EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Dois jovens morrem em Campinas (interior do Estado de São Paulo), ao serem baleados por policiais, em menos de 24 horas, em circunstâncias similares

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 Data: 2 de maio de 2006
Local:
Jardim Campos Elísios, Campinas (interior do Estado de São Paulo)
Vítima: Hebert do Canto Pereira, 20 anos
Agentes do Estado
: policial militar da 3ª Companhia do 35º Batalhão da PM

 Data: 3 de maio de 2006
Local:
Vila União, Campinas (interior do Estado de São Paulo)
Vítima: Vilsomar de Oliveira, 23 anos
Agentes do Estado
: policiais militares do 47º Batalhão

Relato do caso: Na noite de 3 de maio de 2006, uma perseguição de policiais a um carro roubado deu lugar a mais uma execução sumária em Campinas. Um Fiat Palio ELX cinza, ano 2001, pertencente a um analista de sistema, foi roubado no Parque Tropical, em Campinas. Segundo sua denúncia, ele foi parado por quatro homens armados que levaram o seu carro. Em seguida policiais militares da viatura I-47 307, pertencentes ao 47º Batalhão receberam a informação do roubo e viram quando o Palio passou por perto. Passaram a perseguir o veículo e nessa corrida chegaram até outro bairro da zona sul de Campinas, o Vila União. O carro foi localizado pelos soldados na Avenida Paula Viana de Souza. Aí os quatro homens desceram do carro, na rua Dona Esmeralda Oliveira Matias e, segundo a versão da polícia, dois deles começaram a atirar. Só então, segundo a versão policial, os policiais militares revidaram. Em seguida os quatro homens começaram a fugir embrenhando-se em um matagal ao lado da Rodovia dos Bandeirantes.

Os policiais militares informaram que revidaram aos tiros usando uma pistola automática de calibre Ponto 40 e um revólver de calibre 38, armas de uso exclusivo da PM. Na perseguição três dos rapazes conseguiram fugir sem serem identificados. No entanto Vilsomar de Oliveira, de 23 anos, foi encontrado caído e ferido. Ele era auxiliar de produção desempregado, não tinha antecedentes criminais e morava na Vila União, tendo portanto domicílio fixo. Segundo a versão policial havia ao lado um revólver de calibre 38, com quatro munições deflagradas e duas intactas.

Como em todos os casos semelhantes, ele teria sido socorrido pelos policiais, levado para o Pronto-Socorro Ouro Verde e depois transferido para o Hospital Celso Pierro, onde morreu às 0h30min do dia  4 de maio,  por conta do ferimento provocado pelo disparo dos policiais. Note-se que na perseguição e no tiroteio nenhum policial foi ferido.

No dia anterior outra morte, em circunstâncias similares, havia ocorrido em Campinas. No dia 2 de maio, às 13h40, um soldado da 3ª Companhia do 35º Batalhão que estava de folga e portanto não vestia farda, reagiu a tiros contra dois homens que teriam tentado roubar sua moto no Balão do Laranja, no Jardim Campos Elísios. Um deles foi ferido e internado em um hospital. Já Hebert do Canto Pereira, de 20 anos, foi morto. Na versão policial o soldado teria reagido a tiros disparados pelos dois homens.

Situação da investigação: Sobre as investigações em torno da morte de Hebert do Canto Pereira, se é que elas existem, nada foi noticiado. Já, no caso de Vilsomar de Oliveira, ao tempo em que ainda estava recebendo atendimento médico, foi autuado em flagrante por resistência e roubo na Delegacia  do 9º Distrito Policial de Campinas, com base no depoimento dos policias.

O dono do carro roubado esteve na delegacia e segundo os policiais, reconheceu não apenas a roupa de moletom amarelo que Vilsomar vestia, como o revólver que teria sido encontrado com ele. Observemos que a arma de calibre 38 supostamente em possessão do acusado é do mesmo calibre usado pelos PMs.  Difícil imaginar como a vítima de um assalto tenha podido identificar com tanta certeza um certo revólver calibre 38 como sendo a arma do suposto assaltante morto pelos policiais militares, depoimento que favorece a versão policial.

Como a morte se deu nas instalações hospitalares e não no local onde Vilsomar foi encontrado, tampouco teria sido possível verificar se, realmente, houve confronto e se no revide era necessário ferir o rapaz a ponto de matá-lo. Também não se sabe em que condições Vilsomar foi levado para o Pronto-Socorro.

O pai e a namorada dele estiveram na Delegacia do 6º Distrito Policial de Campinas, no Jardim Yeda, para buscar os documentos do jovem. Com justificado receio, não quiseram falar muito sobre o assunto mas estranharam que Vilsomar estivesse armado e também que tivesse  disparado contra os policiais.

O comando do 47º Batalhão abriu sindicância e inquérito policial militar para apurar a conduta dos policiais nessa ocorrência. As armas usadas pelos soldados — uma
pistola semi-automática ponto 40 e um revólver 38 — foram apreendidas pelo delegado Luís Gustavo Pascoetto, para serem enviadas para a perícia.

Fontes: Cosmo On-Line, Campinas (04/05/2006); Diário do Povo, Campinas (05/05/2006); Correio Popular, Campinas (05/05/2006)