ORGANIZAÇÕES LANÇAM CAMPANHA CONTRA USO DO "CAVEIRÃO" NO RIO

 

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Fonte: http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia
 

Depois da retirada das tropas do Exército dos morros cariocas, população voltará a conviver com a repressão da polícia militar em operações cada vez mais agressivas, em que um blindado sobe os morros intimidando moradores, por vezes, atirando a esmo. No destaque ao lado, o emblema utilizado pela polícia no veículo.

SÃO PAULO – Nas últimas semanas, a mirabolante ação militar colocada em prática pelo Exército nos morros do Rio de Janeiro, com o objetivo de recuperar armas que haviam sido roubadas por traficantes, mais uma vez trouxe à tona o conflito entre um Estado paralelo e um Estado repressor em comunidades onde o Estado Democrático de Direito deixou de existir faz tempo. Nesta terça (14), após a entrega das armas pelos ladrões, os militares anunciaram – e cumpriram – a retirada das tropas em ação no Rio de Janeiro. Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo desta quinta, integrantes do Comando Militar do Leste acusaram a Secretaria de Segurança Pública do Rio e as polícias Militar e Civil de “boicotarem as ocupações de favelas e as tentativas do Exército de recuperar o armamento”. A última notícia é a de que o Ministério Público Militar vai investigar o possível acordo dos oficiais do Exército com o Comando Vermelho. Em pouco tempo, no entanto, a opinião pública vai deixar de discutir se o Exército negociou ou não com o Comando Vermelho a devolução dos fuzis, qual a “real versão” dos fatos, e a vida dos milhares de moradores e moradoras dessas comunidades voltará “ao normal”. O “normal” para elas, no entanto, está bem longe do que se entende por respeito do Estado aos direitos humanos.

   Em julho de 2005, o menino Carlos Henrique, de onze anos, estava indo para casa à noite com seu pai quando a polícia militar do Rio de Janeiro invadiu a favela Vila do João. Torcedor apaixonado do Flamengo, ele sonhava em ser jogador de futebol. Morreu com tiro que arrancou o topo de sua cabeça durante o tiroteio que teve início. Seu pai também foi atingido e levado às pressas para o hospital. O corpo de Carlos Henrique ficou na rua até a manhã do dia seguinte. Ninguém se atraveu a ir buscá-lo. O menino foi somente uma das 11 pessoas inocentes mortas entre maio e setembro do ano passado em operações um aparato militar bastante conhecido nos morros cariocas: o “caveirão”, que volta a ser usado agora, restabelecendo uma suposta tranqüilidade nas comunidades carentes do Rio.

   Com a escalada da violência, há quatro anos a polícia começou a usar armamentos mais pesados em áreas residenciais. O caveirão é um deles: um carro blindado, pintado de preto, adaptado para ser um veículo militar. Entre as modificações feitas nos caminhões blindados originais estão o acréscimo de uma torre de tiro, capaz de girar em 360 graus, e fileiras de posições de tiro em cada lado do caminhão. Construído para resistir às armas de alta potência e aos explosivos, tem duas camadas de blindagem e uma grade de aço para proteger as janelas quando sustenta fogo pesado. Os pneus são revestidos com uma substância glutinosa que impede que sejam furados. As quatro portas travam automaticamente e não podem ser abertas pelo lado de fora – dois alçapões de escape, um na torre e outro no piso, podem ser usados em emergências. Embora pese cerca de 8 toneladas, o caveirão pode alcançar velocidades de até 120km/h. Sua capacidade é para até 12 policiais com armas pesadas.

   Rotineiramente, os policiais dentro do caveirão estão armados com rifles belgas FAL de calibre 7,62, capazes de penetrar vários tipos de alvos – uma arma perigosa em ambientes densamente povoados e de construções precárias. A palavra caveirão refere-se ao emblema do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), que aparece com destaque na lateral do veículo: uma caveira empalada numa espada sobre duas pistolas douradas, que segundo o próprio Bope, simboliza o combate armado, a guerra e a morte.

   Segundo relatos dos moradores, nas operações realizadas pelo caveirão e por outros blindados, a polícia faz ameaças psicológicas e físicas, com o intuito de intimidar as comunidades como um todo. Organizações de direitos humanos têm recebido uma série de denúncias de testemunhas sobre caveirões que entram em comunidades atirando a esmo, ao mesmo tempo em que usam alto-falantes para intimidar e ofender a população.

   De acordo com Edilson Santos, diretor do centro de artes Lona Cultural no Complexo da Maré, a partir das 10 horas, os caveirões rotineiramente entram atirando na favela. “Muitas vezes, vindo do trabalho, você vê as mães, as crianças, as pessoas correndo com medo. Até parece que estão devendo alguma coisa. Como é triste. Estamos todos preocupados – jovens, crianças, idosos, artistas - com a insegurança desse veículo”.

   O tom e a linguagem utilizados vão do “educado” ao hostil e autoritário: “Senhores moradores, estamos aqui para defender a comunidade. Por favor, não saiam. É perigoso”; “Crianças, saiam da rua, vai haver tiroteio”; “Se você deve, eu vou pegar a sua alma”. De acordo com as ONGs locais, desde a introdução do caveirão, as crianças começaram a sofrer com problemas emocionais e psicológicos.

   Até o momento, as autoridades do Rio compraram 10 caveirões, por um preço de R$135.000 cada um, e têm planos de incrementar a frota nos próximos anos. Um indício de que esta forma de policiamento tende a ser adotada em outros estados foi a aquisição em 2004 de um caveirão pelo governo de Santa Catarina.

   A polícia afirma que o caveirão é essencial para a proteção dos policiais em missões perigosas. Mas, na opinião da Anistia Internacional, por trás dessa justificativa esconde-se uma ação militarizada baseada na noção da letalidade policial apresentada como eficiência, onde o “inimigo” deve ser eliminado.

   “Ao usar um veículo que de forma agressiva e indiscriminada ameaça comunidades inteiras, as autoridades estão usando o caveirão como ferramenta de intimidação. A polícia tem o direito legítimo de se proteger enquanto trabalha. Mas também tem o dever de proteger as comunidades que está servindo”, disse Tim Cahill, pesquisador da Amnesty International para o Brasil.

CAMPANHA INTERNACIONAL
   Nesta semana, a Anistia Internacional, o Centro de Justiça Global, a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência e o Centro de Defesa de Direitos Humanos de Petrópolis lançaram uma campanha internacional de apelo à governadora do Estado do Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho, para que realize uma abrangente reforma da política de segurança do Rio, especialmente com relação ao policiamento nas favelas. Elas apelam às autoridades do estado para que parem de usar o caveirão para “matar indiscriminadamente, intimidar comunidades inteiras e realizar operações policiais violentas com uso excessivo de força”.

   “A utilização do caveirão e de outros blindados evidencia as falhas da política de segurança pública do Rio de Janeiro no combate à criminalidade. Ele é um exemplo cabal da abordagem discriminatória e agressiva da polícia nas comunidades pobres do Rio” disse Marcelo Freixo, da Justiça Global. “O uso de violência para combater a violência é fundamentalmente contraproducente. Não apenas leva à morte trágica de transeuntes inocentes, como não resolve os problemas da crescente violência criminal”, acredita.

   A ação contra o caveirão faz parte de uma campanha mundial de segurança pública da Anistia, lançada no Brasil em dezembro de 2005 com a publicação do relatório “Eles entram atirando: policiamento de comunidades socialmente excluídas no Brasil”. Agora, da Mongólia a Noruega, da Índia ao Chile, entidades de defesa dos direitos humanos devem se juntar às entidades do Rio contra o uso do caveirão. A campanha, além da remessa de cartões postais à governadora do estado, recolherá assinaturas da população. Como forma de mobilização e de sensibilização, um vídeo com depoimentos de crianças sobre o pavor que sentem do caveirão, substituindo o medo do “bicho papão” pelo medo do blindado da morte, será produzido.

   Junto com o lançamento da campanha esta semana, as organizações divulgaram um documento onde afirmam que o policiamento agressivo tem resultado em grande sofrimento para as comunidades pobres do Rio, bem como na perda de confiança na capacidade do poder público de manter e garantir a segurança. O documento relata que, com o caveirão tornou-se extremamente difícil responsabilizar a polícia em casos de violência. “Os policiais atiram nas comunidades de dentro do caveirão sem medo de serem identificados e processados”, diz o texto. Apesar de muitas acusações, nenhum policial foi processado por incidente algum em que se usou o caveirão.

   Para a Anistia Internacional, o caveirão é um símbolo poderoso das falhas da política de segurança pública do Rio de Janeiro. “A segurança para todos jamais será alcançada através da violência e da intimidação. Uma política inclusiva de segurança pública, baseada em técnicas de investigação e no respeito pelos direitos humanos, tem que ser introduzida sem demora”, afirma a organização.

   A conseqüência da política repressiva do governo carioca só tem gerado mais violência. O Instituto de Estudos da Religião (ISER), um centro de pesquisas no Rio de Janeiro, sugere que as gangues de traficantes nas favelas estão tentando igualar o armamento cada vez mais potente da polícia. Em reação ao caveirão, os traficantes de drogas estariam comprando lançadores de granadas sofisticados e rifles de alta potência para penetrar a blindagem do veículo. Na favela de Inhaúma, o Bope teria encontrado um manual, escrito por traficantes de drogas, sobre como combater o caveirão. O manual continha alguns capítulos sobre tipos de explosivos eficazes, métodos de ataque e instruções sobre guerrilha urbana.