Data:
2 de janeiro de 2002
Local:
Centro de Detenção
Provisória (CDP) Chácara Belém II (zona leste de São Paulo)
Vítima:
Fernando Dutra
Pinto, 22 anos
Agentes do Estado:
autores do espancamento: o chefe de plantão, no
CDP Chácara Belém II (não indiciado); três agentes penitenciários não identificados do CDP Chácara Belém
II; e, por omissão
de investigação, a Secretaria da Administração Penitenciária e Secretaria de
Segurança Pública
Relato
do caso:
Em 2 de janeiro de 2002, a morte “suspeita” de Fernando Dutra Pinto, que
já havia ocupado grande espaço na mídia quando protagonizou um seqüestro
de gente famosa, deixou todas as indicações de que se tratava de uma
“queima de arquivo”, ou seja, do assassinato de alguém que sabia demais
sobre a atuação dos policiais civis envolvidos. Foi o que sugeriu, ainda
no dia 4 de janeiro de 2002 (Folha de S. Paulo), a Secretária
Nacional de Justiça, Elizabeth Sussekind. Porém, embora a morte por
tortura tenha sido comprovada, nenhum processo judicial teve andamento,
como acontece quase sempre.
Fernando Dutra Pinto, rapaz inteligente, que queria ser advogado, mas que,
como todo jovem - segundo afirmou seu pai - precisava de dinheiro,
protagonizou com mais algumas pessoas, no dia 21 de agosto de 2001, o
seqüestro da filha de um grande homem das televisões brasileiras, S.
Santos. O seqüestro ousado - pois para tanto a casa do rico homem foi
invadida - não foi noticiado pela família até a sua conclusão, com o
pagamento do resgate e a entrega da moça sã e salva, no dia 28 do mesmo
mês.
No dia
seguinte, estando Fernando Dutra Pinto hospedado no flat
Parthenon L'Etoile
Residence, de Barueri, onde começava a gastar o dinheiro obtido no
seqüestro, passam-se fatos nunca esclarecidos. Conforme a versão policial,
uma denúncia anônima - provavelmente de empregados do hotel que viram
armas no quarto de Fernando - teria levado alguns investigadores do 91º
Distrito Policial (de Pinheiros), para fora de sua área de atuação, o flat
de Barueri. Todos os acontecimentos suspeitos que se deram nesse flat
começaram às 11hs e terminaram às 18hs. Na versão da polícia, apenas três
investigadores estiveram no flat tentando, sozinhos, prender Fernando.
Teriam-no abordado e tentado imobilizá-lo. Ele teria se desvencilhado dos
policiais, começando em seguida um tiroteio de três contra um. Mas contra
toda lógica, Fernando, que lutava sozinho, embora tenha sido ferido de
raspão, teria conseguido matar dois investigadores e ferir um terceiro. Este
então avisou sua mulher que estava ferido e só então os organismos
policiais competentes para a prisão de tão perigoso seqüestrador teriam
sido acionados. A DEAS (Delegacia Anti-Seqüestro) só foi avisada às 17 hs.
Entretanto Fernando conseguiu fugir descendo um lance de escadas, atirando-se
contra o vidro da janela do saguão e escorregando no vão de 80 cm entre a
parede dos apartamentos e a torre do elevador, com as costas apoiadas em
uma parede e com os pés na outra, desde o 9º andar até o térreo.
Todos estes
acontecimentos só vieram a público quando, no dia seguinte, 30 de agosto,
em lance espetacular, Fernando Dutra Pinto invade novamente, desta vez
sozinho, a casa do apresentador S. Santos, que imediatamente coloca toda a
mídia a par dessa invasão. Segundo o próprio apresentador, Fernando
queria ou meios para fugir, ou entregar-se com garantias de que não seria
massacrado. E exigia, para entregar-se, a presença do governador do
Estado, Alckmin, como avalista de sua segurança. O governador cedeu à
exigência, declarando mais tarde que o fez pois temia pela vida de S.
Santos e também para evitar “uma carnificina” (o que seria essa
"carnificina" temida? o assassinato do apresentador por Fernando ou o
assassinato deste por policiais que cercavam a casa?).
Conhecidos os
acontecimentos, tanto a mídia, como a Corregedoria da Polícia Civil
começaram a checar os fatos com as contraditórias declarações do único
sobrevivente do tiroteio, além de Fernando: um dos investigadores. Verificou-se que ao menos uma
outra pessoa do 91º DP esteve no flat às 14 hs, o delegado-titular do
distrito, conforme ele declarou na Corregedoria. Em
seguida este delegado fez uma cirurgia na garganta que o impediu de falar
com a mídia, e depois disso tirou uma licença. Verificou-se ainda que, em
algum momento, o dinheiro do resgate (ou parte dele), cerca de R$ 464 mil,
foi para o 91º DP, já estando lá ao menos duas horas antes do tiroteio.
Porém as armas ficaram no flat. Verificou-se também que a necrópsia dos
mortos não correspondia de maneira alguma à narrativa dos fatos feita pelo
investigador sobrevivente. O investigador levou nove tiros, porém sete
pelas costas. O outro investigador levou quatro tiros, um deles na
cabeça, à queima-roupa, ficando provado que o cano da arma foi
praticamente encostado na cabeça do policial. Isso levou dois
delegados da Corregedoria da
Polícia Civil a considerar que não teria havido exatamente um tiroteio
entre Fernando e os policiais, porém “outra coisa”. Além disso, pela
narrativa do investigador, o suposto tiroteio ter-se-ia dado imediatamente após
Fernando sair do elevador, no qual também subiu um dos investigadores
mortos. No
entanto eles subiram pelo elevador social e os buracos de bala e projéteis
foram encontrados perto do elevador de serviço. Verificou-se ainda que,
estranhamente, um dos mortos tinha em seu bolso
três cheques no valor total de R$ 23.300,00. Com efeito, sabe-se que o
homem de TV pagou R$ 500.000,00 e Fernando declarou que gastou apenas R$
1.000, 00. Mas a polícia recuperou apenas 464.000,00. Além disso, no local
foram encontradas manchas de sangue que não correspondiam nem ao tipo de
sangue dos três investigadores, nem ao de Fernando. E, no laudo de
balística, verificou-se que os mortos receberam tiros de armas não
identificadas no episódio: das sete recolhidas, nenhuma tinha um projétil
que pesasse 10,4 g.
Essas constatações
da própria Corregedoria combinavam com as declarações de Fernando Dutra
Pinto, que afirmou a esse organismo, em 6 de setembro de 2001, que até o
momento em que fugiu do local, os três investigadores que o abordaram
estavam vivos, que havia mais quatro homens que discutiam com os três
primeiros sobre dinheiro e que ele não matou ninguém. Chegou a atirar, mas
não acertou ninguém. O depoimento foi dado no CDP (Centro de Detenção
Provisória do Belém, zona leste), onde Fernando estava detido, e gravado.
Depois de sua morte a TV Bandeirantes exibiu Fernando dizendo: "O senhor
conseguiria matar dois policiais e ferir outro? Sozinho? E quando eles já
têm as armas apontadas para você? (...) Enquanto eu estiver respirando, eu
vou negar".
No entanto o
Delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo determinou, em 13 de setembro, que a Corregedoria abandonasse as
investigações, transferindo-as para o DHPP (Departamento de Homicídios e
de Proteção à Pessoa), sob o argumento que esta delegacia é especializada
em homicídios. Em seguida o delegado desse departamento, foi proibido de falar sobre as investigações: ordem do
Secretário de Segurança Pública, Marco Vinicio Petrelluzzi.
Em 3 de janeiro de
2002 a imprensa noticiava, com grande destaque, a morte de Fernando Dutra
Pinto, “morte natural”, segundo o Secretário Marco
Vinicio Petreluzzi: “Então quer dizer que qualquer pessoa que tiver morte
natural, o Estado é responsável? Vamos devagar. A polícia não teve contato
com ele até esse momento e a gente não pode fazer acusações levianas” (Folha
de S. Paulo, 04/01/2002). A repercussão foi enorme, já que quatro meses
antes o próprio governador Alkmin havia dado garantias de vida ao
seqüestrador. Noticiou-se que ele, jovem de 22 anos e com plena saúde,
teria tido uma parada cardiorrespiratória provocada por uma infecção
generalizada, na qual o pulmão foi o órgão mais comprometido, que o fez já
chegar morto no Hospital Tatuapé, às 12h22 do dia 2 de janeiro.
Desde os primeiros
dias da notícia, sabia-se que Fernando havia recebido ameaças de morte e
que havia apanhado de carcereiros (“brigado”) mas que, conforme a versão
das autoridades, carcereiro e preso “depois fizeram as pazes”. E
sabia-se que sua advogada recebera telefonemas dias antes avisando de sua
futura morte. No entanto as autoridades da Secretaria de Administração
Penitenciária e da Secretaria de Segurança Pública, auxiliadas por certa
ingenuidade da família e da advogada, entretiveram versões de
envenenamento por comida e envenenamento por remédios, para distrair a
opinião pública que, quase unanimemente, via nessa morte uma “queima de
arquivo”.
Em 5 de janeiro,
diante do fato já incontornável de que Fernando Dutra Pinto tinha apanhado
dentro do CDP de Belém no dia 10 de dezembro de 2001, foi preciso que o
presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, Dr. João José Sady,
esclarecesse que o conceito de “briga”, seguida depois por “fazer as
pazes”, não se aplicava ao caso: “Preso espancado por agente penitenciário
é definido pela lei como tortura. Se a autoridade sabe que foi cometido um
crime hediondo e não tomou providências também está cometendo delito” (Diário
de S. Paulo, 05/02/2002). O secretário da Administração Penitenciária, Nagaschi Furukawa, ainda tentou justificar-se, em artigo publicado em 8 de
janeiro (Folha de S. Paulo): “Estou, por
ora, qualificando de briga de preso com funcionário, pois assim o fato
chegou ao meu conhecimento e assim foi transmitido à imprensa em
concorrida entrevista coletiva do último dia 3. Em nenhum instante se
falou em surra, agressão e muito menos em tortura. O que havia, até aquele
momento, era a notícia de que o preso tivera uma discussão com o
funcionário, passando à luta corporal, sofrendo ambos leves lesões
corporais. Levados à delegacia de polícia, lavrou-se o respectivo termo
circunstanciado da ocorrência e, no mesmo dia, os dois fizeram as pazes,
pedindo ao diretor do estabelecimento que encerrasse o caso”. Mas, na
segunda parte do artigo, admitiu que fatos novos poderiam modificar essa
perspectiva.
Situação da investigação:
Diante da tantas dúvidas, desde o dia 4 de janeiro o secretário de
Segurança Pública, Marco Vinicio Petrelluzzi, pediu que os exames a serem
realizados no Instituto Médico Legal para determinar a causa da morte do
jovem de 22 anos fossem acompanhados pela Comissão Teotônio Vilela de
Direitos Humanos. Alguns dias mais tarde a CTV indicou o patologista da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Dr. Paulo
Hilário Nascimento Saldiva, para acompanhar os
exames do IML.
Nos
primeiros dias também, tendo vindo a público uma carta anônima escrita em
conjunto pelos presos da cela onde estava Fernando Dutra Pinto, o
juiz-corregedor dos presídios de São Paulo, Octávio Augusto Machado de
Barros Filho, viu-se obrigado a interrogar o irmão de Fernando, Esdras
Dutra Pinto, também preso por envolvimento no seqüestro e que estava na
mesma cela. Por ele ficou-se sabendo que no dia 10 de dezembro de 2001
Fernando apanhou de quatro carcereiros com barras de ferro e que, em
seguida, foi abandonado sem qualquer tratamento; que na véspera da morte
de Fernando, quando ele já sentia dificuldade de respirar, não foi levado
ao hospital por falta de escolta; que na tarde em que morreu Fernando,
funcionários do presídio vieram à sua cela para obrigá-lo assinar uma
declaração de que Fernando teria sido levado, desde a surra, três vezes
para o pronto-socorro, declaração que ele se negou a assinar, por não ser
verdade, uma vez que Fernando só foi levado uma vez, para tirar um raio-x
do pulmão.
Tanto o IML quanto a Comissão Teotonio Vilela constataram logo que não
havia envenenamento de nenhuma ordem, estando a morte ligada à agressão
sofrida por Fernando no dia 10 de dezembro. Nessa ocasião, no exame de
corpo de delito feito no IML-Leste, constataram-se “escoriações
e equimoses nas seguintes regiões: escapular esquerda, posterior do ombro
esquerdo, posterior do antebraço esquerdo, posterior da coxa esquerda,
anterior da coxa esquerda, anterior da axila direita, anterior do cotovelo
direito, anterior do antebraço direito” e que
essas lesões foram produzidas por objeto contundente. Mas concluía o laudo
serem lesões de natureza leve, salvo “complicações posteriores
inesperadas” (- Relatório das entidades de Direitos Humanos de São Paulo,
apresentado a Sra. Asma Jahangir, Relatora Especial da ONU
para Execuções Sumárias - setembro de 2003: “São Paulo: Política de
Segurança Pública ou Política de Extermínio” – (ver mais). Desde essa data
Fernando ficou sem nenhum atendimento médico durante 19 dias, só sendo
levado ao pronto-socorro dia 31 de dezembro, dois dias antes de morrer, e,
inutilmente. Constatou-se, na autópsia, que o pulmão de Fernando estava
gravemente infeccionado pela bactéria Staphylococcus aureus. Isso
se explica pois, após as lesões, ele permaneceu com uma ferida profunda
aberta nas costas de 8 a 10 cm e foi submetido a banhos
frios constantes durante a noite, na “cela de castigo”.
Após essas
constatações e diante do relatório de perícia realizado pelo Dr. Saldiva,
a Comissão Teotonio Vilela apresentou, apenas em 6 de abril de 2002, um
relatório que conclui que Fernando Dutra Pinto morreu em decorrência de
tortura: com um ferimento profundo nas costas, não tratado e, ao
contrário, maltratado, contraiu uma infecção generalizada no pulmão que
determinou a parada cardiorrespiratória. É verdade que esse relatório,
desde o início, não tinha o valor legal do laudo do IML, porém as
conclusões de ambos os diagnósticos coincidem.
O que fizeram
as autoridades do Estado de São Paulo para punir os culpados dessa morte
por tortura? Desde os primeiros dias, quando já estavam claros os indícios
de tortura pelos quatro agentes penitenciários, nenhum deles foi afastado
do cargo pelo Diretor do CDP Chácara Belém II e só foi revelado à imprensa
o nome de um deles, o
pivô do que foi descrito pelas autoridades como uma “briga” entre
carcereiro e preso - quando os outros três seriam facilmente
identificáveis. Em 8 de janeiro o Diretor do CDP foi afastado pelo
Secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, mas apenas
por não ter relatado a agressão (“briga”) sofrida por Fernando no dia 10
de dezembro. A Corregedoria da Administração Penitenciária interrogou os
agentes, mas aceitou candidamente suas alegações de ter havido apenas uma
“briga”, sem canos de ferro, banhos frios, etc. A nova Diretora do CDP
Chácara de Belém, Marisa da Costa Gadella Rodrigues, manteve em seus
cargos os funcionários implicados no episódio da "briga", depois
qualificado no laudo da CTV como "tortura". Meses depois, em dezembro de
2002, no inquérito correndo na 5ª Delegacia Seccional da Polícia (zona
leste de São Paulo), no item relativo aos “responsáveis”, constava
“indiciado a apurar”. Apesar de tudo que foi constatado, o delegado
relator do inquérito declarava não haver nas investigações indícios de que
a morte fora decorrente da tortura (“agressões”): “não se chegou a nenhuma
autoria” (Folha de S. Paulo, 21/12/2002).
Quanto ao
inquérito realizado pelo DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à
Pessoa) para apurar a morte dos policiais no flat de Barueri, todos os indícios e incongruências acima
apontados foram desprezados. Concluíram, em 1º de fevereiro de 2002, que
todos os tiros que mataram os dois investigadores e feriram um terceiro
foram dados por Fernando Dutra Pinto, mesmo aqueles de armas que nunca
apareceram. Não teria havido outras pessoas presentes ao acontecimento e a
mancha de sangue de um tipo não correspondente ao de Fernando e ao dos
três investigadores seria, na verdade, do próprio investigador
sobrevivente. E todas as outras incongruências foram enterradas.
Veja
algumas curiosidades sobre o tão falado caso:
A
parente de um dos jovens envolvidos no episódio, temendo a tortura
decorrente da prisão dele, declarou, entre outras coisas:
"Se Silvio Santos
está nas alturas, ele agradeça aos pobres, que são bestas, uns idiotas,
que compram carnê dele, iludidos de que vão ficar ricos, sem ficar." (Folha
de S. Paulo, 05/09/2001)
O
investigador ferido no estranho episódio do Flat Parthenon L'Etoile
Residence, de Barueri, declarou à imprensa estar
se sentindo “injustiçado”. Mas o ministro da Justiça, José Gregori,
enviou-lhe um telegrama de solidariedade. Segundo sua assessoria, seria
uma rotina enviar telegramas a policiais. (Folha de S. Paulo,
11/09/2001)
Fontes:
Agora 07/09/2001, 09/09/2001, 13/09/2001; Diário de S. Paulo
03/01/2002, 04/01/2002, 05/01/2002; Folha de S. Paulo 01/09/2001,
04/09/2001, 05/09/2001, 06/09/2001, 07/09/2001, 11/09/2001, 14/09/2001,
22/09/2001, 25/09/2001, 28/09/2001, 29/09/2001, 04/10/2001, 21/11/2001,
03/01/2002, 04/01/2002, 05/01/2002, 09/01/2002, 10/01//2002, 17/01//2002,
23/01//2002, 06/04/2002, 21/12//2002;
Relatório das entidades de Direitos Humanos de São Paulo, apresentado
a Sra. Asma Jahangir, Relatora Especial da ONU para Execuções
Sumárias - setembro de 2003: “São Paulo: Política de Segurança Pública ou
Política de Extermínio”