Data:
18 de fevereiro de 2004
Local:
Base
Comunitária da Polícia Militar,
São
Bernardo do Campo, SP
Vítimas: Adilson de Freitas Vicente, 24 anos; Fábio Sangrim de
Oliveira, 23 anos; Paulo Henrique de Souza da Silva, 21 anos, Eduardo
Antonio Santos, 21 anos; e Maria Carolina Barbosa Leão, 21 anos
Agentes do Estado: Quatro soldados do 6º Batalhão da Polícia Militar
Relato do caso:
Adilson de Freitas Vicente saía de um estacionamento, perto de sua escola,
com seu carro marca Opala, branco, quando foi abordado por policiais
militares que, sem qualquer explicação, o algemaram e o colocaram em uma
viatura da polícia. Isso aconteceu na rua João Firmino, Bairro Assunção,
em São Bernardo do Campo. Logo em seguida Adilson ficou sabendo que um
soldado - que estava à paisana - ,
acusava-o, aos outros policiais militares, de ter roubado um Opala branco
de sua propriedade, em frente à casa de um amigo. Os dois Opalas tinham
acessórios diferentes no painel, mas nem estas evidências serviram para
demover o acusador. Adilson foi então levado para a Base Comunitária da
Polícia Militar de São Bernardo do Campo,
na praça Giovane
Breda, próxima
ao local, onde recebeu chutes, pontapés e murros por todo o corpo,
executados por um dos soldados e por outros policiais dessa
Base. Depois disso Adilson foi colocado em uma viatura e levado para a
casa de um amigo do bairro de Assunção, Fábio Sangrim de Oliveira. Os
policiais entraram na casa e já começaram a agredir Fábio da mesma forma.
Os dois foram levados para a delegacia, onde já se encontravam presos os
outros amigos, Paulo Henrique Souza da Silva, Eduardo Antonio Santos e
Maria Carolina Barbosa Leão. Os cinco então foram encaminhados novamente
para a Base Comunitária onde foram todos torturados por quase duas horas,
com os mesmos métodos e mais: com alicates que apertavam partes do corpo,
como os bicos dos seios de Maria Carolina, e martelos que esmagavam os
dedos da mão. Foram em seguida levados para o 3º Distrito Policial de S.
Bernardo e, no dia seguinte, para o 1º Distrito Policial, onde foram
novamente torturados. Após 24 horas os quatro rapazes foram conduzidos
para o CDP (Centro de Detenção Provisória) de Mogi das Cruzes, enquanto
Maria Carolina era levada para a Cadeia Pública Feminina de São Bernardo
do Campo, no 7º Distrito Policial.
Situação da
investigação:
No primeiro Boletim de Ocorrência (1.519./2004) feito no dia 18 de
fevereiro, um dos soldados do 6º Batalhão da Polícia
Militar, afirmou categoricamente ter reconhecido “sem sombra de dúvida” os
cinco jovens. Os policiais procuravam uma suposta quadrilha de ladrões de
carro. No entanto, ao serem ouvidos pelo juiz da 3ª Vara Criminal da
cidade, Antonio Maria Zorz, em 17 de março, todos os cinco jovens
afirmaram terem sido torturados na Base Comunitária da PM de São Bernardo
do Campo. E seus familiares denunciaram às entidades de direitos humanos,
sobretudo à ACAT-Brasil, as torturas. A partir de então, outro soldado que deveria prestar depoimento como testemunha de acusação
começou a faltar a sucessivas convocações. O 6º Batalhão respondeu a um
desses ofícios, justificando a ausência por estar o soldado em licença por
motivos psiquiátricos. Em outra ocasião, a corporação forneceu o endereço
para uma intimação direta, porém o oficial de justiça que se deslocou ao
endereço foi informado de que ele havia se mudado para o interior. Os
cinco jovens acusados tiveram a prisão relaxada depois de 112 dias.
Por outro lado, a ação de tortura por parte desses policiais foi
investigada pela Corregedoria da Polícia Judiciária de São Bernardo.
Segundo os jovens, os torturadores e agressores eram cerca de 20. O
documento da ACAT identifica mais três. Segundo a
Secretaria de Segurança de São Paulo, estes soldados foram afastados.
É importante ressaltar que nos primeiros dias após a prisão,
um dos soldados fez
várias ameaças, não apenas aos presos, mas ainda em entrevistas para
programas televisivos policialescos. Eis algumas das coisas que disse: ao
ser questionado, nessas entrevistas, sobre o que faria com um dos presos:
“Só cinco minutos em uma sala trancado, só os dois. Não precisa nem de
arma”. A um dos presos declarou: “Você está morrendo? Você vai morrer
mesmo”; ou “Se você sair dessa, eu mato você ou você me mata”. Ao pai de
um deles declarou: “Só não executei seu filho e os outros rapazes porque
minha filha e minha mulher estavam junto”.
Um dos soldados
da Polícia Militar
já havia sido denunciado pelo Ministério Público de S. Bernardo por
crime de tortura em um caso ocorrido em 7 de fevereiro de 2004, quando
dois jovens, um deles menor de idade, afirmaram terem sido espancados. A
denúncia foi rejeitada pela Justiça, mas a Promotoria recorreu.
A partir das investigações da Corregedoria de Polícia Judiciária de S.
Bernardo e com base na denúncia oferecida um dia antes pelo Ministério
Público, a Justiça decretou, em 13 de agosto de 2004, a pedido do promotor
Nelson dos Santos Pereira Júnior, a prisão preventiva de quatro dos
policiais. A
prisão foi decretada pela juíza substituta da 4ª Vara Criminal de S.
Bernardo, Ana Paula Gomes Galvão. Os policiais militares apresentaram-se à
Corregedoria da Polícia e foram encaminhados ao Presídio Romão Gomes, da
Polícia Militar. No dia 1º de outubro os quatro foram ouvidos e negaram as
acusações de tortura.
No dia 26
de outubro realizou-se a primeira audiência dos policiais militares
acusados de tortura no Fórum de São Bernardo. Antes disso a juíza titular
da 4ª Vara Criminal de S. Bernardo, Ely Amioka, desabilitou os advogados
das vítimas que atuavam como assistentes do Ministério Público, com o
argumento de que eles teriam descumprido o segredo de justiça solicitado
pelos advogados dos policiais. O segredo de justiça vem sendo utilizado,
indevidamente, para o julgamento de crimes dos quais são acusados
policiais, dificultando o acesso à Justiça por parte das vítimas sem
recursos financeiros.
Fontes:
Boletim da ACAT-Brasil (Ação dos Cristãos pela Abolição da Tortura),
25/05/2004; Relatório da ACAT-Brasil 25/05/2004; Folha de S. Paulo,
04/07/2004; 01/10/2004; ; 26/10/2004; Folha Online -
http://www.folha.uol.com.br/ 04/07/2004; 13/08/04; 20/08/04; 01/10/2004;
26/10/04