EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Rapaz é assassinado com sete tiros disparados por seis homens reconhecidos como policiais militares disfarçados e encapuzados, saídos de uma viatura da Força Tática, no Jardim Filhos da Terra, Jaçanã (zona norte de São Paulo)

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 Data: 15 de maio de 2006
Local:
Jaçanã, Jardim Filhos da Terra (zona norte de São Paulo)
Vítima: Ricardo Flausino, de 22 anos
Agentes do Estado
: seis policiais militares encapuzados e com a farda oculta por blusões pretos, saídos da viatura da Força Tática, número M-3074

Relato do caso: Eram 22 horas do dia 15 de maio de 2006 quando uma moradora do Conjunto Habitacional Filhos da Terra, localizado no Jaçanã (zona norte de São Paulo), olhava da janela do seu apartamento a filha que voltava a pé do trabalho. Nesse momento chegava uma viatura da Força Tática, número M-3074, com policiais militares com a farda oculta por blusões pretos e encapuzados (Folha de S. Paulo, 17/05/2006), que tomaram as ruas do bairro. A moradora contou que gritou primeiro para os homens armados se afastarem e, depois, para que sua filha se abaixasse. “Ela conseguiu se esconder ali, embaixo daquela escada e, depois, correu para casa”, disse ela aliviada (Folha de S. Paulo, 17/05/2006).

Cerca meia hora depois, Ricardo Flausino, de 22 anos, que esperava sentado pela noiva, como sempre fazia, no alto da escadaria que sobe da Avenida Antonello da Messina para o conjunto habitacional, para acompanhá-la à casa, não teve a mesma chance. Encostou perto dele o mesmo veículo da Polícia Militar e dele desceram pelo menos seis homens encapuzados e com a farda oculta pelos blusões pretos e, sem dizerem uma única palavra, dispararam vários tiros contra Ricardo, quando este ainda estava sentado e de costas, atingindo-o gravemente.

Baleado com sete tiros (quatro na cabeça e três nas costas – Laudo nº 2569/06), e inconsciente devido aos graves ferimentos, o corpo do rapaz ainda foi jogado de bruços no mato e só depois os policiais militares encapuzados começaram a se  afastar. Atento ao que estava se passando no local, um morador, de dentro de um dos apartamentos, gritou: “Tem um cara caído no escadão”. Um jovem que ouviu a indicação do morador se aproximou para ver quem era, virou o corpo e o identificou na hora: “É o Ricardo”, gritou. O jovem então foi abordado por um dos policiais encapuzados que disse a ele: “Que é que você aprontou?” Preocupados com o reconhecimento da vítima pelos moradores e por terem sido vistos, os policiais encapuzados deram início à fuga do local, depois de intimidar os moradores e as testemunhas, efetuando vários disparos a esmo em direção ao conjunto habitacional (Folha de S. Paulo, 17/05/2006). Uma moradora contou o que viu naquele momento. “Depois de matar Ricardo, os policiais entraram aqui atirando que nem loucos. Olha os buracos de bala aqui”, disse, apontando para perfurações recentes nas paredes dos apartamentos. “Foi terror. Tinha uns dez meninos na rua, que podiam ter morrido também”, complementou a mulher (Folha de S. Paulo, 17/05/23006).

Seguidos pela visão dos poucos moradores que se arriscavam a observar das janelas o que estava acontecendo, os policiais militares foram ainda flagrados por eles se desfazendo dos capuzes e dos blusões pretos. “Eles estavam meio escondidos atrás daquele prédio ali”, apontou o morador. Na tentativa de confundir moradores e testemunhas do crime, os policiais, então, se apresentaram à vizinhança, oferecendo ajuda para levar o rapaz baleado ao hospital. Foi nesse momento que a mãe de Ricardo chegou e viu o filho ferido e inconsciente. “Não vi quem atirou, não sei de nada. A única coisa que posso dizer é que pedi para ir junto com o meu filho para o hospital São Luiz Gonzaga, no Jaçanã, mas os policiais não deixaram”, lamentou a mãe do rapaz (Folha de S. Paulo, 17/05/2006).

Indignado com a ação dos policiais militares, um morador que foi até o local ver o que tinha acontecido, criticou o socorro prestado pelos policiais. “Eles o arrastaram como um bicho e o jogaram na viatura”, disse irritado (Folha de S. Paulo, 17/05/2006). Pouco mais de três horas após o crime, às 2 horas da manhã, já no hospital, foi o irmão da noiva de Ricardo quem se aproximou da mãe do rapaz para dar a notícia. “Ele chegou em mim e falou que meu filho não estava mais... Que tinha falecido”, lembra com tristeza, a mãe de Ricardo, do momento em que recebeu a notícia da morte do filho (Folha de S. Paulo, 17/05/2006). A domestica de 67 anos, moradora do bairro e que conhecia o rapaz, também recebeu com muita tristeza a notícia. “Mataram um garoto amado por todos aqui”, lamentou (Folha de S. Paulo, 17/05/2006).

Mas se dependesse dos moradores do Jardim Filhos da Terra, a morte de Ricardo não iria passar desapercebida. Revoltados com a ação dos policiais militares, alguns moradores decidiram fazer da morte de Ricardo um motivo de protesto no bairro. No dia seguinte, 16 de maio de 2006, por volta das 15 horas, quando a cidade de São Paulo ainda estava atônita com o impacto das ações do PCC contra as polícias e das rebeliões em mais de 80 presídios, que deu ensejo ao “toque de recolher” espontâneo no dia anterior, transmitido e potencializado pela demagogia dos meios de comunicação, cerca de 300 moradores do bairro deram início ao protesto. Uns garotos juntaram um sofá e pneus velhos e os incendiaram no meio da rua. Outros garotos logo se juntaram a eles e seguiram todos para uma praça próxima dali, local onde fica o ponto final do ônibus Jardim Filhos da Terra. Viram um ônibus e o pararam. Já no seu interior, alguns deles pediram aos poucos passageiros que descessem do veículo: “Isso é um protesto” diziam os garotos. Do lado de fora, somavam outros cinqüenta munidos de pedras nas mãos e, quando o veículo já se encontrava totalmente vazio, os garotos passaram a apedrejá-lo. Quando os vidros já tinham sido todos estilhaçados, alguns deles entraram no veículo e espalharam álcool em todo seu interior e em seguida atearam fogo. Ninguém ficou ferido.

Acionado, o corpo de bombeiros conseguiu apagar o fogo do que restou do ônibus. Já os policiais militares, ocuparam-se em reprimir o protesto dos moradores. Estes, por sua vez, procuraram se proteger no conjunto habitacional próximo dali. Nesse momento, os manifestantes perceberam que cinegrafistas de uma emissora de TV filmavam de um helicóptero toda a movimentação no local e então quiseram ampliar seu protesto escrevendo no asfalto, em letras de mais de um metro, para que fosse filmado: “Assassinos de farda. Reportagem já” (Folha de S. Paulo, 17/05/2006). Além da revolta com aquilo que havia motivado o protesto, os manifestantes ficaram indignados ao se verem criminalizados, pois o protesto foi apresentado na reportagem da TV como sendo de partidários do PCC. Um morador, furioso com as distorções feitas, reagiu dizendo que o protesto foi para denunciar a tragédia causada pelos policiais. “Nós não somos criminosos. Também não temos nada a ver com a facção. Tudo o que a gente quer é denunciar essa tragédia que a policia causou”, declarou (Folha de S. Paulo, 17/05/2006). Durante o protesto, três garotos acabaram sendo detidos pelos policiais, mas foram logo depois liberados.

Amigos de Ricardo lembram que ele gostava de encontrá-los para jogar bola no bairro pobre onde moram. Contam que o amigo parou de freqüentar as partidas quando arrumou um emprego de motorista em uma fábrica de bolsas. Mas o rapaz pretendia voltar aos esportes depois de cursar educação física. Naquele momento, por força de um compromisso maior, ele precisava trabalhar. O objetivo era economizar para o casamento com a noiva, também ela moradora do Jardim Filhos da Terra, marcado para o dia 8 de julho de 2006, na Igreja Nossa Senhora da Candelária, na zona norte. Pagavam as despesas já há sete meses e tinham distribuído 250 convites para parentes e amigos. Se estivesse vivo, no dia seguinte à sua morte, o rapaz assinaria o contrato da casa em que pretendia iniciar a nova família.

A noiva, ainda muito abalada com a morte de Ricardo, lembra que faltavam apenas três semanas para a festa deles e agora se lamentava ao contemplar o anular esquerdo com duas grossas alianças ajustadas nele. Tudo teve de ser dolorosamente desmarcado e os sonhos desfeitos. Da futura família que pretendiam iniciar, restaram apenas os planos do casal nas lembranças da jovem. “Tínhamos até o nome dos filhos escolhidos”, lembra a moça dizendo ainda que junto com o noivo, dedicava as horas vagas para comprar as peças do enxoval. Inconformados com a mudança dos planos, parentes e amigos se reuniram no cemitério onde foi enterrado o rapaz para se despedir diante de uma lápide com a singela inscrição: “Aqui jaz Ricardo Flausino”. A mãe do rapaz fez um único pedido. “Só quero justiça”, disse com firmeza (Isto É, 27/05/2006).

Situação da investigação: Ricardo Flausino foi assassinado com vários tiros na cabeça e nas costas, no bairro onde morava, no dia mais intenso da onda de violência deflagrada pelo ataque do crime organizado às forças policiais que havia paralisado a cidade de São Paulo. A partir desse dia começaram as mortes executadas pelas polícias e por encapuzados, às vezes policiais mal disfarçados, como neste caso. A essa altura já se falava por toda imprensa de vingança por parte de policiais em resposta aos ataques sofridos pelas corporações. Para se ter uma idéia do que foi a dimensão da violência registrada naquele dia, Carlos, o coveiro do cemitério de Vila Formosa, localizado zona norte, deu os números. “Enterrei 39 corpos num só dia, em uma fileira. Todos sem identificação”, disse (Isto É, 27/05/2006).

Nesse contexto, nenhuma palavra sequer de indícios de investigação sobre o assassinato do rapaz foi publicada nas fontes da imprensa. Não seria por falta de colaboração dos moradores do bairro e testemunhas do crime. Uma moradora afirmou ter recolhido cápsulas deflagradas de pistolas ponto 40 e 9 milímetros e entregues à polícia (Folha de S. Paulo, 17/05/2006). Os repórteres do jornal Folha de S. Paulo, em matéria publicada em sua edição do dia 17/05/2006, contam como foram recebidos pelos moradores, o que mostra o quanto eles teriam a declarar sobre a morte de Ricardo: “A sala da casa de um morador é aberta para a reportagem com solenidade. Tem o cheiro acre de um açougue. De um saco jogado no chão, quatro amigos tiram um casaco vermelho e branco e uma camiseta vermelha ainda encharcada de sangue. Mostram três buracos no capuz e três nas costas. Lá fora [da casa], outros cinqüenta e cinco moradores do bairro esperam para contar como morreu Ricardo Flausino”. Apesar da desconfiança com que são tratados pelos órgãos de Segurança Pública pelo fato de serem pobres, os moradores afirmam que os encapuzados eram policiais militares. “Foram os policiais”, dizem em coro (Isto É, 27/05/2006).

Posteriormente o caso da morte de Ricardo Flausino foi incorporado às listas de mortos das entidades de direitos humanos e das elaboradas pela Ouvidoria da Polícia de São Paulo e pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo. É objeto de Boletim de Ocorrência 3627 do 73º DP (Jaçanã).

Fontes: Folha de S. Paulo, 17/05/2006; Folha On-line, 17/05/2006; Isto É, 27/05/2006; Todo Dia (Americana), 21/05/2006; Jornal de Piracicaba, 21/05/2006; “Casos acompanhados pela Ouvidoria da Polícia”; “Defensoria Pública do Estado de São Paulo – Grupo Especial de Trabalho – Relatório Descritivo dos Rascunhos de Laudos”; “Lista de Mortos por Policiais e Encapuzados (de 12 a 31/5/06)”, por OVP-SP (leia mais).