EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Três rapazes com idade entre 20 e 25 anos são executados por policiais militares em Tucuruvi (zona norte de São Paulo), com o argumento de que resistiram à prisão e entraram em confronto

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Última atualização: 21/03/2007

 Data: 21 de maio de 2006
Local:
terreno baldio no Parque Vitória, Tucuruvi (zona norte de São Paulo)
Vítima: Vagner Rodrigues Pimentel, de 20 anos, Rodrigo Storolli Mendes, de 25 anos, e mais uma pessoa não identificada
Agentes do Estado
: policiais militares

Relato do caso: A partir do dia 12 de maio o Estado de São Paulo viveu uma situação crítica, com cerca de 80 presídios em rebelião e ataques do PCC a alvos do aparelho repressivo do Estado. Face a uma histeria alimentada pelos ricos e poderosos e superdimensionada pelos meios de comunicação, criou-se um clima de caça aos “suspeitos”, isto é, aos moradores das periferias pobres das grandes cidades do Estado. Foi o próprio então governador do Estado de São Paulo, Cláudio Lembo, quem esclareceu, meses mais tarde: “Na crise do PCC, figuras da minoria branca queriam a lei de talião. Queriam que se matassem todos, para preservar a eles, da minoria branca” (Folha de S. Paulo, 31/12/2006).

O caso da morte de Vagner, Rodrigo e mais um rapaz se insere nesse clima. A história relatada pelos policiais é a de sempre: na madrugada do dia 21 de maio de 2007, um domingo, por volta das 2h10, três homens teriam sido abordados em um Peugeot na Rua Pedro Vidal, no bairro do Tucuruvi (zona norte de São Paulo). Segundo o relato deles o carro havia sido roubado dia 17 de maio de uma estudante de 22 anos. Os três homens teriam, primeiro, tentado fugir. Não se sabe se em seguida, ou ao mesmo tempo, entraram em confronto com os policiais militares. Como em todos os casos semelhantes, houve, segundo a versão policial, um confronto, no qual nenhum policial saiu ferido, enquanto os três rapazes morreram. Mas não imediatamente. Foram feridos e levados pelos próprios policiais atiradores para o Pronto-Socorro São Luiz Gonzaga. A notar que o Peugeot devolvido à sua dona não tinha nenhuma marca de tiro (Folha de S. Paulo, 22/05/2006). Segundo o registro do caso, os rapazes estavam armados com duas pistolas, uma espingarda e um revólver, mas os policiais, que estavam armados apenas com revólveres, dispararam 20 tiros.

Mas mesmo a versão policial se esbarra no fato de que os três rapazes morreram, não nessa rua, porém em um terreno baldio no Parque Vitória, no mesmo bairro do Tucuruvi. As marcas de sangue no chão, rentes a um muro, indicam que os três rapazes estavam contra a parede. Não pode haver maior indício de que eles foram executados. Em primeiro lugar, os três rapazes em fuga não podiam ter entrado com o Peugeot no terreno baldio. Não podiam, em fuga, ou então, em confronto, terem saído do carro e se postado, os três, rente ao muro.

Os familiares não aceitam a versão policial de morte em confronto, de RSM (isto é, resistência seguida de morte). A mãe de um deles, Vagner Rodrigues Pimentel, de 20 anos, afirmou que seu filho já havia sido ameaçado por policiais militares. "Disseram que bonzinho nesse mundo era só Deus. Depois falaram que,se pegassem meu filho pela rua depois da meia-noite não seria nada bom para ele".

Já a mãe de um dos outros rapazes, Rodrigo Storolli Mendes, de 25 anos, estava chocada: “Tem um triângulo no coração do meu filho”, disse ela referindo-se aos três tiros que o filho levou na altura do tórax. Ela também confirma as ameaças de morte ao filho. Dias antes eles teriam dito que iriam “sentar o dedo” nele (Folha de S. Paulo, 22/05/2006; Folha On-Line, 22/05/2006).

Situação da investigação: Naqueles dias de maio já havia ficado evidente que havia uma espécie de ordem implícita para matar, que a frase acima citada de Lembo apenas confirma. No mesmo dia em que Vagner, Rodrigo e mais um rapaz eram executados de madrugada, representantes da Defensoria Pública do Estado de São Paulo e do Conselho Regional de Medicina (CRM) estiveram na sede central do Instituto Médico-Legal para fiscalizar o trabalho de identificação de supostos “suspeitos” mortos em confronto.

O Secretário de Segurança Pública, ao mesmo tempo em que recusava apresentar ao Ministério Pública a lista oficial de nomes dos mortos pela polícia, fazia com que os jornalistas recebessem diariamente a lista de “suspeitos” mortos. Foi sem dúvida com este intuito que a dona do carro roubado, a estudante de 22 anos, foi chamada ao hospital para reconhecer, em um dos mortos, o autor do roubo de que tinha sido vítima. Esse reconhecimento consta do Boletim de Ocorrência (Folha de S. Paulo, 22/05/2006). Tudo isso visando demonstrar que os mortos não eram inocentes. Ora, mesmo que fossem culpados, a pena de morte não existe no Brasil e a execução sumária é um crime das polícias.

O caso da morte de Vagner, de Rodrigo e do terceiro rapaz não teve nenhuma investigação. Na ocasião da visita ao IML acima citada, o defensor público Pedro Giberti declarou: "Se por acaso tiver havido uma única lesão, fruto de qualquer desvio de conduta, vamos proteger as pessoas afetadas por isso" (Folha On-Line, 21/05/2006). No entanto, apesar da convicção dos familiares e dos defensores de direitos humanos, é muito difícil conseguir as provas, inclusive porque, como se viu neste caso, a cena do crime é desarranjada, os feridos são levados ainda vivos para hospitais e morrem a caminho ou assim que chegam.

Fontes: Folha On-Line, 21/05/2006 e 22/05/2006; Folha de S. Paulo, 22/05/2006