EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Dois homens não identificados, mas que moradores relacionam com policiais, assassinam estudante de apenas 16 anos em bar na zona sul de São Paulo

Voltar 

Última atualização: 11/06/2007

 Data: 18 de maio de 2006
Local:
Vila Joaniza, Jardim S. Jorge, zona sul de São Paulo
Vítima:Willian Argolo da Silva, de 16 anos
Agentes: dois homens não identificados que moradores relacionam com policiais

Relato do caso: Ainda estava presente na cidade, no dia 18 de maio de 2006, o clima de tragédia que começara quase uma semana antes, no Estado de São Paulo, quando autoridades policiais, por meio de declarações públicas, autorizaram seus subordinados a se antecipar a possíveis ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital), “caçando” antes. O recado havia tido efeito imediato: policiais civis e militares deram início a uma caçada implacável a “suspeitos” de ligações com o PCC. Enquanto alguns policiais, devidamente fardados, extrapolavam suas ações no policiamento de rua, sobretudo nas periferias e favelas, outros preferiram o disfarce para executar suas vítimas.

Foi nesse contexto que na véspera do crime, dia 17 de maio de 2006, três carros da polícia pararam na frente de um bar na rua Professor Carlos Decourt, no Jardim S. Jorge, na Vila Joaniza, zona sul de São Paulo, e mandaram o dono, Domingos Batista do Nascimento, fechar mais cedo. No dia seguinte, 18 de maio, os mesmos policiais voltaram e avisaram que se a ordem não fosse cumprida “a coisa ia ferver” (O Estado de S. Paulo, 20/05/2006). O bar era freqüentado por moradores da região, inclusive por jovens, vistos com freqüência jogando bilhar e fliperama no local.

Nessa noite, seguindo o roteiro anunciado pelos policiais, “a coisa ferveu”. Às 23hs dois homens, usando capacetes,  caminharam até a porta do bar e de efetuaram vários disparos a esmo para o desespero de todos que ali se encontravam. O dono do bar disse que pouco viu. Jogou-se no chão ao som do primeiro tiro e levantou quando teve certeza de que não haveria mais disparos. Cinco jovens foram baleados ainda dentro do bar. O estudante do ensino médio Willian Argolo da Silva, de apenas 16 anos, foi gravemente atingido e morreu no pronto socorro.

Kátia, a mãe do estudante, não se conformava com a morte do filho. Disse que, temendo a onda violência que grassava na cidade, não tinha deixado o menino sair de casa desde o dia 15, mas que naquele dia a situação parecia ter se acalmado.

Moradores do bairro, que preferiram não se identificar por temerem represálias, disseram achar que “a polícia está envolvida na morte” (Jornal da Tarde, 20/05/2007; Globo Online, 19/05/2006).

Situação da investigação: Exceto o dono do bar, que adiantou não ter visto os autores dos disparos, mais nenhuma testemunha foi ouvida. Na sucessão das mortes de maio de 2006, mais uma vida de jovem pobre foi ceifada e nada se fez para investigar os autores do crime e sua ligação com o aviso dado por policiais militares de que “a coisa ia ferver”. As notícias de jornal não mencionam a presença da perícia no local, sequer informam se um inquérito seria aberto pela autoridade policial.

Um ano depois do maio sangrento, diante da falta total de  esclarecimento do Estado sobre as condições em que seu filho foi morto, D. Kátia, a mãe de William, está descrente na Justiça. "Assim, eu creio na justiça divina, né? Creio em Deus. Que a justiça de Deus tarda, mas não falha. Chega na hora certa. (...) A gente não sabe quem foi. A gente não viu. E quem viu também não vai falar porque, no lugar onde a gente mora, não se deve falar certas coisas. (...) O William era um menino que não mexia com droga, não fazia nada errado. A única coisa que fazia era curtir salão. Só. E chegava em casa me chamando de 'manusca' " (
Diário de S. Paulo, 20/95/2007).

Fontes: O Estado de S. Paulo, 20/05/2006; Jornal da Tarde, 20/05/2006; Globo Online, 19/05/2006; Diário de S. Paulo, 20/95/2007