MORTE SOB CUSTÓDIA DO ESTADO

RAPAZ DE 23 ANOS É PRESO E HORAS DEPOIS APARECE MISTERIOSAMENTE “SUICIDADO”, SUSPENSO POR UMA CORDA AMARRADA A UMA JANELA DA CELA, EM SÃO VICENTE (LITORAL DO ESTADO DE SÃO PAULO) - 5 de novembro de 2005

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Data: 5 de novembro de 2005
Local: carceragem do 1º DP de São Vicente (litoral do Estado de São Paulo)
Vítima: Jucemar Luiz da Silva, 23 anos
Agentes do Estado: Funcionários do 1º DP de S. Vicente

Relato do caso: Na manhã de sábado, dia 5 de novembro de 2005, Jucemar Luiz da Silva, de 23 anos, foi detido pela PM, no centro da cidade de São Vicente. Ele estaria sendo procurado pela Justiça e foi encaminhado à carceragem do 1º Distrito Policial daquela cidade. No entanto, no final da tarde, conforme Boletim de Ocorrência, ao passar pela cela, um carcereiro viu o preso suspenso pelo pescoço com uma corda amarrada a uma janela. Os outros dois presos que estavam no mesmo local, afirmaram não terem visto nada pois estariam dormindo.

A morte de Jucemar foi registrada como suicídio pelo delegado do 1º DP de São Vicente. Inconformada, a mãe do jovem não acredita que seu filho tenha se matado. ‘‘Ele foi levado para a delegacia vivo e exijo uma explicação, pois tenho certeza de que ele não faria isso’’ (A Tribuna, Santos, 07/11/2005).

Com efeito, é difícil acreditar que um jovem de 23 anos, brasileiro (faixa de idade na qual os índices de suicídio são quase ínfimos) tenha se enforcado com uma corda presa a uma janela, quando sabemos que o primeiro cuidado nas carceragens é não deixar à disposição dos presos objetos suscetíveis de provocarem a sua morte como cordas, cordões de sapatos, etc. Junta-se a isso a alegada ignorância do fato pelos seus companheiros de cela, espaço exíguo onde não dá para acreditar que uma ação desse tipo seja feita sem que os outros tomem conhecimento. O sono dos companheiros de cela de Jucemar, ou foi induzido para não assistirem a um ato criminoso - a montagem da cena fictícia do suicídio - ou é simplesmente cumplicidade com a versão das autoridades.  Difícil acreditar que numa carceragem existam cordas novas disponíveis para os presos, suficientemente resistentes para suspender um adulto, quebrando-lhe o pescoço. Mas, caso isso fosse verdade, seria ainda preciso que houvesse um móvel (mesa, cadeira: os espaços carcerários brasileiros mal recebem os detentos que devem então amontoar-se em colchões dispostos no piso como os escravos nas esteiras das senzalas) do qual ele se jogasse com o seu peso. Móvel esse que, caso existisse, provocaria tal ruído que despertaria os dois presos a tempo de salvar o suicida. De qualquer ângulo que se aborde, a cena do suicídio está a mostrar uma absoluta inverossimilhança.  Esse tipo de versão foi muito usada, em nosso passado recente, para encobrir mortes sob tortura de presos políticos, entre eles o famoso caso de Vladimir Herzog.

A morte suspeita de Jucemar pode ter sido a causa, na manhã de domingo, dia 6 de novembro, do fechamento de alguns estabelecimentos comerciais do bairro vicentino de Catiapoã, local onde a vítima morava. Um suposto toque de recolher, feito por meio de panfletagem, mobilizou as polícias Civil e Militar, que aumentaram o patrulhamento no bairro, mas negaram a caracterização de ameaça aos comerciantes. Isso, apesar de terem sido encontrados alguns panfletos colados nos postes próximos, no bairro, que diziam: ‘‘Pedimos a colaboração do senhor comerciante para que não abra esse comércio hoje, assinado: crime’’ (A Tribuna, Santos, 07/11/2005). A PM apreendeu os papéis e encaminhou-os ao 1º DP de São Vicente.

Por determinação do diretor do Departamento de Polícia Judiciária do Interior-6 (Deinter-6) uma equipe do GOE (Grupo de Operações Especiais) foi enviada ao local para reforçar o policiamento. Ele também afirmou não acreditar que se tratasse de um toque de recolher. ‘‘Se é uma ameaça, é uma ameaça velada. Mesmo assim, estamos acompanhando e averiguando os fatos’’. (A Tribuna, Santos, 07/11/2005)

Além disso o 1º DP foi alvejado por tiros na madrugada do dia 10 de novembro. Foram atingidas também duas viaturas policiais e dois carros particulares. O ato teria sido praticado por quatro homens em duas motocicletas. Foram recolhidas 12 cápsulas de pistola e revólver. O Diretor do Deinter 6, Tanganelli,  concluiu que essa ação também seria uma represália pela morte suspeita de Jucemar (Yahoo News, 10/11/2005)

Situação da investigação: A morte de Jucemar foi registrada como suicídio pelo delegado do 1º DP de São Vicente. Porém, a mãe do jovem morto não aceitou a versão policial e pediu justiça. Resta saber que meios terá essa mãe de averiguar a verdadeira causa da morte de seu filho, um jovem de apenas 23 anos.

Fontes: A Tribuna, Santos (07/11/2005); Yahoo News(10/11/2005)