Moradores da Favela Aldeinha (zona norte de São Paulo) pararam a Marginal Tiete para denunciar policiais da ROTA por incêndio criminoso – 26/12/2005

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Que as favelas existem por causa de um crescimento urbanístico irresponsável nas grandes cidades, pela especulação imobiliária e pelo desemprego maciço que afeta especialmente famílias pobres, isso todo mundo já  sabe (ou deveria saber!). Nunca é demais dizer que as favelas sofrem com a total ausência do Estado. Governos insensíveis e negligentes com esta situação demonstram sua incompetência e total falta de compreensão quando, ao invés de priorizar políticas públicas amplas e sérias - que garantam acesso a uma renda digna, moradia decente, saúde e educação de qualidade -, deixam para a Segurança Pública o papel de criminalizar e reprimir a população que habita as favelas.

Entretanto, não se pode calar um escândalo como o que aconteceu na Favela Aldeinha,  localizada ao lado da Ponte Júlio de Mesquita Neto, na zona norte da cidade de São Paulo, onde vivem em condições precárias cerca de 300 famílias. No dia 26 de dezembro de 2005, um dia depois do Natal e cinco antes das festas de passagem do ano, por volta das 14 hs, em plena luz do dia, moradores daquela favela afirmam ter visto dois policiais da Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (ROTA), famosa pelo grau de brutalidade que seus membros exercem, descerem da viatura, entrarem em um barraco supostamente vazio, e em seguida atearam fogo em colchões que se encontravam no local

Mas os moradores, que antes se deixavam intimidar pela ação truculenta dos policiais, agora reagem com protesto ao descaso dos governos e dizem não à violência policial. Foi o que aconteceu na favela Aldeinha.

A dona de casa Maria Betânia da Silva, de 21 anos, moradora da favela, disse que os policiais agiram intencionalmente. “Fizeram por ruindade e saíram.” (O Estado de S. Paulo, 27/12/2005). Entretanto nervosa com tudo que estava se passando, Maria não conseguiu identificar o número da viatura nem se os policiais exibiam a identificação na farda, como é obrigatório, de forma visível e não de forma a dificultar o reconhecimento. Vizinha de Maria, a desempregada Edjane Rocha, de 20 anos, diz não ter sossego na favela e desabafa: "Desde que moro aqui, a polícia faz batida atrás de gente e nunca se sabe o que eles são capazes de fazer. Tenho medo pelos meus três filhos." (Jornal da Tarde, 27/12/2005).

Por sorte e pela atenção dos moradores, a cidade não fechou o ano de 2005 com mais uma tragédia provocada por incêndios ocorridos em favelas, no mínimo, duvidosos, se não criminosos.

Revoltados e cansados de serem maltratados pelos policiais que, vez ou outra, invadem a favela e fazem o que bem entendem, os moradores se uniram e decidiram fazer um protesto para denunciar tais arbítrios e cobrar do poder público ações para coibir a violência policial e exigir soluções mais adequadas para as famílias que lá habitam.

Assim, por volta das 15 hs, os moradores recolheram pneus velhos abandonados por motoristas à beira da pista, alguns pedaços de madeira podre e o que conseguiram recolher pelo caminho, dirigiram-se para a Marginal Tietê, situada em frente à favela, onde cortaram a estrada no sentido Lapa-Penha e atearam fogo, causando a sua interdição. Não houve grande congestionamento, pois a cidade estava com um número reduzido de veículos por conta do fim de ano. Os motoristas mais apressados puderam desviar por outras ruas.

Legitimando o protesto, os moradores empunharam uma faixa improvisada onde podia se ler a seguinte frase: “Proteção: polícia queima favela.” Preocupados, os policiais militares que chegaram ao local arrancaram a faixa das mãos dos moradores a fim de impedir que seu recado fosse visto por todos. A chegada dos policiais militares ao local anunciou o fim do protesto que se encerrou às 16h30, sem nenhum ferido. Às 17 horas o transito já havia voltado ao normal.

Indagada se havia alguma operação ou ação prevista que justificasse a ida da ROTA àquela favela, a Secretaria de Segurança Pública informou que oficialmente não havia nada (O Estado de S. Paulo, 27/12/2005). A Corregedoria da Policia Militar foi ao local e ouviu algumas testemunhas que deverão ser chamadas para reconhecer, por meio de fotografias, os suspeitos de terem causado o incêndio. O Coronel da PM, Izaul Segalla, responsável pelo policiamento da zona norte, disse que nenhum morador soube dizer o nome dos policiais ou o número do carro (O Estado de S. Paulo, 27/12/2005), porém, ao que parece, não lhe ocorreu os riscos que correria a pessoa que o fizesse. E concluiu com uma frase que deixa entrever o modo pelo qual se desenrolará a investigação: "Vamos analisar isso tudo antes de tirar conclusões" (Jornal da Tarde, 27/12/2005).

Com uma hora e meia de duração, o protesto dos moradores da favela Aldeinha foi noticiado em três jornais de grande circulação. Portanto o fato registrado passa a fazer parte da história daqueles que preferiram o protesto legítimo ao silêncio resignado.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 27/12/2005; Jornal da Tarde, 27/12/2005; Diadema Jornal  27/12/2005