Data:
29 de setembro de
2005
Local:
Bairro de Morumbi, Piracicaba (interior do Estado de São
Paulo)
Vítimas:
Rafael Basílio, 22
anos
Agente
do Estado:
um investigador da Policial Civil
Relato
do caso:
No dia 29 de setembro de 2005, por volta das 19h30, o
lavador de carros Rafael Basílio, de 22 anos, supostamente levado por um
parceiro até hoje não identificado, em uma moto Honda Falcon de cor
escura, teria se lançado à sorte numa tentativa de assalto a um casal em
um posto de gasolina no bairro de Morumbi, em Piracicaba, no interior do
Estado São Paulo.
Os dois teriam abordado um casal de Capivari, ele de 32
anos e ela de 27 anos, que se encontrava no interior do veículo da marca
Astra Hatch, parado em um posto de gasolina. Segundo o rapaz do casal, o
“assaltante”, que estava de capacete, o teria ameaçado com uma arma Taurus
calibre 38 e, na seqüência, obrigado-o a sair do seu veículo. Rafael
estaria interessado em dinheiro. O rapaz do casal afirmou que Rafael
parecia estar sob o efeito de drogas, seu nervosismo era visível, embora
não apontasse a arma para o casal. "Ele apontava a arma para o chão e não
parava de repetir que queria dinheiro". Prossegue o rapaz: “Ele disse que
queria dinheiro. Eu passei o meu celular, R$ 59 e uma corrente. Na hora em
que eu ia passar o meu relógio, o policial deu a voz de prisão”.
O investigador da Policia Civil que estava em horário de folga, supostamente
jantando com a família, sem citar onde, afirmou que teria percebido que se
tratava de um assalto quando ouviu – e não viu! - Rafael batendo,
aleatoriamente, com a arma no capô do carro do casal. E quase que
cinematograficamente, o policial descreve os passos do que viria a ser uma
morte anunciada: "Imediatamente eu evacuei a área e dei a voz de prisão."
O que o policial não explicou é como evacuou a área sem chamar a atenção
do casal, de Rafael e de seu parceiro que, pelos relatos do policial e do
rapaz do casal, ficou em segundo plano e depois desapareceu (é de se
perguntar se este parceiro de fato existiu).
Mas o relato do policial, curiosamente reforçado pelo
testemunho do rapaz do casal, muito se aproxima de um roteiro de filme de
ação: ao ouvir a ordem para largar a arma, Rafael teria disparado na
direção do policial, que estava protegido atrás de uma pilastra, não sendo
atingido, nem ele, nem a pilastra, nem qualquer outro obstáculo à sua
frente. O policial, então, entrou em ação: "Na seqüência eu dei um tiro
nele, que atingiu no peito. Mesmo ferido, ele correu para fora do posto.
Quando ele olhou para trás e fez menção que atiraria novamente, eu dei os
outros tiros". O policial fez no total quatro disparos que atingiram
Rafael: o primeiro no peito, os demais na região torácica, pescoço e
cabeça; todos tiros considerados fatais por especialistas, ou seja,
efetuados por quem tem certeza de que quer abater o alvo.
Para o policial, seus disparos foram em legítima defesa e
“estrito cumprimento do dever legal”. Será? As normas das polícias que o
digam: em tese, o policial, que também deve cumprir a lei, deveria, entre
outros, procurar isolar, imobilizar e deter o transgressor da lei e não
executá-lo, como usualmente ocorre em situações que exigem o mínimo de
preparo da polícia. E mais, por estar sozinho, em horário de folga,
deveria o policial ter acionado a delegacia de polícia e não se
aventurado.
O caso ora relatado deixa dúvidas inquietantes. Ora, se
Rafael, gravemente baleado no peito, correu para fora do posto, isto é, de
costas para o policial armado que o baleou, é porque não pretendia
resistir e sim fugir. Se pretendesse resistir não se colocaria de costas.
Portanto o ato de fazer “menção que atiraria novamente” é inconsistente na
história. Além do mais, é sabido por todos da gravidade de se levar um
tiro no peito, que na maioria dos casos, mesmo com pronto atendimento,
chega a ser fatal. Rafael com certeza não seria exceção. O policial,
então, chamou o resgate, mas Rafael, gravemente baleado com quatro tiros
em regiões críticas, evidentemente não resistiu e morreu no local.
Sem saber muito o que dizer e abalada com a morte do irmão,
a irmã de Rafael, comerciante, afirmou desconhecer o envolvimento do irmão
em assaltos ou em qualquer outro tipo de crime. “Eu sabia das prisões dele
por porte ilegal de arma, mas jamais fiquei sabendo de qualquer
envolvimento com crimes mais pesados", disse. Mas afirmou ter pouco
contato com o irmão, que morava em outro bairro, chamado Vila Monteiro.
"Ele vivia com a minha mãe e eu só o via uma vez por semana", disse. "Não
conhecia as amizades dele. Ele freqüentava muito a avenida Carlos Botelho
e, como qualquer jovem da sua idade, tinha muitos contatos. Não sei quem é
esse parceiro dele", disse, sem nem saber se de fato havia um parceiro.
Apesar da dor pela morte do irmão e sem nem saber se haverá
investigação para apurar as circunstâncias em que ela se deu, a
comerciante disse que não está atribuindo culpa ao policial pelos quatro
disparos que abateram Rafael. "Se ele estava mesmo assaltando, a polícia
cumpriu seu papel". Mal sabe ela que, com sua fala ingênua e resignada,
reflete o senso comum predominante em uma grande parte da população
brasileira de que “bandido bom é bandido morto”. Ou seja, a defesa da pena
de morte ilegal e extra-judicial. O enterro de Rafael foi realizado na
tarde do dia 30 de setembro de 2005, no Cemitério da Vila Rezende.
Situação da investigação: Para o delegado do 6º Distrito Policial (DP), responsável pelo inquérito policial, não foi
necessário apurar as circunstâncias da morte de Rafael, pois para ele
ficou caracterizado que o investigador fez os quatro disparos para se
defender, mesmo estando ciente de que Rafael atirou uma única vez, foi
gravemente baleado no peito e depois levou mais três tiros do policial. O
único inquérito, então, a ser aberto seria para apurar a identidade do tal
parceiro de Rafael que inicialmente o teria transportado até o posto e
fugido durante a ação.
Segundo o delegado da Delegacia de
Investigações Gerais (DIG), Rafael teria três passagens anteriores pela
polícia, duas por porte ilegal de arma e uma recente por roubo. Detido
pela suposta autoria de um assalto em uma Casa de Frios, Rafael ficou em
averiguação por cerca de um mês em um Centro de Detenção Provisória (CDP)
e havia sido liberado há dez dias.
Fonte: Jornal de Piracicaba, 01/10/2005