EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Adolescente de 16 anos – estudante e trabalhador - foi executado no Parque Santo Antonio (zona sul de São Paulo) por dois homens usando toucas ninja, que testemunhas afirmam terem saído de um carro policial

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 Data: 15 de maio de 2006
Local:
Parque Santo Antonio (zona sul de São Paulo)
Vítima: Ricardo Vendranelli, de 16 anos
Agentes
: dois homens, encapuzados com toucas ninjas, que saíram de um carro policial

Relato do caso: Já passava da meia noite, portanto madrugada da segunda-feira, dia 15 de maio de 2006, dia que ficaria marcado como o de maior violência da resposta policial aos ataques do PCC iniciados no dia 13 de maio, quando o adolescente Ricardo Vendranelli, de apenas 16 anos, foi  alvejado mortalmente com tiros nas costas e na perna.

   Ricardo trabalhava como entregador de pizzas e ao deixar o trabalho à noite, ao invés de ir para casa diretamente, passou na casa da namorada para vê-la. Ao voltar, parou na esquina de sua casa  - localizada no Parque Santo Antonio (zona sul de São Paulo) - para trocar algumas palavras com um colega. Nesse momento dois homens, usando toucas ninja, chegaram atirando e balearam o rapaz.

   O colega que conversava com ele, por sorte, conseguiu escapar sem nenhum ferimento. Já o adolescente morreu no local. Conforme o jornal Folha de S. Paulo as “testemunhas disseram que os assassinos saíram de um carro policial” (16/05/2006).

   Ricardo, que nos finais de semana, à noite, fazia entrega de pizza, e estudava em uma escola estadual no próprio bairro, não tinha nenhum antecedente, nem passagem pela FEBEM (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor) e nenhum histórico de envolvimento com drogas, descartando-se portanto qualquer possibilidade de sua morte ser atribuída a simples acerto de contas. O pai do adolescente, um encanador de 49 anos, conta que ainda tentou alertá-lo sobre o perigo de andar nas ruas naquele dia, por conta da onda de violência ocorrida no mesmo fim de semana. “Antes de sair para o trabalho, eu falei para ele voltar logo para casa porque a situação estava perigosa por causa dos ataques aos policiais. Ele me respondeu: É pai, o bicho tá pegando” (Folha de S. Paulo, 16/05/2006). Foram as últimas palavras que o pai ouviu do filho. Depois disso, continua  ele dizendo “só vi meu filho morto, com um tiro nas costas” (Folha de S. Paulo, 16/05/2006).

   Como acontece em todos os casos de mortes executadas por policiais, a cena do crime foi desarranjada e corpo do adolescente foi levado para morrer oficialmente no hospital do Campo Limpo. Lá, o pai do adolescente mostrava todo o seu inconformismo: “Pegaram meu garoto pelas costas, uma covardia. Estava dormindo com minha mulher, quando ouvi os tiros. Nunca imaginei que a vítima era o meu garoto. Só soube quando uns ‘irmãos’ da igreja [evangélica] veio nos avisar”, (Folha de S. Paulo, 16/05/2006).

   Abalado e como se precisasse de uma justificativa que fizesse mais ou menos algum sentido para a morte do filho, o pai da vítima tentou interpretar a execução como uma fatalidade: o adolescente, para ele estaria “na hora errada e no lugar errado” (Folha de S. Paulo, 16/05/2006). O fato é que nem ele poderia imaginar que o filho corresse risco de morte na esquina da própria casa. Um outro familiar, mais irado, foi categórico embora tivesse preferido não se identificar: “A gente paga a polícia para nos proteger e a mesma polícia mata os nossos filhos” (Folha de S. Paulo, 16/05/2006).

   A família ficou reunida numa espera angustiante por mais de vinte horas no IML (Instituto Médico Legal), até que finalmente a liberação do corpo fosse autorizada.

Situação da investigação: O jornal Folha de S. Paulo, na sua edição do dia 16 de maio de 2006, noticiou apenas que “a PM informou que não recebeu denúncia referente aos casos, registrados como homicídios simples, e que, se recebê-la, vai ‘tomar as providências necessárias’, para a investigação”. Mais uma vez, nem sinal da perícia, nem da placa do carro policial do qual testemunhas disseram terem visto os assassinos saírem, nem sequer se soube do calibre das balas que atingiram e tiraram a vida do adolescente.

Fonte: Folha de S. Paulo, 16/05/2006