ainda que o fato de as armas estarem intactas não inviabiliza a versão dos policiais de que houve resistência dos rapazes. E, para finalizar, limitou-se a recomendar que a família de Paulo procurasse a Ouvidoria da Polícia e registrasse a queixa para que seja investigada.

Fontes: Folha de S. Paulo, 18/05/2006; Folha On-line, 18/05/2006