|
Em
maio de 2006, como reação aos ataques do PCC iniciados dia 12, as
polícias mataram um número ainda não esclarecido de pessoas que
pode chegar a mais de 400, moradoras das periferias pobres, tanto
na capital quanto em cidades do interior do Estado de São Paulo.
Em 12 de junho o Conselho Regional de Medicina de São Paulo
divulgou um relatório de análise de 493 laudos necroscópicos
de vítimas de disparos de armas de fogo
no
Estado de São Paulo, entre os dias 12 e 20 de maio.
Evidentemente, entre estes laudos há vítimas de homicídios de
cunho pessoal e os cerca de quarenta e poucos policiais e agentes
do Estado mortos em ataques do PCC. De lá para cá pouca coisa
avançou para se saber quantas pessoas as polícias mataram. Em 17
de outubro o Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da
Pessoa Humana) divulgou o relatório da Comissão Independente
formada para apurar esses crimes e baseado no relatório do CRM,
cuja primeira versão é de 18 de setembro (leia
mais). O
relator da Comissão, Paulo Mesquita do Núcleo de Estudos da Violência/USP,
constatou apenas que “seria razoável admitir que cerca de 60% a
70% dos casos apresentam indícios de execução”, sendo no entanto
impossível afirmar com precisão que as mortes foram execuções (Terra,
São Paulo, 17/10/2006). Posteriormente, em 27 de novembro, a
Comissão Independente, apoiada pelo Secretário Especial de
Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, pediu ao Ministério Público
Estadual um acompanhamento mais direto dos casos (Carta Maior,
São Paulo, 28/11/2006). No entanto, para o procurador-geral de
Justiça, Rodrigo Pinho, o maior empecilho para avançar nessas
investigações é a falta de testemunhas que esclareçam em que
circunstâncias se deram as mortes (Folha de S. Paulo,
28/11/2006; Terra, São Paulo, 28/11/2006).
Em fevereiro de 2007 o Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos
Direitos da Pessoa Humana) publicou um livro – Crimes de maio
– com uma série de artigos e reflexões sobre os acontecimentos
daquele mês. O livro inclui um relatório analítico
sobre os 493 laudos necroscópicos coletados nos 23 IMLs dos Estado
de São Paulo, entre os dias 12 e 20 de maio, elaborado pelo
Conselho Regional de Medicina (CRM), mencionadado acima, e que já
havia sido entregue, em 1º de setembro de 2006, ao Ministério
Público Estadual, ao Ministério Público Federal e à Defensoria
Pública do Estado de São Paulo (pp. 37-81); o Relatório Preliminar
de Casos Apresentados como Resistência Seguida de Morte, elaborado
pelo perito Dr. Ricardo Molina (pp.89-96); o relatório da Atuação
da Defensoria Pública em paralelo à Comissão Independente
(pp.101-106); e uma relação de Boletins de Ocorrëncia compilados
pela Conectas (pp. 181-250). Com todo esse trabalho, entretanto,
não fica esclarecido afinal, quantas pessoas foram mortas pelas
polícias e por homens não identificados e encapuzados que mal
disfarçam suas ligações diretas com policiais.
O Observatório das Violências Policiais-SP tenta chegar a
números mais concretos e trabalha com a seguinte perspectiva:
utilizando-se de notícias da imprensa, relata as mortes que as
próprias fontes policiais atribuem a si mesmas, informando aos
jornalistas, e as que são atribuídas a desconhecidos ou
encapuzados, porém com sinais quase evidentes de origem policial.
As polícias matam, são elas mesmas que informam. Caberia a quem
mata provar que agiu em legítima defesa. Isso não é feito: todas
as cenas dos supostos confrontos são desarranjadas e os mortos (ou
semimortos) são encaminhados a hospitais. Consideramos todas estas
mortes como execuções sumárias, cabendo às autoridades policiais
provar o contrário.
Mas as polícias não começaram a matar em maio de 2006 e nem
pararam as execuções sumárias em junho, bem ao contrário. Tampouco
pararam as chamadas “chacinas”, em que desconhecidos, encapuzados
ou não, matam três, quatro, cinco ou mais pessoas, chegando logo
em seguida a polícia para “arranjar” a cena do crime, de modo que
não permaneça qualquer prova de comprometimento policial. Em
geral, entre os mortos, há uma ou mais pessoas “comprometidas com
o tráfico” ou com “antecedentes criminais”. Isso só reforça o
caráter de “limpeza” que tais ações apresentam, polícias atuando
clandestinamente em execuções sumárias em massa. Vez por outra a
responsabilidade policial é comprovada ou denunciada.
Tudo isso expressa aquilo que os organismos internacionais chamam
de “alto grau de letalidade” da polícia brasileira. Agem como se a
pena de morte existisse legalmente no Brasil e aplicam-na sem
julgamento. E continuam a fazê-lo, aconchegados na impunidade que
faz com que, por exemplo, um júri popular absolva um policial,
mesmo que seu crime tenha sido filmado (Globo Online,
14/12/2006; Estado de S. Paulo, 15/12/2006).
Leia mais
Por isso, com as fontes de que dispõe, a
equipe do Observatório das Violências Policiais-SP decidiu
publicar mensalmente a lista de mortos por policiais e
encapuzados.
Equipe do OVP-SP
junho 2006 |