Data:
29 de setembro de 2005
Local: Hospital
Pedreira, Rua João Francisdo de Moura, 251, Vila Campo Grande (zona sul de
São Paulo)
Vítima: Sérgio
Roberto de Carvalho, 31 anos
Agentes do Estado:
policiais civis do 80º DP, Vila Joaniza (zona sul de São Paulo)
Relato do caso:
Sérgio Roberto de
Carvalho, de 31 anos, morreu de tuberculose, conseqüência de AIDS não
tratada, em 29 de setembro de 2005, no Hospital Pedreira, Rua João
Francisco de Moura, 251, Vila Campo Grande (zona sul de São Paulo).
A história de Sérgio, pai de um menino de sete anos, é a
história de muitos presos que são levados à prisão por pequenos delitos,
roubos de valor insignificante, e cuja prisão resulta em tragédia. É
também a história de muitos presos doentes que, vítimas do absoluto
descaso das autoridades penitenciárias e judiciais, são abandonados em
condições insuportáveis, mesmo para pessoas sãs, e terminam por vir a
morrer.
Sérgio e
sua esposa Ana Paula Custódio viveram onze anos juntos. Passaram um
período em Minas Gerais, na cidade de Mangá, perto de Montes Claros. Aí
Sérgio cometeu seu primeiro delito, quando aceitou guardar uma carga
roubada, pelo qual foi condenado a dois anos e quatro meses em regime
aberto. Cumprida a pena, o casal mudou-se, com o filho pequeno para São
Paulo, morando inicialmente em casa de parentes e depois alugando uma casa
na Vila Joaniza. Sérgio arranjou um emprego em uma padaria na qual
trabalhou bastante tempo, mas acabou sendo despedido. Foi nesse momento
que se manifestaram os primeiros sinais da doença: um caroço no pescoço.
Os médicos descobriram que ele estava com tuberculose glanglionar e era
soropositivo (nem sua esposa, nem o menino foram contaminados). Nessa
ocasião Sérgio chegou a ficar internado por cerca de dois meses e em
seguida continuou o tratamento no Hospital de Campo Limpo. Mas como era
muito distante da casa deles, ele passou a fazer o tratamento no
Ambulatório de Atenção Básica em DST, Dr. Alexandre Kalil Yazbek, da Prefeitura
Municipal, na Av. Ceci.
Em 2001
Sérgio cometeu um furto em um supermercado: subtraiu objetos que colocou
escondidos em suas calças: xampu, sabonetes, salame. Foi preso,
permaneceu por 75 dias no 43º DP, porém recebeu apenas uma condenação de
um ano e quatro meses em regime aberto. Saído na prisão novamente arranjou
serviço em uma lanchonete, até com carteira assinada, mas não conseguiu
permanecer mais que um mês: tinha febre e se sentia muito mal. Daí por
diante só conseguiu trabalhar ocasionalmente como ambulante, vendendo uma
coisa ou outra.
Em
novembro de 2003 Sérgio foi novamente preso por furto em supermercado,
desta vez em um Pão de Açúcar. Ficou cinco meses preso, outra vez no 43º
DP. Em relação a esse furto Sérgio foi condenado, agora em regime fechado,
a dois anos e quatro meses, porém a decisão da sentença só saiu
posteriormente. Antes que ela saísse, um equívoco levou à sua soltura: foi
chamado a uma audiência na 20ª Vara que, na verdade, era referente ao
processo pelo furto de 2001. Nessas condições a juíza surpreendeu-se que
ainda estivesse preso e mandou soltá-lo.
Sem
condições de trabalhar regularmente por causa dos efeitos da Aids em seu
organismo, Sérgio incorreu outra vez no mesmo delito em 2005. Novamente
foi preso, em 8 de janeiro de 2005, por furto em um supermercado: dessa
vez um pedaço de carne valendo apenas R$ 12,00. Deste furto foi absolvido:
ele estava vestindo uma bermuda e o juiz considerou difícil manter um
pedaço de carne dentro dela. Porém Sérgio foi mantido preso, no 80º DP,
por causa da condenação anterior, de 2003, a dois anos e quatro meses.
Sérgio
Roberto de Carvalho permaneceu durante nove meses, até a sua morte, no 80º
DP, sem nenhum tratamento ou cuidado especial. Sua esposa, Ana Paula,
conta o sofrimento que passou para lhe transmitir um mínimo de conforto
material e moral. As autoridades da delegacia não permitiram, desde o
início, que ele recebesse roupas, permanecendo o tempo todo com a mesma
bermuda que havia convencido o juiz da impossibilidade de manter um pedaço
de carne nela escondida. No início, medidas burocráticas absolutamente
injustificáveis impediram que ela o visitasse: era preciso primeiro, em um
dia de visita, levar toda uma série de documentos para fazer uma
carteirinha de visitante, sem visitar, para depois então, em outro dia de
visita, encontrar o marido.
Em
seguida as visitas foram suspensas por cerca de dois meses sob o pretexto
de que teriam encontrado, nas celas espátulas feitas para cavar um buraco.
Quando
as visitas foram reativadas Ana Paula pôde visitar o marido. Nesse momento
ele estava aparentemente bem. Ela não conseguiu fazer entrar roupas,
apenas alguns alimentos, cigarro e remédios. Ana Paula ia buscar no
Ambulatório de Atenção
Básica em DST os medicamentos de que ele necessitava. Porém, como os
médicos não podiam examiná-lo para saber o nível de carga viral e
prescrever os medicamentos do coquetel contra a Aids, só encaminhavam
remédios contra as convulsões que ele tinha ocasionalmente
O
estado de Sérgio começou a piorar, ele tendo tosse e febre constantes.
Nesse período as visitas foram novamente suspensas e só retomaram com a
intervenção da Pastoral Carcerária. Nos últimos tempos ele nem sequer se
levantava, não comia nada e eram os outros presos da cela (havia nesse DP
4 celas cuja população oscilava entre 24 e 33 presos em cada uma) que
cuidavam dele. Forraram o chão (já que como todos os outros, ele dormia no
piso frio) e colocaram uma espécie de cortina. Os presos se revezavam, um
cuidava dele de noite e outro de dia, davam-lhe água constantemente. Para
que ele não tomasse banho de água gelada, como os outros, esquentavam a
água em um fogareiro que havia na cela e lhe davam banho de cuia,
colocando-o dentro de um saco de plástico. Na última visita ele sequer
respondia às perguntas da esposa, apenas abria os olhos.
Nesse
tempo todo Ana Paula insistia com o delegado que seu marido estava
precisando ser levado ao hospital e era tratada com o maior desprezo,
“como bicho”, define ela. Tanto ela como outras mulheres e parentes de
presos que a ajudaram a fazer pressão: que saíssem e não o amolassem,
“sai, sai, sai”, dizia o delegado! O carcereiro argumentava que Sérgio não
estava mais tomando os remédios por frescura. E para humilhá-lo e à
esposa, gritou bem alto que ele estava com Aids.
Só
quando Sérgio já estava muito mal, no dia 22 de setembro, é que ele foi
enviado pelas autoridades da delegacia ao Hospital Pedreira, na rua João
Francisco de Moura, 251, Vila Campo Grande (zona sul de São Paulo).
Segundo o parecer do médico, Sérgio deveria ser internado, mas as
autoridades policiais alegaram não ter escolta para mantê-lo
hospitalizado. Foi só no dia 28, véspera de sua morte, sob pressão da
esposa, de uma advogada do DIPO (Departamento
Técnico de Inquéritos Policiais e Polícia Judiciária),
pois ele já tinha tempo para passar para o regime aberto, e da Pastoral
Carcerária que as autoridades policiais do 80º DP consentiram em
encaminhar Sérgio ao Hospital Pedreira. Um preso foi chamado para
carregá-lo até um carro, pois ele já não andava. Foi colocado na UTI e no
dia seguinte, 29 de setembro, morreu.
É
preciso considerar, nessa morte por total abandono, que Sérgio, pagando
uma condenação de dois anos e quatro meses, com os cinco meses cumpridos
anteriormente e com os nove que permaneceu no 80º, já tinha ultrapassado
1/3 da pena, tendo direito à prisão em regime aberto. Além disso, se ele
estava cumprindo a pena relativa ao delito anterior, deveria ter sido
transferido para um CDP ou um presídio, onde poderia receber um tratamento
hospitalar adequado a quem é soropositivo. Sabe-se que as piores condições
de detenção estão nas delegacias, que, aliás, o governo apregoa já não
abrigarem mais presos. A insensibilidade, o pouco caso com a vida humana,
a falta de responsabilidade com um preso que está sob custódia do Estado,
levaram a esta absurda e inútil morte.
Fontes: Dossiê “Pena de morte ilegal e extrajudicial”,
http://www.ovp-sp.org/doc_dossie_penademorte.pdf ; Entrevista concedida
por Ana Paula Custódio à Equipe OVP-SP, 03/12/2005