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EXECUÇÕES
SUMÁRIAS
Corregedoria
da Polícia Militar reconhece que dois policiais militares mataram
auxiliar de limpeza“por engano”, em Itaquera (zona leste de
São Paulo) |
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Data:12
de abril de 2006
Local:
Rua
Bignônia, altura do nº 109, Itaquera (zona leste de São Paulo)
Vítima:
Rogério dos Santos Dias, de 33 anos
Agente do Estado:
um
cabo e
um soldado, ambos lotados no 39º Batalhão da Polícia Militar
Relato do caso:
A propósito da
morte do auxiliar de limpeza negro Rogério dos Santos Dias, de 33 anos,
por dois policiais militares, o capitão porta-voz da Corregedoria da
Polícia Militar declarou:
"Ele
não era marginal nem foi morto em uma execução. Foi atingido porque viu os
marginais correndo em direção à entrada da viela e correu. Foi uma triste
coincidência"
(Jornal
da Tarde, 14/04/2006; Vale Paraibano, 14/04/2006).
Ao dar tal
declaração o porta-voz da Corregedoria reconhece implicitamente que
existem execuções sumárias de infratores da lei, tratando-se apenas, no
caso, de um erro de pessoa, de um engano, pois o atingido não era um
infrator, e sim um trabalhador, auxiliar de limpeza no Hospital
Samaritano, que nunca havia usado arma.
Na noite de 12 de abril de 2006, por volta das 20h40, dois policiais da
ROCAM (Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas), lotados no 39º
Batalhão da Polícia Militar, perseguiam três rapazes, suspeitos de um
furto de carro, o Escort em que estavam, na rua Mairiporã (zona leste de
São Paulo), embora não houvesse queixa de
roubo. Por sua vez, Rogério havia jantado na casa da sogra, ali perto, em
seguida tinha pego seu carro Fox, recém comprado, e ido com o filho, de 10
anos, buscar a esposa, auxiliar de enfermagem no Hospital Nove de Julho,
na Estação Itaquera do Metrô. No mesmo momento em que a família voltava,
chegou à rua Bignônia, na Cidade A. E. Carvalho, o Escort perseguido pelos
policiais, que bateu a roda na guia e parou. Os rapazes saíram do carro e
fugiram a pé, pulando um muro e entrando em um terreno baldio que tinha um
matagal. Nesse momento Rogério, que estava saindo do carro e ia atender um
telefonema no orelhão ali próximo, entrou em uma viela para se proteger
dos tiros dos policiais. Mas foi baleado nas costas. Mais tarde chegou ao
local um carro da Polícia Militar que o levou para o Hospital Planalto
onde ele veio a morrer.
O
crime foi presenciado por várias testemunhas que declararam que os
policiais já chegaram atirando. Além de vizinhos que estavam no local,
testemunharam um cunhado, que alega ter sido agredido pelos policiais
(tinha um hematoma debaixo do braço direito) depois que Rogério foi
atingido. “Logo depois de acertarem meu cunhado, me puxaram pelo braço
para dentro do carro da polícia e disseram que eu iria servir de
testemunha” (Folha de S. Paulo, 14/04/2006).
No
hospital a família enfrentou outros problemas: o cunhado e o irmão de
Rogério foram ainda agredidos por policiais militares que se encontravam
no saguão. O irmão chegou a ser algemado e espancado. Já o cunhado, que
insistia no fato de que Rogério nada tinha a ver com os perseguidos, teve
seu documento apreendido para averiguação, por ser testemunha, documento
que ele só recuperou depois, no 64º Distrito Policial (Estado
de S. Paulo,
14/04/2006). Também a esposa foi impedida de ver o marido quando ele ainda
estava vivo.
No
enterro, no Cemitério de Itaquera, no dia 14 de abril, ao qual
compareceram cerca de 300 pessoas, havia muita emoção e indignação. Houve
rezas e cantos da religião católica. Uma das mais indignadas era uma tia
de Rogério, que gritava: “É essa cor preta, é essa cor preta”. E
continuou: "Quero deixar esse depoimento para o mundo. Policiais fazem de
nós, lixo. E lixo é melhor do que nós porque ainda pode ser reciclado." O
discurso, aplaudido por todos terminou com a promessa de luta por justiça
(Jornal da Tarde, 15/04/2006).
Situação
da investicação:
A primeira versão dos dois policiais militares foi, como sempre acontece
nesses casos, a de que Rogério era um dos ocupantes do Escort, onde
estavam suspeitos de um roubo de carro. Foi isso que declararam no 64º DP,
levando como prova uma pistola calibre 7.65 mm, que teria sido encontrada
no chão, ao lado do corpo de Rogério. Os familiares de Rogério também
foram ao DP mas suas alegações de que Rogério era um trabalhador e nada
tinha a ver com o Escort não foram levadas em consideração pelo delegado,
que registrou o caso como “Resistência Seguida de Morte” (o código cifrado
que maquia as execuções sumárias). “Registrei assim porque a perseguição
existiu e há uma arma. Como a situação não está esclarecida, o auxiliar de
limpeza não aparece como indiciado, só como averiguado” (Jornal da
Tarde , 14/04/2006).
Mas quando o caso chegou à Corregedoria da Polícia Militar e os dois
soldados prestaram depoimento, a situação mudou. Eles foram presos
administrativamente por cinco dias e afastados do serviço externo. Foi
aberto um Inquérito Policial Militar. A partir daí, e por insistência dos
depoimentos da família, consolidou-se a versão de que Rogério era
inocente, e de que teria havido um “engano”, uma “bala perdida”. No dia
14 de abril o chefe de seção da Polícia Judiciária da Corregedoria admitiu
que Rogério “aparentemente não tinha nada a ver com a história” (Folha
On-Line, 15/04/2006).
Na no
mesmo dia, na explicação já mencionada acima, fornecida pelo
porta-voz da
Corregedoria da Polícia Militar,
teria
havido uma “triste coincidência” pois Rogério teria corrido na direção da
viela, para onde já haviam corrido os “marginais”. Porém não foi isso que
declarou o cunhado do auxiliar de limpeza, que afirmou aos jornalistas que
os ocupantes do Escort fugiram em uma direção, na calçada oposta àquela
onde estava a viela para a qual se dirigiu Rogério para se proteger: “Os
dois fugiram para o terreno baldio, que fica do lado oposto à calçada onde
meu cunhado estava” (Jornal da Tarde, 14/04/2006). Tudo reforça a
frase de todos os presentes, de que os dois policiais militares já
chegaram atirando, sem nem saber exatamente para onde atiravam.
O
projétil que matou Rogério foi encaminhado ao Instituto de Criminalística
para o confronto balístico que vai determinar de qual arma partiu o
disparo. Os policiais militares usavam pistolas ponto 40, que foram
apreendidas juntamento com a pistola encontrada ao lado do corpo de
Rogério.
Fontes:Agência
Estado , 13/04/2006, 14/04/2006; Estado de S. Paulo, 14/04/2006.
15/04/2006; Folha On-Line, 14/04/2006, 15/04/2006; Folha de S. Paulo,
14/04/2006, 15/04/2006; Jornal da Tarde, 14/04/2006, 15/04/2006; Globo
Online, 14/04/2006; Diário do Grande ABC, 14/04/2006) Diário do Grande,
15/04/2006; Vale Paraibano, 14/04/2006; Terra, 14/04/2006; Todo Dia ,
14/04/2006; Oeste Notícias, 14/04/2006
MOVIMENTO
NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS
Luta pela Vida, Contra a Violência
Afiliado à
Federação Internacional de Direitos Humanos - FIDH
Nota do MNDH SP
Morte
de auxiliar de limpeza foi “execução sumária” e não um mero “acidente”
Por mais que as Polícias Militar e Civil
tenham tentado, inicialmente, minimizar ou mesmo acobertar as
circunstâncias da morte do auxiliar de limpeza Rogério dos Santos Dias, de
33 anos, ocorrida na noite do último dia 12, em Itaquera, na Zona Leste da
Capital, é fato que se trata de mais um caso de execução sumária promovida
por policiais, ainda que os assassinos tenham confundido o auxiliar de
limpeza com os verdadeiros criminosos. A aparição de um pistola 765, que
segundo os PMs estava com o auxiliar de limpeza, contrariando todas as
versões das testemunhas, demonstra que mais uma vez os assassinos de farda
ainda tentaram montar uma farsa utilizando o “kit resistência seguida de
morte”, colocando uma arma extra-oficial (fria), que possivelmente estava
com um dos próprios policiais envolvidos, nas mãos da vítima, na tentativa
de montar uma farsa visando demonstrar que os policiais tinham agido em
legítima defesa, garantindo assim, como ocorre na maioria dos casos, a
total impunidade. Felizmente, em razão da vítima não ter qualquer
histórico de envolvimento com a criminalidade, ter emprego fixo e o fato
ter sido presenciado por testemunhas dispostas a prestar depoimentos, a
farsa foi desmontada, assim como ocorreu no caso do dentista Flávio
Ferreira Santana, no dia 3 de fevereiro de 2004. Assim como no caso do
dentista, provavelmente, o fato do auxiliar de limpeza ser negro, também
colaborou para o desfecho trágico do episódio, com a execução impiedosa da
vítima. O fato do cunhado de Rogério, João Barbosa Dias, ter sido agredido
pelos policiais também reforça a tese da tentativa de acobertamento, com a
montagem da farsa. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo tem o
dever, sob pena de responsabilidade, de garantir a vida e a integridade
física das testemunhas e dos familiares da vítima. O Movimento Nacional de
Direitos Humanos vai acompanhar as apurações do caso através da Ouvidoria
de Polícia e pedirá a designação de um promotor especial para monitorar as
investigações em curso na Corregedoria da PM e na Polícia Civil.
MNDH – Regional São
Paulo
www.mndh.org.br
Sede SP: 11 3101- 6084
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