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Fonte: http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia
Para Anistia
Internacional, governos permitiram a institucionalização de um
policiamento baseado em violações de direitos humanos e
corrupção, uma prática que tem contribuído para reforçar a
discriminação e a exclusão social.
Bia Barbosa –
Carta Maior 05/12/2005
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São Paulo – No dia 6 de
janeiro de 2004, na favela do Caju, zona norte do Rio de Janeiro,
cinco jovens que estavam sentados em um bar, entre eles um garoto de
13 anos, foram executados. Um sobrevivente e vários familiares
relataram que os policiais chegaram correndo e atirando nos cinco
rapazes. Eles ainda tentaram se identificar, mas não adiantou. No
dia seguinte, seus corpos foram encontrados enterrados em uma fossa
localizada próxima à comunidade. Uma investigação policial foi
aberta.
Em abril
de 2005, a Anistia Internacional encontrou-se com Elizabete Maria de
Souza, mãe de três filhos e irmã do garoto de 13 anos assassinado.
Ela vivia assustada porque as viaturas da polícia passavam
regularmente em frente a sua casa, diminuindo a velocidade quando se
aproximavam. Desde a morte de seu irmão, Elizabete participa da Rede
de Comunidades contra a Violência, fazendo campanhas contra
violações de direitos humanos pela polícia do Rio de Janeiro.
Formada por parentes de vítimas da violência policial e ativistas
comunitários, a rede iniciou uma firme campanha contra os níveis
cada vez mais elevados de violações dos direitos humanos cometidas
por policiais nas comunidades socialmente excluídas do Rio.
Neste
final de semana, depois de viajar por cinco países da Europa para
denunciar essa situação a organizações da comunidade européia,
Elizabete esteve em São Paulo. Ao lado de mais oito mães de vítimas
da violência policial no Rio, ela participou do lançamento do
relatório “Eles entram atirando – Policiamento de comunidades
socialmente excluídas no Brasil”, lançado pela Anistia Internacional
na última sexta-feira (2). O estudo mostra que o que aconteceu com
essas famílias não é um fato isolado. Para os milhões de brasileiros
que vivem em favelas, a violência faz parte de seu cotidiano.
Em março
deste ano, 29 pessoas foram mortas na região da Baixada Fluminense
por um grupo supostamente formado por policiais militares que
dirigia pela região atirando de modo aleatório em quem passava.
Todas as vítimas tinham emprego fixo e apenas duas tinham
antecedentes criminais por prática de pequenos delitos. O estudante
Douglas Brasil de Paula, de 14 anos, foi morto enquanto jogava
fliperama em um bar. João da Costa Magalhães estava sentado à porta
de sua casa quando foi atingido. Rafael da Silva Couto, um estudante
de 17 anos, andava de bicicleta pela Via Dutra quando foi morto a
tiros, no pior massacre da história do Rio de Janeiro.
As taxas
de homicídios nos grandes centros urbanos do Brasil estão entre as
maiores do mundo. Em 2002, foram cerca de 50 mil homicídios. É nas
comunidades mais carentes, porém, onde os habitantes já são privados
da proteção do Estado, que existe a maior concentração de homicídios
e de crimes violentos. O que o relatório da Anistia Internacional
mostra é ao falhar em tratar a longo prazo das necessidades de
segurança pública de todos os setores da sociedade brasileira, como
parte de uma estratégia governamental abrangente para combater a
violência, sucessivos governos permitiram a institucionalização de
um policiamento baseado em violações de direitos humanos e
corrupção. Essa situação tem contribuído para intensificar a
violência e a criminalidade, ao mesmo tempo em que reforça e
perpetua os padrões de discriminação e exclusão social.
“Este
processo tem se manifestado de vários modos: policiamento baseado em
“invasões” de comunidades carentes ou favelas, geralmente utilizando
mandados coletivos que discriminam comunidades inteiras com um único
golpe; níveis extremos de violações de direitos humanos, inclusive
execuções extrajudiciais e tortura; corrupção extensiva praticada
por integrantes da polícia; e o fracasso em oferecer as formas mais
básicas de proteção, efetivamente abandonando as pessoas socialmente
excluídas nas mãos de gangues criminosas e facções do tráfico”,
descreve o relatório.
O estudo
revela como as comunidades socialmente excluídas estão encurraladas,
de um lado, pelos níveis elevados de violência praticada pelos
criminosos e, de outro, pela repressão e discriminação praticadas
pelas forças policiais dais quais deveriam receber proteção. “Há uma
negligência dos governos estaduais e federal na providência de
segurança pública. Reconhecemos que combater a violência armada é um
trabalho difícil, mas houve uma decisão em se combater com base só
na repressão. Só que o conceito de segurança com base na redução dos
direitos humanos não protege ninguém”, afirma Tim Cahil, responsável
pelo relatório.
Em um
círculo vicioso, a presença desses grupos nas favelas não é apenas
uma fonte de ameaças para os membros da comunidade; é também o que
alimenta o preconceito e a discriminação contra eles, fazendo com
que sejam todos tratados como criminosos.
Em
setembro de 2003, o jornal O Globo publicou trechos das músicas
cantadas durante o treinamento de membros da divisão de elite da
Polícia Militar do Rio de Janeiro, o Batalhão de Operações Especiais
(BOPE), tais como:
O interrogatório é muito
fácil de fazer / pega o favelado e dá porrada até doer/
O interrogatório é muito fácil de acabar / pega o favelado e
dá porrada até matar.
Bandido favelado / não varre
com vassoura / se varre com granada / com fuzil, metralhadora.
As
estatísticas oficiais mostram que em 2003, nos estados do Rio de
Janeiro e São Paulo, a polícia matou 2.110 pessoas em situações
registradas oficialmente como “resistência seguida de morte”. Em
visitas a comunidades em São Paulo, Rio, Minas Gerais e Espírito
Santo, para a elaboração do relatório, entre 2002 e 2005, a Anistia
ouviu relatos impressionantes de líderes comunitários, residentes,
membros de grupos de direitos humanos e de outros movimentos
sociais. As queixas vão de revistas abusivas e detenções ilegais a
tortura e assassinato. Há casos de crianças que ficaram tão
traumatizadas que sequer podem ver os policiais – algumas chegam a
chorar ou se urinar quando estão diante deles. Os jovens descrevem
apanhar da polícia como sendo “normal”.
“Eles entram atirando”
Incursões policiais de grande
escala nas comunidades carentes são, em muitas cidades, o
carro-chefe das políticas de segurança pública. Essas operações
geralmente acontecem no calor de crimes de grande repercussão. Em
São Paulo, a Polícia Civil organizou a maior operação de busca
jamais realizada pela corporação após o seqüestro e assassinato do
prefeito Celso Daniel, de Santo André. Em março de 2002, 1.200
policiais invadiram a comunidade Pantanal. De acordo com os relatos,
eles revistaram 3.817 locais diferentes, 2.210 pessoas e 2.126
veículos, tudo com um único “mandado de busca coletivo”.
Contrariando a lei brasileira, os mandados de busca e apreensão
coletivos estes não especificam endereços ou nomes particulares. Sua
utilização, para a Anistia Internacional, revela o preconceito
existente dentro do sistema de Justiça criminal, em que integrantes
da polícia e do Judiciário efetivamente criminalizam comunidades
inteiras com um único documento legal.
Outros
relatórios publicados por representantes da Organização das Nações
Unidas que visitaram recentemente o Brasil também destacam o fato de
que as execuções extrajudiciais, o uso excessivo da força e a
tortura parecem ter se tornado instrumentos policiais regulares
entre algumas forças policiais no país.
Os
governos estaduais do Rio e de São Paulo publicam estatísticas de
homicídios policiais sob o título de “resistência seguida de morte”
ou “autos de resistência”. Rotular sistematicamente as vítimas de
homicídios policiais como agressores faz com que poucos destes casos
sejam investigados de modo efetivo e independente. Os governos
estaduais têm usado estas estatísticas como indicador de eficiência
policial, ignorando o fato de que muitos dos que foram mortos não
tinham antecedentes criminais, estavam desarmados e foram alvejados
pelas costas.
Estudos
realizados pela Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo e pelo
Instituto de Estudos da Religião (Iser), no Rio de Janeiro, mostram
que a maioria das pessoas mortas pela polícia levaram tiros pelas
costas, geralmente na cabeça. Muitas apresentavam sinais de
ferimentos adicionais, tais como lesões causadas por espancamento,
sendo que a maioria era de pessoas negras ou pardas. Em São Paulo, o
estudo mostrou que quase todas as situações em que os disparos da
polícia resultavam em morte eram registradas como crimes cometidos
pelas vítimas – assalto, resistência à prisão, etc. Isso significa
que não são nem registrados nem investigados como possíveis
execuções extrajudiciais.
“Os autos
de resistência fazem do policial a vítima e depois nós temos que
investigar, por conta própria, para limpar o nome de nossos filhos e
irmãos. Nós é que temos que fazer o papel que o Estado não faz”,
critica Elizabete Maria de Souza. “É muito difícil viver no Rio de
Janeiro porque os policiais que são pagos pra nos proteger são os
primeiros a nos executar. Quando a PM mata alguém da sua família,
ela mata você também”, conta.
“Quando trabalha mais, a polícia mata mais”
Na opinião da Anistia
Internacional, muitos policiais brasileiros acreditam que os
direitos humanos podem ser um empecilho a um policiamento
“eficiente”. Segundo esta perspectiva, um policiamento fundamentado
nos direitos humanos se preocuparia demais com os direitos dos
criminosos e pouco com os das vítimas de crimes. Já as autoridades,
federais e estaduais, ao mesmo tempo em que publicamente condenam a
repressão e as violações de direitos humanos, reforçam seu uso.
“Tradicionalmente, as políticas de segurança pública se preocupavam
mais em conter a violência em áreas em que esta era considerada
socialmente aceitável, ou seja, nas favelas, do que em combatê-la.
Ultimamente, as autoridades federais e estaduais vêm adotando uma
linguagem cada vez mais confrontante ao tratar das questões de
segurança pública, promovendo operações policiais de estilo militar
e treinando unidades do Exército para intervenções de manutenção da
ordem pública”. Esta abordagem, na avaliação da organização,
falsamente separou segurança pública de direitos humanos e não
conseguiu oferecer segurança a quem mais precisa.
Em junho
de 2003, a Anistia Internacional reuniu-se com o secretário de
Segurança Pública de São Paulo, Saulo de Castro Abreu, que, apesar
de ter expressado preocupação com o número crescente de homicídios
policiais, atribuiu esse aumento ao fato de haver mais policiais bem
armados nas ruas e também a um maior número de operações policiais.
Em novembro de 2003, a governadora do Rio de Janeiro, Rosinha
Garotinho, e o então secretário estadual de Segurança Pública,
Anthony Garotinho, informaram à delegação da Anistia Internacional
que o aumento no número de homicídios policiais era resultado de
operações policiais mais numerosas e melhores. No dia 5 de abril de
2005, a Anistia Internacional foi informada por Marcelo Itagiba,
secretário estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro, que
“quando trabalha mais, a polícia mata mais”.
“Parece
haver o entendimento, especialmente nos governos estaduais, de que o
uso de força letal é não só uma realidade aceitável do policiamento
que hoje se faz no Brasil como também uma medida de eficiência
policial”, aponta Tim Cahil.
A
preocupação é triplicada quando as pesquisas de opinião indicam que
uma parcela considerável da população aceita o uso de violações de
direitos humanos como método policial. Em maio de 2005, um estudo
realizado pela Universidade Federal Fluminense constatou que 30% da
população aceitava parcialmente ou totalmente o conceito de que
“bandido bom é bandido morto”.
A Rede de
Observatórios de Direitos Humanos que, por um determinado período,
estabeleceu “observatórios” em comunidades excluídas da zona sul de
São Paulo, reportou, em 2001, que formas violentas de “justiça” são
aplicadas contra suspeitos criminais, principalmente em casos de
estupro ou abuso de crianças, uma vez que “pouco se espera da
Justiça e da polícia para resolução destes problemas”.
O outro
lado dessa moeda é o medo daqueles que, contrários à violência
policial, tentam denunciar os crimes que testemunham. Há um padrão
de acobertamento e intimidação que se segue aos tiroteios policiais
e que passa, sobretudo, pela adulteração da cena do crime pela
polícia – geralmente plantando na vítima uma arma com a numeração
raspada, movendo seus corpos fingindo tentar salvá-las, removendo
cartuchos e outras evidências. Os familiares das vítimas raramente
procuram a polícia para reportar os homicídios porque órgãos como
ouvidorias de polícias, nos estados em que elas existem,
corregedorias e Ministério Público são geralmente desconhecidos,
desacreditados, distantes ou intimidadores.
Em muitos
casos, o Judiciário apóia a perpetuação das violações de direitos
humanos e a discriminação. Além da expedição dos mandados de busca
coletivos, são inúmeros os juízes que aceitam investigações
irregulares, permitem que confissões extraídas mediante tortura
sejam usadas como provas e permitem que casos de interesse público
corram em segredo de Justiça. Dos 12 casos de suspeitas de execuções
extrajudiciais e tortura que estão sendo acompanhados pelo Centro de
Direitos Humanos de Sapopemba, em São Paulo, quatro estão sob
sigilo. Em todos eles, policiais figuram como réus.
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